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Como absurdos como terraplanismo nos treinam para aceitar ideias radicais

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Imagem: Getty Images

Luiza Pollo

Da agência Eder Content, colaboração para o TAB

16/07/2019 04h01

A ciência está sendo colocada em dúvida. As pesquisas das universidades já não são consideradas confiáveis por muitos. As vacinas são contestadas. E sobrou até para o planeta que nos abriga, vítima do terraplanismo e da negação do aquecimento global.

Discursos cada vez mais extremados - na boca (ou no Twitter) até mesmo de quem teria que comandar um país - podem estar nos "anestesiando" para absurdos de menor grau. A conta é simples: se você ouve repetidamente que a terra é plana, provavelmente nem vai se incomodar tanto quando alguém quiser discutir seriamente astrologia. Se você escuta que Eduardo Bolsonaro será embaixador em Washington e na mesma semana a reforma da Previdência é aprovada e mexe com aposentadoria de quase toda a população, a segunda notícia parece normal, corriqueira, quase lógica.

Pelo menos é esse o conceito proposto na década de 1990 por Joseph Overton, um pesquisador e advogado norte-americano que morreu em 2003, mas tem ganhado cada vez mais destaque nos EUA desde a eleição de Donald Trump em 2016.

Mais recentemente, começamos a ouvir falar de Overton também no Brasil em tentativas de explicar as falas de Jair Bolsonaro, seus filhos e o guru familiar, Olavo de Carvalho.

A teoria da Janela de Overton, ou Janela do Discurso, é uma tentativa de mostrar de maneira visual como a opinião pública pode se deslocar e começar a aceitar teorias antes consideradas radicais.

Esse conceito da ciência política afirma que há um espectro dentro do qual as ideias são consideradas normais e esperadas. Opiniões radicais, ridículas e inimagináveis ficam fora, nos extremos da régua.

Cartazes mostram posição extremadas sobre aborto: as opiniões radicais são mais efetivas para pressionar  - Reprodução/National Secular Society
Cartazes mostram posição extremadas sobre aborto: as opiniões radicais são mais efetivas para pressionar
Imagem: Reprodução/National Secular Society

Podemos encaixar aqui qualquer assunto polêmico. O direito ao aborto, por exemplo. De um lado da régua, estaria a defesa da cirurgia coberta pelo SUS, irrestrita, em qualquer situação e sem nenhum condicionante, como avaliação psicológica da paciente. Do outro, a proibição total da prática, com punição severa a médicos e mulheres que abortarem. Hoje, pode-se dizer que a janela do aceitável gravita em torno da defesa da prática em casos de estupro, risco para a vida da gestante e em fetos anencéfalos - o que já é permitido por lei no Brasil.

Para mudar essa janela e alterar o escopo de ideias consideradas aceitáveis, o conceito de Overton mostra que você não começa por ideias brandas - você começa pelo extremo.

Digamos que você queira convencer alguém de que é preciso proibir o aborto nos casos de estupro. O ideal seria começar defendendo a proibição total. Dessa forma, a conversa pode ir caminhando para o aborto apenas em casos de estupro, e o interlocutor pode ser convencido da sua ideia, sentindo que chegou a um meio-termo e não foi o único a ceder.

Parece um joguinho psicológico, mas no fundo, tem a ver com o clima político que vivemos hoje, garantem pesquisadores. "Jair Bolsonaro foi o primeiro político a entender que a Janela de Overton da opinião pública estava se movendo para a direita", escreveu no Poder360 Thomas Traumann, jornalista e ministro de Comunicação Social do governo Dilma Rousseff. "Ele (Bolsonaro) ajudou a mover a Janela."

Espiral do silêncio

Durante os pouco mais de 13 anos de administração do país pelo Partido dos Trabalhadores, a janela do discurso vigente tendia mais para a esquerda, avalia Hilton Cesário Fernandes, professor do curso de pós-graduação de Ciência Política da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

Para entender melhor como isso foi mudando, o cientista político introduz outra teoria: a da espiral do silêncio, proposta em 1977 pela alemã Elisabeth Noelle-Neumann. "A opinião dominante, com o tempo, vai se esvaziando. E aqueles que não se veem representados começam a perceber que não estão sozinhos. Quando isso acontece, cria-se um movimento que faz com que a opinião até então não dominante ganhe voz", explica Fernandes. Para ele, essa mudança começou a ganhar força nas manifestações de 2013, quando pautas da direita, sem muito espaço durante o governo do PT, ganharam voz. Grupos que até então ficavam 'em silêncio' perceberam que não estavam sozinhos.

Os protestos de 2013 começaram contra aumento nos transporte, mas logo migraram para uma agenda de direita - Felipe Dana/AP
Os protestos de 2013 começaram contra aumento nos transporte, mas logo migraram para uma agenda de direita
Imagem: Felipe Dana/AP

O descontentamento da direita com o governo de Dilma Rousseff se somou à revolta acumulada desde o escândalo do mensalão e à rejeição conservadora em relação às pautas voltadas às minorias. Isso começou a abrir espaço para um discurso que inicialmente se colocava apenas contra a corrupção, mas foi caminhando cada vez mais para a direita, avalia Karen Christina Dias da Fonseca, doutoranda em Ciências Humanas e Sociais que pesquisa discurso político na Universidade Federal do ABC. "O Bolsonaro se beneficiou dessa onda, mas também ajudou a mover essa janela", afirma.

Golden shower?

No Twitter, o presidente e alguns de seus apoiadores, como Olavo de Carvalho, encontram espaço para se expressar de forma mais extrema. Exemplos não faltam. Do tweet que mostrava uma cena explícita e fez boa parte dos brasileiros descobrir com desgosto o que significa golden shower, até a homenagem a Mc Reaça, Bolsonaro agrada a muitos de seus apoiadores com opiniões radicais. Assim Trump apoiou pelo Twitter um homem acusado de assediar uma menina de 14 anos, Bolsonaro falou que Mc Reaça "tinha o sonho de mudar o país" após ele agredir uma mulher e se suicidar.

"Naqueles caracteres, ele pode colocar o que quiser. É mais moderado num dia, no outro faz uma publicação de impacto para gerar polêmica. A estratégia que ele adota é de lançar a polêmica e, se a aceitação for boa, ele mantém. Se não, recua", analisa Karen.

Reportagem da Vox sobre a Janela de Overton avalia que, pelo menos nos Estados Unidos, uma das principais consequências do deslocamento da janela é que a direita já começou a ser colocada como o discurso de oposição à extrema direita. Em debates nos quais se viam representantes da esquerda e da direita, agora só há um lado representado. "O problema não é elas serem vozes conservadoras, mas sim o fato de que não as vemos como conservadoras nesse novo contexto", afirma a reportagem.

No Brasil, figuras da direita, como João Amoêdo e até mesmo o general Hamilton Mourão, vice-presidente, já ganham espaço como vozes moderadas. O "general mozão" ganhou o apelido (e críticas de Olavo de Carvalho) após diversas declarações à imprensa. Por exemplo: ele defendeu a importância de Chico Mendes após fala do ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, disse que o ex-deputado Jean Wyllys deveria ter ficado no país e ser protegido e afirmou que o aborto "é uma decisão da mulher", entre outras falas moderadas em relação ao seu superior no Planalto.

Se você olhar bem, vai perceber que todas as falas de Mourão estão dentro da janela do discurso vigente no Brasil. Nada de extrema-esquerda ou ideias chocantes. "A principal diferença é que o Mourão entendeu o que era campanha eleitoral e o que é responsabilidade do cargo", avalia Fernandes.

Janela à esquerda

Originalmente, Overton não teve a intenção de dividir os temas em réguas que iam da extrema esquerda à extrema direita. Mas, hoje, até temas como aquecimento global e educação pública são divididos dessa forma. Fica difícil fugir da dicotomia.

Enquanto Bolsonaro e seus apoiadores ajudam a puxar a janela para a direita em diversos temas, "a esquerda radical está mais abastecida do que nunca para radicalizar seu discurso", opina Karen sobre a lógica polarizada dos últimos anos.

A ideia é que, com tantas falas extremadas da direita, há mais espaço para contestação radical. "Porém, (as ideias de extrema esquerda) continuam tendo pouca aceitação social. Talvez o caminho seja se deslocar um pouco da figura do Lula e do PT, e também da radicalização", comenta.

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