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É possível misturar série e novela e fazer um híbrido? Já está rolando

Na montagem, a personagem Cersei (Lena Headey), da série norte-americana Game of Thrones, está ao lado de sua versão brasileira, Catarina (Bruna Marquezine), da novela Deus Salve o Rei - Arte/TAB
Na montagem, a personagem Cersei (Lena Headey), da série norte-americana Game of Thrones, está ao lado de sua versão brasileira, Catarina (Bruna Marquezine), da novela Deus Salve o Rei Imagem: Arte/TAB

Ricardo Tiezzi

Colaboração para o TAB, em São Paulo

03/05/2019 04h02

Com os últimos capítulos da série Game Of Thrones, a TV voltou a ser TV: um mundo de gente na frente de uma tela no mesmo horário vendo, obedecendo a grade de programação. Tensão no ar e comemoração a cada desenlace. Um furor de um final de novela de sucesso, estilo o que aconteceu com Avenida Brasil, em 2012.

Essa cena era até frequente durante a era de ouro da televisão, que terminou em algum momento desta década para dar lugar ao mundo do streaming. Hoje em dia, isso só acontece em decisões de futebol e olhe lá.

Apesar do formato e da narrativa diferentes, as séries caíram no gosto dos brasileiros. Mas, afinal, por que a fórmula de sucesso dos seriados gringos é tão diferente das novelas brasileiras?

Corta a ação. Estamos em mais uma manhã na agência Sterling Cooper, cenário de Mad Men. Don Drapper, o publicitário mais poderoso dali, chega para trabalhar. Da gaveta, ele tira uma camisa branca e começa a vesti-la, depois de passar a noite na farra. Seu chefe está na porta, preocupado se Draper teve alguma ideia genial para a campanha dos cigarros Lucky Strike. Draper exala confiança enquanto fecha os botões da camisa, ajeita os punhos e o colarinho. É claro que algo sairá de sua mente, afinal, ele é o cara. O chefe diz confiar no seu executivo, mas, antes de sair, avisa que Draper deixou um botão sem abotoar.

O personagem Don Drapper (Jon Hamm) em mais uma de suas peripécias no escritório do seriado Mad Men - Divulgação
O personagem Don Drapper (Jon Hamm) em mais uma de suas peripécias no escritório do seriado Mad Men
Imagem: Divulgação

Um simples botão e um enorme subtexto. Draper está em crise, não consegue pensar em nada para Lucky Strike. Mais ainda, como o resto da série vai mostrar, no íntimo Draper está longe de corresponder à imagem de sucesso que vende. Parece tudo perfeito em seu cabelo, seu sorriso, sua postura. Mas vai sempre faltar um botão. Um detalhe que fala da condição do personagem.

Imagina a mesma cena em uma novela. O botão passaria despercebido. Já o diálogo começaria assim: "Ei, Draper, confio em você. Você é o cara mais criativo daqui. Mas algo está me dizendo que você não parece bem. Espero que não esteja em crise, meu velho", diz o chefe. Draper então suspira: "Pois é, a verdade é que eu quase não estou me reconhecendo". Descontado o exagero, é assim nas novelas. O subtexto vira texto explícito, o que se passa no interior do personagem vira declaração.

Por eu ser um roteirista que já passou pelas tevês abertas e fechadas, às vezes me perguntam qual é a melhor opção de cena. Mesmo correndo o risco de soar isentão, minha resposta é: ambas. Séries e novelas são filhos de pais diferentes e conversam com públicos diferentes.

É provável que o espectador da série esteja maratonando, vidrado em cada episódio e tuitando ou trocando mensagens sobre cada cena. A era de ouro das séries norte-americanas se beneficiou do aumento das polegadas das telas planas. Agora a experiência pode ter uma certa grandeza cinematográfica. Seus autores vêm da dramaturgia dos palcos ou do cinema, lugar onde a imagem impera.

Gloria Pires e Adriana Esteves deram vida a duas grandes vilãs da telenovela: Maria de Fátima e Carminha - Daniel Marenco/Folhapress
Gloria Pires e Adriana Esteves deram vida a duas grandes vilãs da telenovela: Maria de Fátima e Carminha
Imagem: Daniel Marenco/Folhapress

Nossa televisão, por outro lado, é filha do rádio. A voz manda, e basta checar um roteiro de capítulo de novela para perceber que os diálogos dominam a página. O espectador ou espectadora está ao mesmo tempo com a televisão ligada, nas redes sociais, ouvindo música, passando roupa, fazendo o jantar, impedindo que o filho destrua o enfeite da mesa de centro. Uma tarefa heroica, e por isso impressiona quando um grupo de pesquisa revela que ainda assim a audiência consegue acompanhar cada detalhe da trama. Porque cada detalhe foi verbalizado, repetidamente. O único botão de camisa que essa espectadora típica tem que se preocupar é com o da sua roupa ou de alguém da família, pois ela está costurando ao mesmo tempo em que assiste ao capítulo.

Um choro sempre caprichado


O principal fator, no entanto, que separa o mundo das novelas do mundo das séries é de filiação. Don Drapper e personagens como Gregory House, Carrie Mathison, de Homeland e a dona de casa Nancy Botwin, de Weeds, são filhos de mãe grega e pai francês.

Da mãe, herdaram uma fratura interna, um desencaixe em relação ao ambiente ao redor, uma soma de neuroses e conflitos daquelas que psiquiatra nenhum dá jeito, uma mistura de virtude e vício, glória e miséria. São os genes da tragédia grega.

O ator Hugh Laurie interpreta o médico protagonista principal da série "House", do canal NBC, dos EUA  - Divulgação
O ator Hugh Laurie interpreta o médico protagonista principal da série "House", do canal NBC, dos EUA
Imagem: Divulgação

E o pai? No século 18, o drama burguês surgido na França tirou a tragédia dos palácios e trouxe para a sala de estar. Édipo é um tirano, Hamlet é um príncipe, Othelo é um general, enquanto os heróis de um dramaturgo como Diderot são "O Pai de Família" e "O Filho Natural", não por acaso os títulos de suas peças mais célebres.

"Nada cativa mais fortemente que o exemplo da virtude, nem mesmo o exemplo do vício", diz o personagem Constance da peça "O Filho Natural". Diderot está com o pé no melodrama, o gênero que encena e reencena a velha luta do bem contra o mal.

Aqui nascem os personagens da novela, quando o drama burguês ganha sua versão hardcore. Agora as peças não são apenas para a nova classe em ascensão, mas para serem vistas por metade da França. No Boulevard do Crime, alguns quarteirões cheios de teatros, espécie de Broadway parisiense, multidões iam acompanhar histórias de amores e ódios intensos. O lugar tinha esse nome não porque os cerca de 20 mil espectadores que circulavam por ali corriam o risco de serem assaltados ou mortos nas ruas, e sim pelos crimes encenados nos palcos.

A era do melodrama começa em 1800, com a peça "A Filha do Mistério", de Guilbert Pixerécourt, uma espécie de Janete Clair da época. No caso dessa estreia do melodrama, qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência.

Scripts originais datilografados pela novelista Janete Clair são exemplos de melodrama - Fernando Moraes/Folhapress
Scripts originais datilografados pela novelista Janete Clair são exemplos de melodrama
Imagem: Fernando Moraes/Folhapress

A França estava pouco mais de uma década após a revolução de 1789, e a turbulência ainda tomava conta das ruas. O povo estava agitado, jacobinos brigavam com girondinos, cabeças eram decepadas, a aristocracia dava seus últimos respiros enquanto a burguesia tentava manter suas posições. Só o melodrama juntava povo, jacobinos, girondinos, aristocracia e burguesia no mesmo vale de risos e lágrimas. O melodrama veio trazer um pouco de estabilidade em um mundo caótico.

O melodrama se espalhou dos palcos para o folhetim, em capítulos na parte inferior de uma página de jornal. Do folhetim foi para o cinema, do cinema para o rádio e depois para a televisão. Ou seja, o combo completo. Hoje é fácil xingar o melodrama como um produto simples demais.

Esse gênero já foi chamado de "o divã dos pobres". Parece crítica, mas, se a gente parar pra pensar, com qual divã o pobre pode contar? Talvez a moça que trabalha das 6h às 17h e tenta sonhar nos intervalos de descanso não tenha nem dinheiro nem paciência para uma terapia lacaniana. Talvez para ela a sutileza seja entediante, o que ela quer são emoções fortes. E, de quebra, ainda compreenda alguns valores básicos como perseverar, porque no fim o bem sempre vence.

"Coisa Mais Linda", da Netflix, tem infuência do melodrama dentro do formato de série de streaming - Divulgação
"Coisa Mais Linda", da Netflix, tem infuência do melodrama dentro do formato de série de streaming
Imagem: Divulgação

O melodrama trabalha na intensidade. Ele foi criado para ser ouvido e entendido até a última fileira. Daí as grandes revelações, os tapas, os gritos, as reviravoltas. O choro no melodrama nunca é contido, e o reencontro dos casais é sempre com alta voltagem emocional. E com música. O prefixo "melo" vem de melodia. Na origem, era um drama cantado. Depois, a música permaneceu como forma de sublinhar as emoções. Quando a mocinha chora, o violino toca. Por isso, a lógica das novelas persiste: não me venha com a sutileza das séries norte-americanas, o público quer é emoção na veia.

Encontros e desencontros

Será que os dedos no teclado percorrem caminhos diferentes quando um roteirista escreve uma série ou uma novela? Perguntamos a quem já esteve dos dois lados do balcão. "São completamente diferentes, em alguns aspectos até opostos", afirma Rodrigo Castilho, roteirista de séries como Mothern e O Negócio, e colaborador da novela Sete Vidas.
Ele assinala que o tempo, o ritmo, a quantidade de capítulos e o número de personagens demarcam as linhas entre novelas e séries. Sendo assim, o processo de confecção é muito distinto.

Nas séries "você usa seu tempo compondo os detalhes, criando camadas", diz. Enquanto nas novelas importa o fôlego para uma grande maratona, com os mil desdobramentos que cada enredo pode fornecer. Castilho finaliza a comparação com uma analogia: "É como se nas séries você tentasse fazer o veneno mais potente caber em um frasco, enquanto na novela você tenta fazer a bomba atômica".

Pergunto então se é possível alguma mistura entre séries e novelas, uma espécie de bomba atômica no frasco. "Meu palpite é que em um futuro não muito distante os produtos podem convergir", ele diz. "Vejo cada vez mais os produtores de novela pensando em como conseguir um dinamismo próximo das séries e, por outro lado, os produtores das séries buscando elementos dramatúrgicos próprios das novelas".

Cena do seriado "Breaking Bad" com o personagem principal, Walter White (Bryan Cranston) - Divulgação
Cena do seriado "Breaking Bad" com o personagem principal, Walter White (Bryan Cranston)
Imagem: Divulgação

O roteirista José Carvalho aponta que um encontro entre universos tão diferentes pode acontecer por caminhos inusitados. Ele cita um livro de Jason Mittell, com o sugestivo título de Complex TV. A análise de Mittell atualiza o debate ao criar o termo "melodrama intelectual".

Esse gênero improvável traz para a tela os eternos temas do melodrama, com forte aderência do público, porém atualizados em personagens complexos, cheios de camadas. Um exemplo? A série Breaking Bad, sonho de roteiristas e executivos por ser um produto popular com dramaturgia densa. Walter White, o anti-herói da saga nos revela cada vez mais seu lado obscuro, sem que a série abdique de velhos temas do melodrama. A família como valor sagrado, a figura da inocência no filho deficiente de Walter, o compadecimento pelo protagonista e até mesmo a busca pela prosperidade, ainda que de maneira enviesada.

No livro Melodramatic Imagination (Imaginação Melodramática, em português), Peter Brooks sugere que o melodrama é mais do que um gênero. Ele é uma forma de imaginar e se situar no mundo. A visão melodramática simplica o mundo com uma força muito potente. Observamos isso claramente em tempos polarizados como os nossos, com a tendência de olhar através de uma lente binária de bem e mal, virtude e vício, glória e miséria, verdade e falsidade, que pode se inverter segundo o lado que você está.

Somos personagens de melodrama nas manhãs em que não queremos levantar da cama porque o chefe ou a sociedade conspiram contra nós. Por isso, os elementos melodramáticos aparecem em todos os lugares. No telejornal, uma entrevistada vítima de uma tragédia começa a chorar. A câmera dá um zoom, revelando de perto a grandeza de sua dor. Eis a imaginação melodramática em ação.

Em sua carreira, Carvalho trabalhou em programas de TV aberta como Sai de Baixo e Xica da Silva. Hoje se dedica à criação de séries com o DNA Premium. Em outras palavras, que busquem o nível de dramaturgia das séries gringas. Pergunto o que falta para atingirmos esse sonho dourado. "O principal obstáculo acabou sendo a falta de investimento no profissional do audiovisual para entregar a televisão complexa", ele responde. Investimento não é só dinheiro, mas também formação, abdicar da zona de conforto de um tipo de escrita que vem sendo feita há décadas, de forma mais ou menos empírica. Por isso, Carvalho aposta na criação e desenvolvimento de séries junto aos alunos de sua escola, a Roteiraria.

Nesse embate de amor e ódio entre novelas e séries, televisão aberta ou fechada, streaming contra os canais tradicionais, a teledramaturgia vai buscando sua nova identidade. Séries como This is Us, do Canal Fox Premium, fazem sucesso renovando o melodrama. Aqui por estes lados, a recém-produzida Coisa Mais Linda, pela Netflix, foi apontada como uma série com um quê de novelesco. É uma crítica? Ou uma maneira de avançar um passo de cada vez?

Seja lá como for, estamos em meio ao combate do século, pois a televisão está vivendo uma revolução, e as novas formas de narrar serão seus frutos. O público está esperando pra ver.

Ricardo Tiezzi é escritor, roteirista e professor

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