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Como eu fui treinar roller derby, a porradaria sobre patins entre mulheres

Praticantes do roller derby fazem treinamento de contato no parque do Ibirapuera, em São Paulo - Alexandre Schneider/UOL
Praticantes do roller derby fazem treinamento de contato no parque do Ibirapuera, em São Paulo Imagem: Alexandre Schneider/UOL

Letícia Naísa

Do TAB, em São Paulo

17/04/2019 04h02

Ao chegar na marquise do Ibirapuera e colocar um par de patins antes de participar de um treino de roller derby pela primeira vez, senti medo e vergonha por ser uma mulher adulta sobre oito rodas que provavelmente cairia na frente de desconhecidos. Pedi ajuda para levantar e dar as primeiras voltas pelo espaço e lembrei de conselhos que ouvi quando contei que estava com medo: a gravidade é universal, todo mundo vai entender se você cair, do chão não passa. Depois de dois treinos puxados, ganhei marcas roxas nas pernas, sinto dores em músculos que nem sabia que existiam e não consigo subir uma escada. Mas realmente do chão não passei.

Há dois anos descobri uma pista de patinação na Mooca, zona leste. Por uns meses, fiquei viciada na sensação de sair voando numa pista. Curtir uma baladinha sobre rodinhas, estilo filme norte-americano dos anos 1980, no meu bairro já parecia divertido o suficiente. Até que um dia ouvi falar de um esporte praticado sobre as quatro rodas cheio de porradaria entre mulheres. Como jornalista, fui movida pela curiosidade e resolvi ver como era treinar para ser jogadora de roller derby no Brasil. Como mulher, fiquei interessada em participar de um esporte majoritariamente feminino.

O esporte surgiu nos anos 1930 nos Estados Unidos como uma corrida de resistência para patinadores. Na época, era um esporte misto praticado em uma pista oval com o objetivo de dar o maior número de voltas possível. Os momentos mais excitantes, no entanto, eram os choques entre os patinadores. Assim, nos anos 1940 surgiu o esporte mais ou menos parecido com o que é praticado hoje: com dois times correndo por uma pista oval para marcar pontos. Naquela época, era pura porradaria, quase uma rinha de garotas.

Com o passar dos anos, o esporte, que era televisionado, foi perdendo espaço. Apenas nos anos 2000 ele foi recuperado por um grupo de garotas em Austin, no Texas (EUA). Oficialmente, segundo a WFTDA (Women's Flat Track Derby Association), órgão máximo do esporte (tipo uma Fifa do roller derby), hoje existem 468 ligas em seis países pelo mundo. O Brasil abriga 11, sendo as duas maiores em São Paulo: Ladies of Helltown e Gray City Rebels. O esporte está presente no país há dez anos.

As regras do jogo são muitas (mesmo), mas as principais são a proibição de xingamentos na track (espaço oval onde acontece o jogo) e pancadaria desnecessária. É proibido agredir verbalmente e fisicamente uma jogadora oponente de forma proposital. Por isso, o ambiente do roller derby é cercado de diálogo e compreensão, apesar da aparência de jogo agressivo e violento.

Repórter tenta andar para trás com a ajuda de praticante de roller derby. A manobra é importante no esporte amador - Alexandre Schneider/UOL
Repórter tenta andar para trás com a ajuda de praticante de roller derby. A manobra é importante no esporte amador
Imagem: Alexandre Schneider/UOL

"Tomar um tombo de patins é impactante para quem assiste", afirma a treinadora Nathalie Folco, 31, das Ladies of Helltown. "E é um esporte violento, mas eu sou suspeita, sou fã de UFC, então não me assusta. Praticar um esporte de contato e violento é incrível, porque mostra a força que você tem e a vontade de cair e depois levantar, você mostra que consegue."

A sensação de cair, mas conseguir se levantar é um dos fatores que mais move as jogadoras, especialmente as novatas. Muitas delas não sabiam como se equilibrar em cima de patins antes de conhecer a modalidade. "Eu ficava mais no chão que tudo", conta a gerente de projetos e desenvolvimento de sistemas Ana Cristina Carvalho, 35, uma das calouras das Ladies que começou a treinar em janeiro deste ano.

"Já que é pra tombar, tombei" foi o lema nos treinos com muitas quedas - Alexandre Schneider/UOL
"Já que é pra tombar, tombei" foi o lema nos treinos com muitas quedas
Imagem: Alexandre Schneider/UOL

Cair e não conseguir levantar também era um dos maiores medos que eu tinha quando decidi encarar os treinos das Ladies, que conheci por meio de uma colega no trabalho. Por causa da minha curta experiência com patins do tipo quad (aquele com duas rodas na frente e duas atrás), achei que andar com eles fosse como andar de bicicleta: você não esquece. Mas quando subi neles, quatro dias antes do meu primeiro treino, tremi na base e tomei um tombo enquanto tentava mexer no celular. Levei algumas horas na pista de patinação para andar com segurança e achei que estava menos apavorada, mas quando cheguei, levei mais um tempo para conseguir acostumar com as rodas no pé (uma das ideias mais bizarras que o ser humano já teve, diga-se).

Apesar de o treino ser indicado para iniciantes, peguei o bonde andando e vi que todo mundo patinava muito melhor do que eu. Não é preciso saber patinar para começar no roller derby, mas a essa altura do campeonato, em abril, os treinos estavam mais avançados e eu não pude acompanhar todos os exercícios, especialmente os que envolvem contato. Se tivesse começado no que elas chamam de recrutamento, teria aprendido os movimentos desde o início e, talvez, caído menos ou pelo menos com mais graça.

Já se equilibrando, repórter dá volta na pista de competição durante treino no parque do Ibirapuera  - Alexandre Schneider/UOL
Já se equilibrando, repórter dá volta na pista de competição durante treino no parque do Ibirapuera
Imagem: Alexandre Schneider/UOL

Tomei muitos tombos e senti meu corpo doer por dias, é verdade. A parte de cair realmente é difícil de encarar. Ao contrário das crianças que andavam de patins pelo parque do Ibirapuera sem medo algum de se machucar, os adultos têm noção da gravidade de um tombo. Mas a parte de levantar, insistir e conseguir continuar gera uma sensação de superação viciante.

"O roller derby tem uma filosofia muito forte de empoderamento e inclusão. Dentro de um time não tem só pessoas atléticas. Tem gente alta, baixa, gorda e magra", afirma a estilista Paula Fernandes Mitie, 28, que foi jogadora da seleção brasileira.

Patins tem reforços, remendos e decoração com asas para mostrar o amor pelo adereço - Alexandre Schneider/UOL
Patins tem reforços, remendos e decoração com asas para mostrar o amor pelo adereço
Imagem: Alexandre Schneider/UOL

Ser um esporte quase exclusivamente feminino é outro dos grandes atrativos do roller derby, modalidade que mudou a vida de muitas das garotas que praticam. "É muito gostoso ver e fazer parte de algo em que as mulheres foram pioneiras. A gente mostra que, por mais sejamos consideradas o 'sexo frágil', muito homem pena para fazer o que é feito no roller derby", diz Carvalho.

Conversando com a pesquisadora Silvana Goellner, que estuda o papel das mulheres nos esportes e é professora da escola de educação física da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), descobri que a presença feminina nos esportes de forma oficial no Brasil é um fato bastante recente e, por isso, o roller derby é visto com muito entusiasmo.

Homens participam do treinamento, mas não das competições oficiais - Alexandre Schneider/UOL
Homens participam do treinamento, mas não das competições oficiais
Imagem: Alexandre Schneider/UOL

Em 1941, foi instaurada uma lei no país que basicamente proibia as mulheres de praticar qualquer esporte "incompatível" com as "condições de sua natureza". O decreto passou por algumas mudanças durante a ditadura e foi proibido a elas apenas algumas modalidades: futebol (de todo tipo), rúgbi, polo, halterofilismo e beisebol. A lei caiu apenas nos anos 1980, quando começaram os primeiros incentivos para inserção de modalidades femininas nas Olimpíadas.

"O esporte, a grosso modo, é vivenciado pelos homens, culturalmente existe um incentivo para isso porque os meninos são direcionados para ocupar espaços públicos enquanto as meninas ficam nos espaços privados, da casa", afirma. "Sempre existiram mulheres nos esportes, mas a proibição da prática durou muito tempo e se fez muito forte no imaginário da nossa cultura", diz.

Antes do treino, repórter coloca patins e outros equipamentos e mentaliza o que vai fazer na pista - Alexandre Schneider/UOL
Antes do treino, repórter coloca patins e outros equipamentos e mentaliza o que vai fazer na pista
Imagem: Alexandre Schneider/UOL

Para Goellner, é muito positivo existir uma modalidade como o roller derby, feito apenas por mulheres. "É um esporte que requer agilidade e que cria um espaço de sociabilidade entre as mulheres. Isso tem a ver com apropriação do espaço público. O roller derby mostra que as mulheres podem fazer o que elas quiserem", afirma. "É um grupo com ideias muito feministas, existe um orgulho por ser um esporte das mulheres e criar uma resistência nossa contra os homens", completa Mitie.

O que mais ouvi conversando com quem pratica e vive o roller derby é como o esporte mudou a vida delas não só porque o corpo clama por uma atividade física. "Eu passei a pensar mais em mim, melhorou minha autoestima e me deixou mais confiante. Com a evolução dos treinos, você vê que não existe nada impossível", conta Carvalho.

Por meio do roller derby, a treinadora Folco também passou a enxergar a beleza das mulheres com outros olhos. "Sempre achei que ser bonita era ter cabelo grande, unha feita e vestir saia, mas eu sou uma menina de cabelo curto, não pinto as unhas e uso roupas esportivas e me sinto muito mais bonita do que se eu andasse arrumada para a balada. O roller me ensinou esse outro sentido do que é a beleza por meio da força e da independência", diz.

Praticante de roller derby passa dicas para a repórter Letícia Naísa aprender a frear - Alexandre Schneider/UOL
Praticante de roller derby passa dicas para a repórter Letícia Naísa aprender a frear
Imagem: Alexandre Schneider/UOL

Para manter a coesão da filosofia do empoderamento, o roller derby aceita todo tipo de mulher em todo tipo de corpo. Não é preciso ser uma mulher atlética ou magra para praticar o esporte sobre patins, como acontece em outras modalidades. E também não existe biotipo ideal para cada tipo de posição no jogo, ou seja, não é preciso ser magra para ser jammer nem gorda para ser blocker. O roller derby também aceita pessoas trans e para participar das ligas não é preciso fazer testes hormonais, basta ser mulher. O importante (e mais difícil do que dominar as rodinhas) é entender o jogo e aprender estratégias.

"Você pode ser a pessoa mais forte do mundo, posso pegar um cara enorme, só que em cima dos patins, eu, que sou pequena, vou dar uma coça nele", brinca Folco. "O tamanho do corpo é apenas um detalhe, o que conta é o quanto você patina e o quanto você sabe sobre o jogo", diz.

Após o primeiro treino, um selfie com a galera para dar aquela enturmada - Alexandre Schneider/UOL
Após o primeiro treino, um selfie com a galera para dar aquela enturmada
Imagem: Alexandre Schneider/UOL

A marketóloga Ingrid Dara, 29, conta que quando entrou para a liga, achou que precisaria emagrecer e melhorar seu condicionamento físico. "Mas depois, vi que tinha meninas muito maiores do que eu e que iam melhor no jogo que eu. Você põe os patins, e ninguém está olhando seu corpo. O esporte exige dedicação, mas não tem um limitador, você não tem que fazer uma escolha, é só colocar na sua vida e pronto."

Fora homens!

Para criar um ambiente acolhedor para as mulheres, não é permitido aos homens participar dos jogos. Existem, no entanto, alguns times exclusivamente masculinos e ligas que aceitam homens durante os treinos. Mas os jogos para valer e os campeonatos são território proibido para os garotos.

Nos treinos dos quais participei, tinha apenas um rapaz, o físico Flávio Lídio de Oliveira, 26, que pratica o esporte desde o começo do ano. "Conheci por meio de uma amiga que jogava, vi o quanto aquilo mudou a vida dela, então quando acabei a faculdade, resolvi começar a treinar", conta. Ele diz que encara com tranquilidade o fato de não poder participar dos jogos. "Os homens podem ser juízes e acompanhar no apoio as jogadoras, espero poder fazer isso, mas já é bom poder jogar pelo menos nos treinos."

Sedentário autodeclarado, Flávio viu no roller derby um espaço onde poderia praticar uma atividade física e ser ele mesmo, assim como acontece entre as mulheres. "O ambiente de esporte masculino é muito tóxico, tem muito do que esperam de como você age. Achei muito melhor entrar em um espaço onde não esperam que você aja de qualquer forma que seja, ter apenas mulheres e sem julgamentos foi um facilitador para que eu pudesse praticar um esporte", afirma.

Logo do Ladies of Helltown, time paulistano de roller derby - Alexandre Schneider/UOL
Logo do Ladies of Helltown, time paulistano de roller derby
Imagem: Alexandre Schneider/UOL

Carvalho, que praticou esportes "masculinos" antes, como futebol, concorda: "Você não precisa usar uma máscara no roller como você tem que fazer nos outros esportes, em que você tem que se impor, tem que ser machão", diz. "É bom estar em um lugar onde você pode ser você sem se preocupar com ninguém."

Ex-jogadora de hóquei sobre o gelo nos Estados Unidos, a professora norte-americana Cory Blasingame, 34, sentiu na pele a toxicidade de praticar uma modalidade dominada por homens. "Eles eram muito machistas, rudes com as mulheres nos treinos. No roller, todo mundo fica feliz de te ver ali, tem uma diferença brutal", afirma. Na gringa, Blasingame jogava pelo Atlanta Roller Derby, que tem um time masculino.

"Metade das garotas apoia o time masculino, e metade não gosta deles. E eu entendo o porquê. Elas dizem que os homens já têm tudo, então será que não podemos pelo menos ter esse esporte? Elas sentem que deixar os homens jogar significa que elas não podem ter algo que seja só delas", explica. "Eu tenho amigos que jogam lá e apoio, porque o roller derby é um esporte legal. Todo mundo devia jogar", diz.

Um esporte amador

Apesar de ser parte importante da vida de quem pratica, o roller derby não é um esporte profissional. Há, no entanto, um debate grande na comunidade e entre as ligas sobre o dia em que a modalidade puder se tornar um esporte olímpico, por exemplo, e as atletas forem consideradas profissionais.

O lado bom seria receber patrocínio e incentivo. Como todo esporte amador, quem pratica sofre para conseguir organizar campeonatos e oferecer infraestrutura e equipamento adequado para as jogadoras. "Esporte no Brasil já é difícil. Se as mulheres no futebol já sofrem, imagina a gente que, na cadeia alimentar dos esportes, está lá embaixo", diz Folco.

Atualmente, as ligas cobram uma mensalidade (cerca de R$ 100 no caso das Ladies) das participantes para poder promover os jogos e, eventualmente, viagens para campeonatos internacionais. O Brasil participou das três únicas Copas do Mundo que aconteceram (2011, 2014 e 2018), e tudo é custeado pelas próprias jogadoras.

Jogadoras simulam encontrões normais durante as competições - Alexandre Schneider/UOL
Jogadoras simulam encontrões normais durante as competições
Imagem: Alexandre Schneider/UOL

"O esporte amador toma muito da gente, é tempo, dinheiro e muito trabalho para se dedicar", afirma Mitie, que entrou para a seleção em 2013. "Apesar de não ser profissional, eu me considerava uma atleta, porque tinha uma rotina de treino muito rigorosa, treinava, quatro vezes por semana pelo menos por horas, era uma jornada muito intensa", conta.

Para ela, depois da Copa de 2011, as brasileiras voltaram com mais sangue nos olhos para ganhar. "Elas voltaram com uma postura diferente e viram que a parada não era colocar um tutu ficar lá se batendo. Passou a ter mais disciplina e, como eu era uma das pioneiras, isso foi tomando conta da minha vida", diz.

Apesar de ser encarado como um hobby por muitas, é um divertimento que custa caro e toma tempo. "Fiquei muitos anos nisso, quase seis, e o resto da minha vida tinha ficado para trás, achei que era hora de parar. Aprendi muita coisa por ser um esporte coletivo, mas todo ano entra um time novo, porque é amador, não tem uma estrutura profissional, então foi desgastando a relação", conta Mitie.

O fato de ser amador e tudo ficar sob responsabilidade das jogadoras, no entanto, é o que torna o roller derby acolhedor do jeito que é. "Existem pessoas que querem que se profissionalize, mas pessoalmente, prefiro que continue como está, porque, para mim, não é um hobby, mas é minha paixão. Se virar uma modalidade profissional vai virar um emprego. E não vamos poder decidir, por exemplo, quem vai ser a nossa capitã, a nossa comissão técnica, coisas que são aprovadas pelas jogadoras", diz Folco. "As decisões serão tiradas de nós."

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