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Com rainha trans, quadrilha rompe tradição binária das festas juninas

Ítalo Rômany/Eder Content
No arraial do São João no Recife (PE), quadrilheiros mostram que o preconceito não tem vez Imagem: Ítalo Rômany/Eder Content

Ítalo Rômany

da agência Eder Content, colaboração para o TAB, no Recife

2019-05-16T04:03:00

16/05/2019 04h03

Desde se apresentou no arraial, a rainha da Quadrilha Junina Lumiar, Ana Paula Arruda, não descansou. A todo momento, alguém pedia uma selfie. Primeira trans a assumir um dos postos mais cobiçados pelas mulheres na festa de São João no Recife (PE), era o momento de romper uma tradição de muitos anos.

Apesar da desconfiança de alguns integrantes da quadrilha, Ana Paula sabia que tinha à frente uma grande oportunidade para quebrar tabus. "As pessoas pagaram para ver se a Lumiar estava fazendo algo certo. Eu senti esse receio. 'Eu quero ver quem é você, quero ver se você pode ocupar o papel de uma mulher cis perfeitamente', pensei. A Lumiar comprovou que fez escolhas certas, e mostramos que nós, mulheres trans, conseguimos", celebrava a rainha.

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Ana Paula Arruda foi a primeira trans a assumir o posto de rainha de uma quadrilha junina Imagem: Ítalo Rômany/Eder Content

Originária da comunidade Brasília Teimosa, favela encravada de frente para o mar, a Lumiar é uma das mais de 1.300 quadrilhas estilizadas do Nordeste, segundo a Confederação Nacional de Quadrilhas Juninas. Criada em 1992 como um grupo de dança, tornou-se quadrilha junina em 1994. Hoje, tem em média 200 integrantes envolvidos, entre produção, músicos e bailarinos. Nas festas deste ano, levará para o arraial o tema "Compadrio: São João Dormiu, São Pedro Acordou".

Ao participarem de competições nas grandes festas de São João no estado, como o Festival de Quadrilhas do Nordeste, os grupos adotam 'enredos' que dão visibilidade a problemas das suas comunidades, como o preconceito.

"O preconceito existe sim. Tanto é que quando você vê um menino se transvestir para estar no arraial, se ele não estiver bem na aparência, não fizer seu papel dignamente, as pessoas caem muito em cima."
Ana Paula Arruda, trans, rainha da Quadrilha Junina Lumiar (PE)

A Quadrilha Junina Tradição, do Morro da Conceição, zona norte do Recife, foi uma das primeiras - curiosamente - a ousar e quebrar a tradição. Em 2013, apresentou dois homens gays no tradicional casamento do arraial. "Mostramos que entre dois homens também havia amor", conta o dramaturgo e diretor cênico Anderson Abreu, idealizador da proposta. Os noivos se beijaram de forma "leve e poética", e a reação do público foi bastante positiva, lembra.

Questionado se a ideia seria bem recebida hoje, no ambiente conservador do governo Jair Bolsonaro, Abreu mostra preocupação e cautela. "Não sei. A repercussão seria totalmente outra", acredita.

O arraial da inclusão

No Nordeste tradicional, é durante a festa junina que muitos gays assumem a verdadeira identidade. Quando estão transformados em damas, vivem e respiram um sonho sem o peso do preconceito nas costas. Em casa, grande parte ainda esconde a orientação sexual. A quadrilha junina torna-se um porto seguro onde maquiagem, peruca e figurino impecáveis são bem-vindos e aceitos.

Pesquisador na área de cultura popular, o professor Severino Lucena, da Universidade Federal Rural de Pernambuco, diz que as quadrilhas juninas se transformaram principalmente devido à ascensão de "novos atores sociais" nos últimos anos. "É um lugar de acolhimento e de reconhecimento na comunidade onde vivem", afirma. Não apenas em Pernambuco: esse é um movimento que já vem ocorrendo em Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte.

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Quadrilha Junina Zabumba, da capital pernambucana, retrata no arraial a crise penitenciária Imagem: Ítalo Rômany/Eder Content

Além dos homossexuais, o arraial passou a acolher outros grupos que sofrem discriminação, como obesos e deficientes físicos. Na Quadrilha Junina Zabumba, um rapaz tímido sonhava dançar no arraial e não perdia um ensaio do grupo. Por ter só uma perna, acreditava que não poderia participar. "Quando soubemos, ficamos surpresos. Por que não trazê-lo? Ele entrou e foi o maior sucesso", conta o presidente da Zabumba, Jailson Monteiro.

Na Quadrilha Junina Mirim Fusão, do Morro da Conceição, o movimento de inclusão acolheu uma integrante com síndrome de Down. Manu Mendes, de 23 anos, participa dos festejos no arraial há sete anos. Em 2018, foi escolhida rainha da quadrilha. "Ela dança frevo, faz capoeira. Não tem vergonha de nada. Os meninos da quadrilha falam que ela fecha", diz, com orgulho, a dona de casa Aldenice Mendes, mãe de Manu.

A dança como arma


No lugar do figurino colorido das festas juninas, quadrilheiros da Zabumba, originária da cidade de Camaragibe, região metropolitana do Recife, surgem vestindo roupas listradas em preto e branco. Ao som de sirenes, o público acompanha o desafio da quadrilha: retratar a realidade dos presídios brasileiros dentro do arraial. O tema deste ano é "Atenção Pavilhão - Olha a Foto" e foi criado com base em relatos de familiares de presos e de alguns ex-presidiários que hoje integram a Zabumba.

O objetivo é chamar a atenção dos governantes para a crise nas penitenciárias estaduais e o crescimento da violência. A proposta do enredo, diz o presidente da quadrilha, Jailson Monteiro, é mostrar que um presídio que não marginalize é possível. "Queremos demonstrar que bandido bom não é bandido morto, é o bandido ressocializado", diz o dirigente da Zabumba.

Anderson Abreu, projetista da quadrilha, sabe que tem um tema polêmico para abordar este ano. A rebelião na penitenciária, por exemplo, será encenada com um duelo entre Lampião e o noivo da quadrilha. No palco, eles disputarão o coração de uma das damas por meio da tradicional dança do cangaço, o xaxado - em que o ritmo é ditado pelo som da batida dos rifles no chão.

"A arma é a dança, a arma é a arte, a solução é a arte. Retratamos marginais que não tiveram acesso à arte e começam a acreditar em si mesmos. É a arte com compromisso social, de ir à periferia", resume Abreu.

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Geração de emprego e renda valoriza mulheres nas comunidades das quadrilhas no Nordeste Imagem: Ítalo Rômany/Eder Content

Defensor do papel provocador da arte na sociedade, o dramaturgo prega que as quadrilhas juninas sejam protagonizadas por aqueles que precisam ter vez e voz. Os integrantes, diz Abreu, precisam incluir ex-presidiários, gays, obesos e devotos de religiões afro-brasileiras.

Durante evento que abre o calendário das festividades de São João no Recife, no entanto, um episódio mostrou que ainda há muitas barreiras a serem enfrentadas. Segundo Abreu, um integrante negro da Zabumba, que usa cabelo estilo black power, escondeu o penteado para a apresentação. "Quando vi, eu gritei 'o que é isso? Assuma sua negritude'. Ele me respondeu dizendo que daquela forma ficava mais bonitinho. P*** que pariu para a sociedade!"

"Aqui, somos gente"

Morador do Morro da Conceição, Fabiano da Silva participa das festividades juninas da comunidade desde os nove anos de idade. Em 2004, fundou a Quadrilha Junina Tradição junto com amigos para desconstruir a imagem violenta que muitos tinham do Morro. "Participar da quadrilha junina é preservar o que meus antepassados deixaram. É 50% da minha vida, aqui somos gente", diz.

Passados 15 anos, a Tradição já conquistou dois prêmios regionais e dois nacionais, além de proporcionar oportunidades e renda para os moradores do morro. Há envolvimento com a comunidade para formação de profissionais, como maquiadores, projetistas, costureiros e figurinistas, conta Gildo Brito, que preside o grupo de quadrilheiros. Segundo ele, mais de 60% dos integrantes da quadrilha são estudantes do ensino superior ou já são graduados.

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Quadrilha Zabumba quer mostrar no arraial que é possível ressocializar por meio da arte Imagem: Ítalo Rômany/Eder Content

Quadrilheira há mais de 25 anos, a secretária Cláudia de Freitas elogia o trabalho desenvolvido com as mulheres da comunidade. Elas se empoderam a partir do envolvimento com o ciclo junino, diz a integrante da Tradição, não só por meio do trabalho e renda como também pelos temas abordados nos enredos.

Em 2017, com o tema "Eu conto um conto: O homem e a serpente", a Tradição tratou sobre relações de gênero, apresentando a força e o protagonismo das mulheres ante o machismo e as desigualdades sociais existentes.

"Nossa quadrilha gosta de bater de frente, para mostrar, por exemplo, que uma mulher não tem que ser submissa ao homem"
Cláudia de Freitas, integrante da Quadrilha Junina Tradição (PE)

Autora de um livro sobre a Tradição, a pesquisadora Giselle Gomes diz que a participação da comunidade é um dos principais mecanismos de resistência contra a falta de políticas públicas. "É também um movimento de pertencimento e de autoestima. Muitos quadrilheiros têm orgulho de dizer que vivem no Morro da Conceição", resume.

Entre os muitos festivais de competição concentrados em junho no Nordeste, o ponto alto é o Festival de Quadrilhas, promovido pela Rede Globo. A etapa regional acontece no dia 23 de junho, véspera do dia de São João. Na apresentação, as quadrilhas são avaliadas pela coreografia, figurino, repertório musical, casamento, marcador e conjunto. A premiação para os três primeiros colocados soma quase R$ 30 mil. Em 2018, a vencedora foi a Quadrilha Junina Lumiar.

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