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Sons coloridos prometem concentração para você nesse mundo barulhento

Arte/TAB
Imagem: Arte/TAB

Luiza Pollo

Da Eder Content, em São Paulo (SP)

2019-04-01T04:04:00

01/04/2019 04h04

Sugestão: pare de ler agora, clique nos ícones abaixo e volte a ler... Ficaram para trás os carros na rua, os colegas de trabalho conversando, toques de telefone, a reforma na casa ao lado, um avião passando. Depois de identificar cada som à sua volta, pode ser difícil se concentrar. Mas não faltam vídeos no YouTube, aplicativos, sites e aparelhos que prometem oferecer uma solução mágica: o ruído branco. Vende-se a ideia de que esse som e seus derivados - o ruído rosa e o marrom - melhoram a concentração, o rendimento no trabalho, reduzem a ansiedade e até ajudam a dormir melhor. Tem fundamento, mas não é bem assim.

A cor do som

Não é sorvete napolitano, mas rosa, branco e marrom são também ruídos para a concentração
(a experiência fica melhor no fone)

Esses sons não têm nenhuma propriedade mágica. Há quem diga que eles imitam o barulho ouvido pelos bebês no útero ou que ativam o cérebro para realizar tarefas que exigem foco. Na verdade, os ruídos branco, rosa e marrom podem sim ser benéficos, mas simplesmente porque servem como uma espécie de cortina de som que abafa barulhos indesejados. Imagine que um cachorro começa a latir bem alto. Se você estiver num ambiente silencioso, pode levar um susto, mas se já estiver imerso em outro barulho, o novo som fica menos relevante.

"Existe um mecanismo no cérebro, o mecanismo de segregação auditiva, que faz com que depois de um tempo você passe a filtrar um ruído contínuo. Quando ele é constante, como o ruído branco, o cérebro filtra para fora e você pode se concentrar mais naquilo que está fazendo, porque ele ajuda a mascarar outros ruídos pontuais com frequências parecidas", explica Andrey Ricardo da Silva, professor do Departamento de Engenharia Mecânica e do Laboratório de Vibrações Acústicas da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).

Pode parecer contraintuitivo, mas a ideia é essa: disfarçar um ruído com outro. Por isso é importante entender quais sons são indicados para criar uma "barreira" sem atrapalhar por si só a concentração. O ruído branco leva esse nome - e essa fama - porque contém todas as frequências sonoras na mesma intensidade, e portanto consegue "mascarar" sons indesejados em todas as frequências. O nome é uma referência à luz branca, que contém todas as cores (frequências de luz).

Relaxe ou se concentre

Clique nas imagens, ajuste o volume, misture os sons e curta

Sons de 20 até 20 mil hertz são tocados simultaneamente, e nosso cérebro combina todo esse barulho em um ruído constante, que depois de um tempo é filtrado pelo cérebro e não nos atrapalha, mas ao mesmo tempo ajuda a mascarar outros sons. Já o rosa tem menos frequências altas e, portanto, um tom médio. O marrom, por sua vez, soa mais grave por conter uma quantidade menor de frequências altas e médias. Na prática, os ruídos branco e rosa costumam ser usados para medir o funcionamento de aparelhos como caixas de som, afirma Silva. O eletrônico é alimentado com o ruído, e os engenheiros usam aparelhos específicos para identificar se todas as frequências de onda são transmitidas.

Pelo modo como nossos ouvidos e cérebro processam os sons, o ruído branco pode incomodar e soar muito agudo, principalmente nos primeiros minutos em que o escutamos, até o cérebro se acostumar. Entram em cena os outros dois "sabores" desse sorvete napolitano acústico. As frequências predominantemente médias e baixas dos ruídos rosa e marrom fazem com que eles sejam considerados mais agradáveis, apesar de não conseguirem "mascarar" barulhos mais agudos do ambiente.

"Se o ruído branco é como ser picado por um bilhão de agulhas minúsculas, o ruído marrom é como ser envolvido por bilhões de metros de algodão", escreve Madaleine Aggler no The Cut, em reportagem sobre sua experiência pessoal com os diferentes tipos de sons para se concentrar no trabalho. Em tweet abaixo, a jornalista brinca que sua música favorita da atualidade é "dez horas de nada".

No meio do campo

De a volta ao mundo escutando sons de áreas rurais que criam conforto e relaxamento

Mauro Muszkat, neurologista e professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), explica que avaliações como a de Madaleine fazem sentido, neurologicamente falando. "Um ruído branco pode ser perturbador para uma pessoa e agradável para outra. Assim como a música é basicamente uma linguagem emocional, depende do que eu acumulei na minha memória, do que eu interpreto como emoções mais positivas, de relaxamento ou de irritabilidade." Tem gente que prefere ouvir música clássica, outros gostam de uma vibe natural, com o barulhinho da água e dos pássaros em uma floresta, e tem aqueles que encontram conforto em sons mais "estáticos".

É uma questão comportamental, explica o psicólogo Rodrigo Puppi, que descobriu o ruído branco como usuário e hoje sugere a ferramenta no consultório. "Eu usava quando precisava estudar em lugares públicos, quando precisava focar e tinha barulho em volta. De lá para cá comecei a pesquisar um pouco, curioso sobre as finalidades supostamente terapêuticas", relata. "Os estudos na área são inconclusivos, então não vou indicar para os pacientes como uma ferramenta milagrosa. Tento visualizar um uso que tenha sentido, conhecendo as aplicações e o paciente."

Enquanto os efeitos da música no cérebro e na aprendizagem foram vastamente estudados e muitos benefícios comprovados, com o ruído é um pouco diferente, como observa Puppi. Por enquanto, um dos trabalhos mais conhecidos na área foi realizado por pesquisadores na Austrália e publicado na revista científica Nature em 2017. O estudo teve a participação de 80 jovens adultos e concluiu que a presença de ruído branco aumentou significativamente o aprendizado de novas palavras pelos participantes, mas que esse efeito não foi influenciado por uma melhora na atenção. A impressão dos pesquisadores é que os melhores resultados no aprendizado foram consequência da mudança nos níveis de dopamina, o que não pôde ser comprovado na pesquisa.

Imersão sonora

Desfrute dos barulhos que te transportam a outros ambientes para aumentar a produtividade

Outros estudos demonstraram que o ruído branco pode ajudar crianças com déficit de atenção e atrapalhar aquelas com capacidade de foco acima da média. Portanto, a conclusão mais aceita atualmente em torno dos estudos sobre o tema é: os resultados são inconclusivos. Vale testar a técnica (controlando o volume do som e o tempo de uso) e identificar individualmente se ela ajuda ou não nas tarefas do dia a dia. Puppi, por exemplo, sugere o ruído branco como um apoio em atividades de relaxamento e meditação.

Desde a primeira noite em casa, o filho mais novo da enfermeira Lilian Supimpa se acostumou a dormir ouvindo ruído branco. O pequeno se acalma rapidamente com o som, que ajuda a ambientá-lo para uma soneca até fora de casa, conta a mãe.

Havia mais de três anos, Lilian testara pela primeira vez a técnica para ajudar no sono do filho mais velho, à época com cinco meses de idade. "Ele dormia em um quarto próximo ao nosso, e qualquer barulho que a gente fazia, ele acordava. Uma amiga sugeriu colocar o ruído branco, e na primeira semana eu já vi diferença. Ele dormia bem mais profundamente, a gente podia conversar no quarto", lembra. Hoje com quatro anos, o pequeno às vezes pede para dormir com o barulho para conseguir descansar quando viaja de carro. Ela usa a técnica também quando recebe amigos em casa para o jantar e não quer atrapalhar o sono das crianças. Apesar da experiência positiva, Lilian não usa o som todas as noites para garantir que os meninos não se tornem dependentes ou tenham consequências no sistema auditivo.



Como enfermeira, Lilian recomenda - com cautela - a técnica para futuras mães. "Trabalho com gestantes, então é uma coisa que indico. Dependendo da personalidade da criança, ela pode ter sonecas muito curtas, mas precisa dormir pelo menos uma hora", explica. Lilian cita vídeos no YouTube, que chegam a disponibilizar 24 horas de ruído branco ininterrupto, mas em casa tem aparelhos específicos para essa função. No Canadá, onde morava, e nos Estados Unidos, as " white noise machines" são mais comuns do que no Brasil e podem ser encontradas até mesmo em farmácias e lojas de artigos para bebês.

Antes de sair correndo para instalar uma caixa de som no quarto dos filhos, atenção. O estímulo sonoro contínuo e muito alto pode ser prejudicial a qualquer pessoa, principalmente aos bebês e crianças pequenas, cujo sistema auditivo ainda está em formação, alerta o professor Andrey Ricardo da Silva. Ele não rejeita o uso da tecnologia, mas explica que é preciso usar o bom senso e, se possível, até mesmo medir a intensidade do som. Um estudo de pesquisadores e médicos da Universidade de Toronto e do Hospital for Sick Children, no Canadá, acendeu um alerta ao descobrir que algumas máquinas de ruído branco chegam a emitir som de 85 decibéis (dB), que pode ser prejudicial até mesmo para adultos expostos por longos períodos. O estudo não cita as marcas dos aparelhos.

Mas então qual é o limite seguro? "É complicado indicar um nível exato, porque as pessoas não costumam ter um medidor de som calibrado, e depende muito da distância também", afirma da Silva. "Dá para baixar um medidor no celular e colocá-lo do lado do ouvido do bebê. Tem que marcar no máximo 40 dB", aconselha. Para se ter uma ideia aproximada do volume, a Organização Mundial da Saúde classifica, em estudos, o som de uma conversa em tom normal em 50 dB.

Os ruídos já viraram negócio. Sites e aplicativos como o Noisili e o MyNoise oferecem versões gratuitas e pagas com diversas opções de som para os usuários. Em ambos, os barulhos vão além dos ruídos branco, rosa e marrom, incluindo principalmente sons da natureza, como vento, água corrente e pássaros. Muitos trabalhadores criativos, como o roteirista Matthew Federman, adoram ouvir o barulho da chuva para escrever.



Outra alternativa são as playlists em aplicativos como o Spotify. Uma delas, intitulada White Noise, tem aproximadamente 315 mil inscritos, quase tão popular quanto a playlist This is The Rolling Stones, que conta com pouco mais de 400 mil. No YouTube, não faltam opções de vídeos com sons que prometem relaxar, ajudar a dormir ou a se concentrar. Agora você já sabe que não é bem assim, e que esses ruídos ajudam apenas a mascarar outros sons. Enquanto para alguns esse "silêncio" fabricado pode facilitar a concentração, para outros pode ser incômodo.

"Eu acho que é uma questão de autoconhecimento e de usar o som como experiência", reflete Muszkat. "Singularizar o som e entender se ele tem uma ação positiva nos seus processos quando está fazendo exercício, estudando? Escolher a música ou o som para sintonizar com uma emoção positiva é uma experiência que tem a ver com singularidade."

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