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"É subversivo exercer nosso luto": o dia no Rio pela memória de Marielle

Escadaria que dá acesso à Câmara do Rio ficou ocupada por homenagens a Marielle Franco - Andréia Lago/Eder Content
Escadaria que dá acesso à Câmara do Rio ficou ocupada por homenagens a Marielle Franco Imagem: Andréia Lago/Eder Content

Andréia Lago

Da agência Eder Content, no Rio de Janeiro

16/03/2019 04h00

O Rio de Janeiro acordou na quinta-feira, 14 de março, com um arco-íris que cobria os Arcos da Lapa, um dos cartões postais da cidade. A construção, feita por escravos negros e índios, ocorreu no século 18, quando o fenômeno climático não passava disso: um fenômeno climático. Dois séculos depois, esses fachos de luz no céu já haviam sido ressignificados: se tornaram sinônimo de diversidade e paz. Foi assim, com um símbolo da tolerância, que a cidade se abriu para o dia por Marielle Franco.

Perto das duas da tarde, as cores do arco-íris podiam ser vistas novamente em frente à Câmara Municipal do Rio de Janeiro, na Cinelândia, mas já não chamavam atenção. O guarda-sol colorido do ambulante que vendia bebidas geladas era apenas uma proteção para o calor de 36 graus do verão carioca. Estrategicamente posicionado ao redor de uma ampla roda de cadeiras brancas, ele esperava o público aumentar. "Achei que teria mais gente aqui", dizia a outro ambulante.

A escadaria que dá acesso ao antigo local de trabalho da ex-vereadora estava ocupada apenas por fileiras de pequenas frases escritas em papel branco. O calor já tinha murchado a beleza das flores amarelas colocadas às oito da manhã ao lado de pequenos cartazes, vários com a frase "Marielle não será interrompida". Eram 365 girassóis marcando o primeiro aniversário do assassinato.

Ato que marcou um ano sem a vereadora Marielle Franco teve manifestações artísticas e política e reuniu milhares de pessoas no Centro do Rio - Taís Vilela/UOL
Ato que marcou um ano sem a vereadora Marielle Franco teve manifestações artísticas e política e reuniu milhares de pessoas no Centro do Rio
Imagem: Taís Vilela/UOL

Fazia um silêncio inexplicável na praça. Vez ou outra, se ouvia o som da sineta que alerta pedestres para a passagem do VLT, o moderno trem que circula no centro do Rio. As cadeiras brancas foram sendo ocupadas. Mulheres, muitas mulheres. Homens também. Jovens de cabelo colorido, senhoras de cabelos brancos. Turbantes, cabelos afro, tranças arranjadas no alto de cabeças negras. Ao fotografar, os detalhes passavam em frente ao meu olhar: abraços longos e afetuosos, semblantes tristes.

Quando a aula magna com o tema "Eu sou porque nós somos" começou, a voz da professora Thula Pires, doutora em Direito pela PUC-RJ (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro) soava firme e calma. "É subversivo exercer nosso luto", disse ela para uma plateia silenciosa. Ao fundo, técnicos testavam o som para a manifestação marcada para as quatro da tarde. "Pois paz sem voz, não é paz, é medo", cantava O Rappa nos alto-falantes.

Não houve vaias ou aplausos nem mesmo quando Thula, vestida de branco, citou declarações do prefeito carioca, Marcelo Crivella, do governador fluminense Wilson Witzel e do ministro do Gabinete de Segurança Institucional do governo Bolsonaro, general Augusto Heleno. Nos três exemplos citados pela professora, frases de defesa, apoio ou justificativa da violência policial nas favelas do Rio de Janeiro. As palmas soaram logo em seguida: "Parem de nos matar. Precisamos de um pacote anti-morte", pediu a acadêmica, em referência ao pacote anti-crime encaminhado ao Congresso pelo ministro da Justiça, Sergio Moro. Já não havia cadeiras vazias ao redor. Na escadaria, os espaços entre cartazes e flores murchas iam sendo ocupados rapidamente.

Negra, lésbica, feminista, "cria da favela" e defensora de direitos humanos, Marielle estava no segundo ano de seu primeiro mandato como vereadora - Reuters
Negra, lésbica, feminista, "cria da favela" e defensora de direitos humanos, Marielle estava no segundo ano de seu primeiro mandato como vereadora
Imagem: Reuters

Na mesma praça, uma estrutura quadrada com barras de aço parecia fora de lugar. Era uma cela vazia. Ostensivamente vazia. A placa questionava: "A cela continua vazia. Quem mandou matar Marielle e Anderson?". O calor me venceu e procurei refúgio na cafeteria no outro extremo da Cinelândia. Durante meia hora, me abasteci com chá gelado e ar condicionado para voltar à praça e acompanhar o ato político-cultural batizado de Festival Justiça por Marielle Franco.

Ao retornar, a praça era outra. Ambulantes ofereciam água, cerveja e refrigerante gelado em alto e bom som. Bandeiras se enroscavam em frente ao palco. O cheiro de pipoca fresquinha se espalhava no ar, misturado à fumaça dos espetinhos assados ali mesmo, no meio da muvuca. Um grupo de teatro usando roupas pretas interpretava o medo que se espalha na favela quando a polícia chega, representada por um personagem com chifres.

Aos pés da escadaria da Câmara, uma aglomeração se formava em torno de duas bancas. Uma vendia broches com frases e imagens iconográficas de Marielle. Três por R$ 10, anunciava o vendedor. Ao lado, uma senhora vendia camisetas e sacolas de tecido com temas feministas. "Nós somos de Jacareí (SP), viemos apenas para a manifestação. Depois, só vendemos pela internet", explicou. Outra banca, improvisada sobre uma bicicleta, oferecia panos de chão com a imagem do presidente Jair Bolsonaro por R$ 10.

Broches e lembranças são vendidos em ato pela memória de Marielle Franco - Andréia Lago/eder content
Broches e lembranças são vendidos em ato pela memória de Marielle Franco
Imagem: Andréia Lago/eder content

No centro da praça, ainda havia pequenos espaços vazios. Uma senhora franzina de cabelos totalmente brancos olhava na direção do palco, mas dali era impossível enxergar a moça negra que se apresentava ao som de tambores afro. No meio da multidão que aumentava, a mulher de cabelos brancos era das poucas que não usava adesivos, broches ou camiseta em referência à Marielle. Mostrava apenas curiosidade.

No alto da escadaria, uma grande cabeça de papel machê representando a ex-vereadora ocupou o topo da pilastra do balcão à esquerda da entrada da Câmara. Chegar até lá já exigia malabarismos nos raros espaços vazios em meio à plateia sentada nos degraus. Ninguém pisava nos pequenos cartazes com girassóis. Crianças se divertiam com adesivos e flyers abanadores da campanha #nãoénão. O que era apenas uma cabeça negra ganha um corpo com vestes africanas e grandes braços que balançam. Uma Marielle gigante olha para a praça já lotada, e dança.

Cercada de história, a Praça Floriano Peixoto vai sendo ocupada por manifestantes. Do outro lado da Av. Rio Branco, alunos da Faculdade de Serviço Social da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) abrem uma faixa nas escadas da Biblioteca Nacional. Na entrada do Theatro Municipal, cerca de 30 pessoas sentadas nos degraus assistem à movimentação nos bastidores do palco. Por ali, transitam políticos como a deputada Jandira Feghali (PCdoB) e o ex-deputado Chico Alencar (PSOL). Uma equipe de TV aguarda junto à grade da área reservada até que a entrevistada chegue. Bem de perto, parece que é a própria Marielle quem chega para dar entrevista. Anielle Franco, a irmã, tem o mesmo sorriso.

Anielle Franco (esq.), irmã de Marielle Franco, junto da deputada federal Jandira Fegali em ato no centro do Rio - Paulo Carneiro/AM Press/Folhapress
Anielle Franco (esq.), irmã de Marielle Franco, junto da deputada federal Jandira Fegali em ato no centro do Rio
Imagem: Paulo Carneiro/AM Press/Folhapress

No outro extremo da praça, o monumento ao republicano Floriano Peixoto também serviu de palco. De um lado, uma artesã enfileira pequenos quadros com entalhe em madeira de figuras feministas. Acima dela, uma placa onde se lê "O amor por princípio, a ordem por base e o progresso por fim" aos pés do segundo presidente da República - um vice que assumiu após a renúncia de Deodoro da Fonseca, anunciou a dissolução do Congresso e a deposição de 13 governadores que o haviam apoiado.

Em outra lateral do monumento, uma jovem negra vende placas de rua com o nome de Marielle - iguais àquela que dois apoiadores do então candidato Jair Bolsonaro quebraram e postaram nas redes sociais durante a campanha eleitoral. Há três caixas grandes de papelão, um estoque que ela pretende esgotar ao longo das horas seguintes de manifestação. O lançamento de um mapa digital colaborativo para homenagear a ex-vereadora no primeiro aniversário de sua morte deve contribuir para esvaziar as caixas: a proposta é que cada um que possua a placa da Rua Marielle Franco adicione sua localização para que o endereço se multiplique.

Acima do estoque à venda, uma solitária placa azul com o nome da ex-vereadora foi estrategicamente posicionada no pedestal do monumento junto a outra, escurecida pelo tempo. Nela, está escrito "Libertas quae sera tamem" - liberdade, ainda que tardia. Marielle, mulher negra, lésbica, favelada, defensora dos direitos de minorias, figura junto ao lema dos inconfidentes mineiros que lutaram contra a monarquia portuguesa no século 18.

Placa de rua em homenagem a Marielle Franco durante ato na Cinelândia, na quinta-feira (14), no Rio de Janeiro - Zezzynho Andraddy/Futura Press/Folhapress
Placa de rua em homenagem a Marielle Franco durante ato na Cinelândia, na quinta-feira (14), no Rio de Janeiro
Imagem: Zezzynho Andraddy/Futura Press/Folhapress

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