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Legado de Marielle: história da vereadora inspira mulheres na política

Luiza Pollo/Colaboração para o UOL
Imagem: Luiza Pollo/Colaboração para o UOL

Luiza Pollo

Da agência Eder Content, colaboração para o TAB, em São Paulo

27/07/2019 10h23

"Eu não imaginava que um dia me filiaria a um partido eleitoral, porque eu não acredito na estrutura política. Porém, o assassinato da Marielle [Franco] me inspirou muito a me posicionar e ocupar esse espaço de poder que nos é negado", diz Hosana Meira, 39, que quer se eleger vereadora em Mauá, na Grande São Paulo, no ano que vem.

Hosana foi uma das 60 mulheres escolhidas para um curso gratuito de formação política realizado pela Iniciativa Brasilianas, que busca desenvolver políticas públicas para mulheres. Durante o evento realizado no último sábado, o nome de Marielle Franco volta e meia aparecia em rodas de conversa. Hoje, o assassinato da vereadora do Rio de Janeiro completa 500 dias - ainda sem respostas conclusivas sobre as motivações exatas e os mandantes do crime.

A pauta que esteve presente em todo o evento foi a representatividade das mulheres na política. Usando ou não a palavra feminismo, um ponto em comum era a certeza de que a melhoria das políticas públicas para mulheres começa pela participação efetiva delas na tomada de decisões. "Eu acho que a questão das mulheres na política é representatividade além da questão simbólica. Pra conseguir mudar, a gente tem que estar na política, definindo a nossa tomada de decisão baseada na nossa realidade", diz a estudante Dayana Morais, de 23 anos.

Por enquanto, isso ainda é uma luta no país. O Brasil ocupa o 133° lugar no mundo quando o assunto é representatividade feminina no parlamento. Dados de 1° de janeiro de 2019 levantados pela ONU Mulheres (e que inclui as eleitas em 2018) indicam que ficamos atrás de países como a Arábia Saudita - sim, a Arábia Saudita, onde até o ano passado as mulheres não podiam sequer dirigir um carro. Enquanto lá elas são quase 20% do parlamento, aqui, são 15%. A boa notícia é que a proporção vem aumentando. Das eleições de 2014 para as de 2018, houve um salto de 50% na representatividade feminina na Câmara dos Deputados.

Tamires Camiolli - Luiza Pollo/Colaboração para o UOL
Tamires Camiolli
Imagem: Luiza Pollo/Colaboração para o UOL

"Precisamos pensar em como participar de uma forma ativa e preparar o campo das políticas públicas para as próximas mulheres que querem se formar", afirma Tamires Camiolli, de 24 anos. Filha de mãe solo, nascida e residente da cidade de Mauá, ela descobriu durante o curso de Gestão de Políticas Públicas na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP que sua luta sempre foi feminista. "Eu entrei no curso com 17 anos, ainda muito ingênua, e comecei a me aproximar dos movimentos estudantis, da luta feminista, e pensar como classe".

A jovem relata que não consegue mais separar seu cotidiano do que aprendeu na universidade. Para todos os lados que olha, há políticas públicas que podem ser melhoradas. "É processo contínuo que você pode aplicar. Eu entrava no trem e pensava: para a mulher pegar um trem até a faculdade às 6h da manhã é totalmente diferente de um homem", recorda, sobre os anos indo e voltando de Mauá a São Paulo todos os dias. "Para você desembarcar na estação, para eu sair da faculdade às 11h da noite e chegar na minha casa no último trem, era uma situação mais perigosa do que para os colegas que moram na mesma cidade. "

Tamires não assume nem descarta a vontade de se candidatar a um cargo público no futuro, mas a vontade de mudar o sistema vem desde criança. "Eu entrei em GPP porque sempre disse que queria fazer algo para ajudar as pessoas. Eu falava que ia ser professora por isso." Um dia, uma professora disse a ela que a profissão permitia ajudar um número limitado de pessoas. Como secretária de Educação, por outro lado, talvez Tamires pudesse atingir todos os alunos do município, sugeriu a educadora. "Eu comecei a pensar nisso: putz, talvez eu tenha que virar uma burocrata", conta, sorrindo.

Identidade negra

Sandra Regina Baptista dos Santos da Silva - Luiza Pollo/Colaboração para o UOL
Sandra Regina Baptista dos Santos da Silva
Imagem: Luiza Pollo/Colaboração para o UOL

Quem nunca tinha pensado em entrar para a política, mas vai se candidatar pela primeira vez aos 51 anos de idade é Sandra Regina Baptista dos Santos da Silva. Ela trabalhou como técnica de enfermagem em São Paulo, capital, até os 32 anos de idade. Casou e mudou-se para Caçapava, no interior do estado. "Chegando lá, eu fui perguntar quais eram as atividades para a comunidade negra. Não tinha nada", diz.

"Eu vejo as meninas nos cursos falando dos coletivos de mulheres. Lá não tem nem coletivo de mulheres negras, nem não negras, não temos nada. Grupos culturais só temos a capoeira. Quando queremos alguma apresentação, pedimos para grupos de outras cidades. E isso é parte da nossa identidade, da nossa cultura afro-brasileira."

A participação mais ativa na política começou há cinco anos, quando ela foi à conferência da igualdade racial em São José dos Campos. "Lá eu falei: vou levar tudo isso para Caçapava." Cada vez mais envolvida com a política local, Sandra decidiu que pode fazer mais pela comunidade ao se candidatar a uma vaga na Câmara da cidade no ano que vem.

Depois de conciliar o trabalho com o curso do Instituto Brasilianas ao longo do primeiro semestre deste ano, já inspirou a própria filha. "Minha filha de 16 anos, que também está nessa trajetória, está no segundo mandato da Câmara Jovem da cidade. Foi a primeira mulher negra a ser presidente da Câmara jovem, no ano passado. Ela é bem empoderada", conta Sandra, orgulhosa.

Combate à violência

Hosana Meira - Luiza Pollo/Colaboração para o UOL
Hosana Meira
Imagem: Luiza Pollo/Colaboração para o UOL

Hosana Meira entrou na faculdade no mesmo ano que a filha, em 2012, aos 32. Quando conseguiu uma bolsa e ingressou no curso de Ciências Sociais na Fundação Santo André, começou a entender a situação de violência na qual viveu até os 29 anos de idade. Da gravidez precoce, aos 14 anos, à violência doméstica, ela percebeu de perto em que pontos o Estado falha na proteção da mulher.

"Foi na faculdade, foi aí que eu entendi. 2012 foi o ano em que eu passei a entender todo o contexto, o que acontecia comigo, qual era a minha situação, qual era o meu lugar na sociedade brasileira, o porquê de tanta violência", lembra. "Eu entendi que a violência no Brasil é estrutural e que eu sou uma mulher, negra, periférica, então minha família não é cruel, minha família está encaixada nessa estrutura."

Ao se aproximar dos movimentos negro e feminista, ela diz ter percebido que poderia mudar o sistema por dentro. Hosana está concluindo a pós-graduação em Direitos Humanos, Diversidade e Violência na Universidade Federal do ABC (UFABC), e pretende se eleger vereadora em Mauá (SP) no ano que vem.

Vestindo uma camiseta da cantora Nina Simone, ela diz que, como mulher negra, usa sua experiência pessoal para lutar por si e pelos outros. "Eu não me sinto diferente da população, eu sou a população. Então a política é para mim, é para nós, precisa ser efetivada".

Educação e representatividade

Dayana Morais - Luiza Pollo/Colaboração para o UOL
Dayana Morais
Imagem: Luiza Pollo/Colaboração para o UOL

A estudante Dayana também é ativa no feminismo negro, uma das pautas que fez com que ela se envolvesse com políticas públicas. Ela vai se formar neste mês em Administração Pública pela Unicamp e leva também a educação como bandeira desde pequena, pois seus pais consideravam a formação dos filhos uma prioridade.

Bolsista em escola particular e, posteriormente, com auxílio financeiro também na universidade, ela percebe que teve oportunidades que não estão acessíveis a todos. "Eu sempre quis que isso fosse para todo mundo. Então para mim foi fazendo sentido pensar em alguma coisa que tem a ver com gestão pública", diz. Foi aí que entrou a política. "Não era eu que ia mudar sozinha, então qual a forma que eu conseguiria mudar isso articulando com outras pessoas? Através da política."

Dayana fez estágio na Rede de Ação Política pela Sustentabilidade (Raps), uma organização que apoia e monitora lideranças políticas, e hoje está envolvida na Rede Valentes em Jundiaí (SP), uma iniciativa que promove atividades para criar redes de apoio entre mulheres e lutar contra a violência.

"A minha realidade como mulher negra - ainda que eu entenda meus privilégios, porque sou uma mulher negra de pele clara - é entender que há outras realidades e que elas precisam estar dentro da agenda pública. Como eu vou fazer isso? Usando o meu privilégio de ter feito uma universidade pública, de ter estudado para conseguir articular isso lá na frente."

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