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Precisei de dez dias em silêncio para buscar meu "eu"

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Participante de retiro de meditação encontra placa em sítio de Miguel Pereira (RJ) Imagem: Folhapress

Daiana Dalfito

Colaboração para o TAB, em Miguel Pereira (RJ)

2019-03-15T04:04:00

15/03/2019 04h04

São 22h30 de um domingo e a tarefa é árdua: meditar. As pernas estão cruzadas em uma quase posição de lótus sobre uma almofada. Fazia cerca de um mês que a rotina de "sentar" uma hora pela manhã e outra à noite fora abandonada. Retomá-la não tem sido fácil. A mente vaga, o coração acelera e quero levantar.

Quando decidi que faria o curso de Vipassana, sabia que seria difícil permanecer dez dias em silêncio verbal e corporal. Foi um pensamento tolo. Não compreendia naquele momento que a real e desafiante missão viria depois, em tentar aplicar o que eu aprendi naquele período.

Nada aconteceu da noite pro dia. Entre querer saber algo sobre meditação e me enfiar de cabeça foram 12 anos. E, sem querer, fiz de um jeito mais ou menos certo. Segundo Miguel Farias, professor doutor da Universidade de Coventry (Inglaterra), para meditar você deve saber o que busca. "É preciso se perguntar se a motivação é espiritual, autoconhecimento ou relaxamento." O professor Marcelo Demarzo, coordenador da especialização em Mindfulness da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), completa "seja qual for o seu objetivo, é importante que durante o exercício você abra mão de suas expectativas e simplesmente pratique". Que dureza.

O antes

2018 foi um ano de mudanças pra muita gente e por aqui nada ficou no lugar: casa, cidade, segurança financeira e afetiva, tudo mudou. O que sobrou de mim foi um "eu" meio em pé, tentando botar em ordem a vida. Mas uma certeza: eu precisava buscar o que dizia a frase do filósofo alemão Friedrich W. Nietzsche (1844-1900) que me acompanhou nessa quase década e meia: "Werde der, der du bist" (Torna-te quem tu és). Por isso, em julho último, a ideia de enfrentar o retiro que surgiu em 2014, voltou.

Mas, enfim, o que significa meditar? "Uma das afirmações da literatura científica é que trata-se de um procedimento específico que envolve relaxamento, atenção e é autoinduzido. Mas a explicação mais completa vem da tradição tibetana: 'familiarizar-se com a sua mente'", como conta a professora Elisa Harumi Kozasa, pesquisadora do Instituto do Cérebro do Hospital Israelita Albert Einstein.

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Dentro do contexto acadêmico, há três grandes grupos para a meditação com infinitas técnicas e contextos, como explica Demarzo:

- Consciência plena: é a que trabalha a atenção e a habilidade metacognitiva, ou seja, a capacidade de se auto-observar. Aqui está a Mindfulness;
- Construtivas: promovem o afeto positivo e são as técnicas de compaixão, tanto no contexto espiritual quanto laico;
- Desconstrutivas: são as que pretendem gerar insigths e reflexão.

Vipassana está no grande grupo da Mindfulness, que, na real, dela deriva. As duas não são, como esclarece o professor da Unifesp, propostas relaxantes de meditação. "Os efeitos vão variar de acordo com cada vertente, são amplos e têm reflexos neurofisiógicos e físicos. No caso de Mindfulness há momentos de relaxamento, mas a intenção é metacognitiva e muitos meditadores podem ter a mente agitada e sentir desconforto, especialmente, no início da prática".

Bem, eu havia pesquisado, queria me aprofundar em uma viagem para dentro, mas tinha medo. Medo de surtar e de não dar conta do que estava por vir. E todos esses receios podem se tornar reais. Para minimizar os riscos, um pacote de princípios éticos, ligados ou não à religiosidade, ajudam a orientar. E ter um bom professor é essencial. "O problema da prática individualista é que as pessoas nem sempre têm consciência das ideias que elas próprias cultivam. Estamos muito mal em nos conhecer e vivemos em autoilusão", analisa Farias.

O Dhamma Santi - organização internacional sem fins lucrativos que dissemina os ensinamentos de Vipassana - elucida em seu site que a técnica não visa a cura de doenças. Também aponta que pessoas com debilidades físicas rigorosas, transtornos emocionais e problemas psiquiátricos podem não estar aptas à prática. Ao se inscrever, o candidato responde a um questionário amplo e em alguns casos pode ser exigida a aprovação médica para a admissão. "É preciso ter consciência de que a meditação não é pra toda gente. Por exemplo, para alguém que tenha desordem de personalidade ou esteja passando por uma fase intensa de depressão", salienta Farias. Eu, em tratamento contra a depressão há um bom tempo, tive o aval e o apoio da psicóloga que me acompanha para enfrentar essa empreitada.

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Mas há estudos sobre melhora da saúde mental pela meditação. Apesar das pesquisas ainda estarem engatinhando, universidades como Oxford (Reino Unido), Harvard (EUA) e a própria Unifesp contam com núcleos de estudo sobre o tema. Segundo Kozasa, a melhora na qualidade de vida se dá pela maior consciência dos sentimentos e sensações e das nossas reações frente a eles. Assim, a meditação não é uma panaceia.

"As técnicas milenares de meditação foram importadas pelo Ocidente - sobretudo pelos Estados Unidos - como forma de antídoto para nossa vida hiperindustrializada e superagitada, desde os anos 1920. Mas o entendimento de que yoga, meditação transcendental, mindfulness e outras técnicas perpetram milagres não tem comprovação científica", elucida o professor de Coventry. Portanto, não há atalhos. Meditação como em Vipassana é um trabalho e seu alcance é profundo.

O durante

Dez de outubro: a data marcada para começar a imersão. Para chegar ao sítio em Miguel Pereira, região serrana do Rio, as possibilidades eram: ir de carro; enfrentar um sem fim de baldeações de ônibus, arrematada por um táxi, ou pedir uma caroninha para outros meditadores. Optei pela terceira por ser mais viável econômica e logisticamente. Fizemos um grupo. Conversamos. Todo mundo parecia gentil e sensato. Todo mundo na casa dos 30 anos. Duas semanas depois dessa primeira conversa nos encontraríamos na Rodoviária Novo Rio rumo ao retiro.

A viagem de cerca de duas horas se estendeu. Paramos para almoçar e descobrimos o melhor sacolé do mundo. Dois reais de amor em forma de geladinho que iam da manga natural à torta de limão. Pra mim, a experiência de me abrir a pessoas desconhecidas, de bater na casa da Dona Cida e ouvir sua história tomando aquele sorvetinho já tinham valido a vinda.

Pensava: "Vim para me conectar comigo mesma e, mesmo sem meditar, já comecei o processo". Era isso. Eu estava aberta novamente às pessoas, coisa que sempre fui e que vinha podando sistematicamente. Um ponto pra mim.

Na viagem, conversamos. Todos não sabíamos o que esperar. Falamos sobre o que havíamos pesquisado, tagarelamos também sobre nós mesmos e sobre política. E ao avistarmos a entrada do sítio, sabíamos que nossa conexão mudaria. Não nos olharíamos, não diríamos "bom dia". Os homens e as mulheres sequer se cruzariam cerceados por placas que determinavam "limite". Abraços, que não poderiam ser dados dali em diante, e logo entramos em um universo paralelo e regido pelo som do cotidiano primitivo: o que come, ronca, tosse, chora, mas não diz.

Para dentro, mais fundo

O inicio do retiro coincidiu com as eleições e, frente ao clima de animosidade partidária, foi um bálsamo estar distante da avalanche de notícias e brigas. O dia zero começaria oficialmente depois das 18h30. Antes deixaríamos celulares e outros gadgets, relógios, alimentos, amuletos e objetos de fé. Também ficariam dinheiro, adornos, documentos, caderninhos e canetas, livros e tudo o mais que nos distraísse sob a guarda do Dhamma Santi. Iríamos com nossas bagagens e travesseiros para o quarto e a cama designados e ainda podíamos trocar meia dúzia de palavras.

Após uma sopa ser servida e as informações gerais serem repassadas mais uma vez, um silêncio em princípio incômodo se abate sobre os 50 homens e 50 mulheres que agora estão divididos. Cada grupo é composto de alunos novos e antigos, sendo os primeiros maioria. Além dos meditadores aprendizes, no sítio estão voluntários que farão a comida e organizarão o retiro, além do professor assistente responsável. Sim, assistente. Quem nos ensinará três técnicas de meditação - Anapana, Vipassana e Metta - nos próximos dias é S. N. Goenka, um birmanês morto em 2013. Goenka seguiu a tradição de Sayagyi U Ba Khin, dedicou mais de quatro décadas a propagar a técnica Vipassana e ajudou a espalhar centros do Dhamma Santi pelos cinco continentes. Vipassana, por sua vez, é uma meditação com mais de 2.500 anos de tradição e é atribuída ao Buda histórico, Siddhartha Gautama.

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A voz rouca e potente de Goenka nos orienta durante parte das meditações, canta mantras em certos momentos para "criar um clima propício" e clarifica como se arrancasse de dentro de cada um (pelo menos foi assim comigo) questionamentos e experiências vividas naquele dia, durante a palestra noturna de cerca de 1h15. O dito "bhavatu sabba mangalam" (que todos possam ser felizes) se tornaria algo reconfortante.

A rotina

Goenka também nos diz, dia a dia: trabalhe duro. Mas como explicar para ocidentais que sentar-se e "fazer nada" durante cerca de 11 horas diárias é trabalho? E árduo. A rotina começa cedo. Às 4h toca o primeiro sino. Às 4h15 o segundo. "Levante", ele diz à porta. Às 4h30, está marcada a primeira meditação. Uma de minhas inquietações era não acordar e ter de ser jogada da cama (coisa que jamais aconteceria), ao que Tereza - uma veterana de quatro retiros e responsável pelo sino naquela jornada - disse: "Não se preocupe".

Não perdi a hora sequer uma vez. Acordava antes do badalo na maior parte dos dias. Logo eu, que nunca gostei de sair da cama com as galinhas e vivo me enrolando com a soneca. A rotina madrugadora é leve, traz sons, cheiros e cores suaves, mas para muitos ali, soube depois, era a hora mais difícil. Pra mim, a de maior concentração e sossego. Era como se toda a infância interiorana viesse com força e recobrasse ali suas raízes.

O café só é servido às 6h30 e não adianta a barriga reclamar sonoramente em meio ao silêncio da sala ampla e repleta de colchonetes azuis. Cada qual designado a um meditador com o cuidado de abrigar todos aqueles mundos particulares, mas separar os sexos biológicos. Come-se a vontade. Comida saudável e vegetariana: pão quente com manteiga, frutas, leite, iogurte com granola e uma papa de aveia com uma calda de ameixa. Também há na bancada açúcar cristal, café solúvel e geleia. São as "drogas" permitidas: doce e um arremedo de café. Achei melhor me abster.

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Terminado o desjejum, segue-se o descanso. Algumas voltam para suas camas, outras lavam suas roupas, varrem, retiram o lixo do banheiro, caminham. Nos resta, aliás, caminhar, já que outros tipos de exercícios são desaconselhados a fim de evitar distrações. A manutenção dos quartos e do banheiro coletivo que as alunas novas usam é feita coletivamente.

A limpeza, a caminhada, o banho ou o descanso só são permitidos nesses horários determinados como pausas. Nas horas designadas como "meditação" seja na sala coletiva, nos quartos de dormir ou nas celas (salinhas para a prática individual que só os alunos antigos podem usar) só se faz meditar. Beber água e ir ao banheiro, se espera, seguem a mesma lógica.

Seguem-se mais duas sessões com um intervalo curto e, depois, o almoço - onde mais uma vez se come a contento. Mais outro período de descanso e é hora de falar, se quiser, com o professor(a). Nesse início de tarde, se desejarem, 15 das 50 mulheres (e o mesmo número de homens) podem se inscrever para tirar dúvidas com o mestre. Nada que ultrapasse cinco meros minutos, nada de divagações. A lista estava sempre preenchida por completo e eu só fui até lá uma vez e, mesmo assim, me sentia sem ter o que dizer.

Não sei, sinceramente, o porquê. Talvez minha mente estivesse se aquietando, talvez eu temesse começar a falar e não parar. Mas só um episódio me desestabilizou ao ponto de me impelir a conversar e questionar. E, mesmo neste, de uma forma ou outra eu sabia o que fazer e, acreditava, tinha agido bem. Se sorte ou consciência, só Deus sabe.

Aqui, aliás, Deus está de forma ampla. Não se quer saber se você é budista, católico, umbandista ou protestante. Sua fé não importa, Vipassana é não-sectário, o que significa que não há um propósito religioso ou ritual, mesmo que suas raízes sejam budistas. De toda forma, as questões morais estão ali, ao entrar no retiro há cinco preceitos que formam a "sila": não mate qualquer ser; abstenha-se de roubar; não pratique qualquer atividade sexual; não minta e não use intoxicantes. O nobre silêncio ajuda em parte desta tarefa e auxilia na aquietação da mente e do corpo. Estamos tão acostumados com a falação e o superestímulo e não percebemos o quanto isso tudo nos agride. No último dia, quando se volta a falar, o corpo aponta para o transtorno: os ouvidos zunem, a garganta enrouquece e os olhos batem intranquilos.

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Acabada a sessão de dúvidas, voltam as meditações à tarde. As piores para minha alma preguiçosa. Um sono maluco se apoderava de mim, talvez mais uma vez lembrando do tempo em que meus ancestrais baixavam a porta da loja ou deitavam sob uma árvore no sítio para a sesta. Era tormentoso manter os olhos fechados e não roncar, outras vezes me pegava no meio de um texto como esse, escrito com esmero todo pela pena da mente. Se tentasse, seria capaz de repeti-lo. Opa. Lá se foi a concentração.

No fim do dia, às 17h, a última refeição: um lanche com frutas, leite e chá para os novatos. Só limonada e chá para os veteranos. Mais um descanso e o turno da noite reserva mais meditação e a palestra de Goenka, seguida de uma sessão de perguntas em voz baixa ao professor, que entendi, só fariam eu orientar minha prática buscando o que os outros estavam sentindo. Melhor ir para a cama.

Diariamente, eu temia que minha cabeça doesse. Tenho hoje episódios menos dramáticos de uma dor composta de vários fatores que vão da tensão à enxaqueca, mas ela ainda aparece. Em Miguel Pereira ela não veio. À noite esperava não dormir, como depois descobri, aconteceu com outras pessoas. Mas eu batia na cama e tinha um sono tranquilo - às vezes, acordava rindo - exceto pela última, seguida à retomada da fala, que veio cheio de pesadelos.

O mergulho em mim

"Conhecer-se a si mesmo" é um mote da filosofia, seja ela grega, contemporânea ou hindu. A frase mais famosa para os ocidentais é atribuída a Sócrates. Mas como fazê-lo? E como compreender-se se o "eu" é uma construção? Se não existimos separados do todo? Essas questões não têm respostas intelectuais por Vipassana. Não é um jogo lógico. A técnica quer que você compreenda por suas experiências empíricas - baseadas nas sensações corpóreas - que a vida é aquilo que é e não o que gostaríamos que fosse.

Conhecer-se a si, aqui, é apenas experimentar sem julgar e sem sentir aversão ou avidez. Simples e nada fácil. O treinamento começa com três dias em que se observa a respiração e as sensações locais que ela provoca. Respirar, sem interferir e estar atento. 11 horas por dia. Uma repetição sem fim que explodiu por todos os meus poros e não me deixava ficar quieta. Eu, que julguei as moças que recolhiam pilhas de almofadas nas primeiras sessões meditativas, me vi rodeada por uma dezena delas, uma cadeirinha ruidosa e mesmo assim sem posição para ficar.

Doía o corpo uma dor sem dor. Era algo que vinha de dentro, uma inquietação que sempre senti e sobre a qual me emociono ao escrever. Ela não me abandonou e quando, depois do quarto dia, parte das meditações exigiam a "firme determinação" de se manter imóvel, eu alternava momentos de êxtase e terror. Mas dali também vinha o ensinamento de Vipassana: "anicca", ou seja, impermanência.

Além da imobilidade impossível, me dei conta de outros tantos desafios que ali se propunham: eu olhava demais. Não fui capaz de baixar a vista todo o tempo. Tecia enredos sobre as pessoas, temia que me odiassem por incomodá-las, sofria porque queria ajudá-las mas não podia. Aos poucos vi que era muito menos a jornalista que estava ali e que usava essa desculpa da "profissão" e muito mais alguém que projetava nos demais suas próprias inseguranças e os julgava, julgando a mim mesma. Baixei o quanto pude o rosto e olhei pra dentro.

Vipassana é um processo de autodisciplina e cada experiência é única. A técnica ensina a cada um como compreender as razões do sofrimento por seu próprio esforço, através da experimentação. Você é incentivado a desconfiar e a só acreditar no que pode provar. Outro objetivo é liberta-se do apego e da ilusão de controle que o mundo nos oferece. Por tudo isso, a prática não busca relaxamento e pode doer de forma física e emocional.

Ouvindo as mulheres e, depois, os homens com quem convivi silenciosamente durante aqueles dez dias, pude compreender que cada um se defrontou com seus próprios fantasmas e é preciso ter coragem e certa estrutura para reconhece-los. Mas nessa jornada há presentes em pequenos drops, onde só se apercebe com o olhar atento: intolerâncias a serem vencidas se manifestam de formas simples, como no ranger da cama da vizinha, e sentimentos de inadequação começam a ser curados quando as roupas e a forma ganham elogios. Parecem bobagens, mas são conexões e apontam para o todo.

Agora é sexta-feira, 00h11, e estou imersa em um turbilhão de lembranças desses dias de ensinamento. Perdi a hora de meditar e, sei, vai ser mais uma pequena batalha sentar e me concentrar no ar entrando e saindo pelas narinas. Mas, que bom, amanhã pode ser diferente. Assim como quando a dor bate ou a alegria é incontida. "Anicca", tudo diz. Impermanência para os dias em que nos fazem acreditar que tudo é eterno no contrassenso do descartável desse mundo hiperconectado em superfície. Consciência para encarar essa lógica que nos faz querer crer que não podemos enfrentar a dor e que a felicidade está em ter.

Esse texto não é um convite ou uma carta de incentivo, mas um relato pessoal. Cada um sabe de si e do seu tempo de compreensão da vida, do mundo, do eu.

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