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Como o ativismo ambiental do Extinction Rebellion "bugou" Londres

Cacique Txana Ikakuru, durante protesto do Extinction Rebellion em Londres - Luiza Sahd/UOL
Cacique Txana Ikakuru, durante protesto do Extinction Rebellion em Londres Imagem: Luiza Sahd/UOL

Luiza Sahd

Colaboração para o TAB, de Londres

23/10/2019 04h00

Na primeira segunda-feira de outubro, milhares de manifestantes obstruíram três das vias mais movimentadas no centro da capital britânica: a Trafalgar Square, a ponte Westminster e o The Mall — avenida que liga o Palácio de Buckingham à praça Trafalgar, rota usada por monarcas e chefes de Estado nos eventos cerimoniais.

Durante todo o dia, havia gente circulando por lugares onde supostamente não deveria circular ninguém: no meio da rua, no topo de monumentos históricos e até sobre caixotes empilhados em lugares inconvenientes para o tráfego. Algumas manifestações artísticas intrigavam turistas desavisados e o som dos atabaques embalava os membros do Extinction Rebellion (XR), movimento de ativismo ambiental não-violento que pretende chamar a atenção das autoridades políticas para a catástrofe climática que se aproxima.

Idealizado para promover a desobediência civil e uma rebelião contra a extinção das espécies (inclusive a nossa), o XR, surgiu em meados de 2018. No começo, cerca de 100 acadêmicos britânicos, preocupados com o clima e o meio ambiente, redigiram um manifesto com "exigências" e, em outubro, o grupo realizou a primeira ação coordenada em Londres. Entre seus idealizadores estão Roger Hallam, Gail Bradbrook, Simon Bramwell e outros ativistas do grupo de campanha Rising Up! — o ex-fazendeiro orgânico Roger Hallam indica a desobediência civil como meio de mobilização, e travar as ruas é uma das formas de ação do grupo.

Protesto do Extinction Rebellion, que travou o centro de Londres em 4 de outubro - Luiza Sahd/UOL
Protesto do Extinction Rebellion, que travou o centro de Londres em 4 de outubro
Imagem: Luiza Sahd/UOL

Os ativistas se manifestam para cobrar três demandas bem concretas:

- Que "se conte a verdade à população declarando uma emergência climática e ecológica"

- Que o governo zere as emissões de gases do efeito estufa até 2025

- Que o governo crie uma assembleia popular, formada por cidadãos comuns e escolhidos de forma aleatória, e siga suas decisões sobre o meio ambiente

Não são pretensões modestas, mas a adesão de britânicos e imigrantes que vivem na cidade impressiona. Pessoas dos perfis etários e socioeconômicos variados têm aderido à causa e, nos noticiários locais, as manifestações do XR são os únicos tópicos que roubam o protagonismo das discussões sobre o Brexit.

Na manhã de 4 de outubro, mais de uma centena de ativistas já havia sido detida por bagunçar o coreto — real e figurativamente — na capital britânica. Durante os protestos, era fácil avistar cordões humanos de policiais que pareciam proteger pessoas penduradas em carros, postes ou monumentos. Na verdade, os oficiais esperavam que os ativistas terminassem de se manifestar para dar voz de prisão aos que desobedeciam aos códigos de civilidade. As cenas eram no mínimo intrigantes para um observador brasileiro conhecedor do modus operandi da nossa polícia em manifestações e passeatas.

Prender ou não prender, eis a questão

A desobediência civil a serviço da causa ambiental não é novidade em Londres: desde outubro de 2018, quando o Extinction Rebellion provocou focos de caos na cidade pela primeira vez, mais de 1.400 ativistas já foram detidos. Muitos deles, por vontade própria.

A ideia dos manifestantes do XR que não se importam de ir para a prisão é bugar também o sistema prisional do Reino Unido: se tanta gente for encarcerada simplesmente pela prática pacífica de desobediência civil, como a Justiça vai se ocupar dos casos reais de criminalidade?

Durante a manifestação de abertura para todos os eventos que o XR planeja para o mês de outubro, ativistas deitaram entre os carros na entrada da Trafalgar Square. Alguns carregavam cartazes com os dizeres "Quero ser preso"; outros entoavam canções com o verso "Poder para as pessoas e pessoas para o poder". Em torno deles e dos carros, o cordão policial explicava aos demais ativistas que estava negociando a saída dos manifestantes para evitar prisões desnecessárias. "Contanto que não haja violência; não queremos ser violentos", explicou um oficial.

O conceito de violência, por ali, era subjetivo: o rapaz que atirou um pedaço de pizza para alimentar um dos ativistas sem pedir licença aos policiais foi detido; outro, que pediu licença para oferecer um sanduíche ao homem que obstruía a passagem de um carro, não. Esse tipo de sutileza pode parecer esquete do Monty Python ou cena de "Years and Years", seriado britânico que retrata um futuro distópico e confuso na virada da década.

Desobediência civil funciona?

As discussões sobre meio ambiente voltaram a dominar o debate público nos últimos meses, graças a iniciativas como as do XR e ao engajamento de figuras como Greta Thunberg, a jovem líder sueca do movimento "Greve Global Pelo Clima", e da atriz Jane Fonda, presa em 18 de outubro, aos 81 anos de idade, por protestar com o "Oil Change International", movimento inspirado no "Friday For Future", criado por Greta.

Luiza Sahd/UOL
Imagem: Luiza Sahd/UOL

Uma das críticas frequentes ao Extinction Rebellion ou aos ativistas célebres é a de que desobediência civil e detenção espontânea são "luxos" não-recomendáveis para pessoas de cor e imigrantes. No caso de Londres, em tempos de Brexit, a observação faz ainda mais sentido: ainda que a polícia inglesa seja infinitamente mais educada que a de países periféricos, com menos apreço pelos direitos humanos, as denúncias de xenofobia e racismo institucional no Reino Unido não param de crescer.

Nem por isso as ações do XR foram ineficazes: o objetivo de capturar a atenção de autoridades e opinião pública foi alcançado com sucesso. Ativistas que não desejam ser encarcerados se uniram à causa, como é o caso de Marcos Santana, de 42 anos, professor de música soteropolitano que vive em Londres há 13 e já é britânico.

Santana participa frequentemente de manifestações locais com seu grupo de percussão, Tambores Livres. Na semana do dia 14, o grupo foi convidado pelo XR para fazer uma performance. Assim como outros artistas, o papel de Santana no evento é evitar que as intervenções na cidade se resumam a palavras de ordem e restrições ao tráfego. "O que posso dizer sobre minha experiência como ativista na Inglaterra é que o direito de ir e vir das pessoas é respeitado de forma absoluta. A liberdade de expressão, também. Os resultado das manifestações sempre aparecem, como no caso do Brexit, em que a pressão popular fez com que a decisão fosse adiada e evoluísse para um diálogo mais aberto", conta o professor, que acredita que todos os interessados em colaborar com o XR sem se oferecer para detenção espontânea podem achar formas de participação alternativas.

Manifestantes do Extinction Rebellion, incluindo mães e filhos, protestam na frente de escritório do Google em Londres - Henry Nicholls/Reuters
Manifestantes do Extinction Rebellion, incluindo mães e filhos, protestam na frente de escritório do Google em Londres
Imagem: Henry Nicholls/Reuters

O compositor carioca Aleh Ferreira, 53, participa de intervenções do Extinction Rebellion por meio da música e da difusão de informações sobre a situação da Amazônia. Na última grande manifestação em Londres, Aleh convidou ao palco o cacique Txana Ikakuru, do Instituto Yube Inu, para falar sobre cultura amazônica. Ao cabo de algumas horas de apresentação, a polícia tentou interromper a apresentação, mas foi interrompida. "Se houvesse alguma detenção ali, eu ficaria muito surpreso. As pessoas estavam completamente imersas no pacifismo e, enquanto os guardas insistiam em esvaziar o palco, mais pessoas subiam e entoavam: 'policiais, estamos fazendo isso pelos seus filhos'. Nenhuma das partes apelou para a truculência, então aquele momento foi de uma grandeza impressionante", descreve Ferreira.

E se fosse no Brasil?

Enquanto a desobediência civil generalizada como ferramenta de protesto parece um recurso viável somente em países ricos, o brasileiro continua um pouco tímido no ecoativismo — apesar dos recentes desastres ambientais como o rompimento de barragens em Mariana e Brumadinho (MG), das queimadas na Amazônia e das manchas de petróleo misteriosas que afetam toda a costa do Nordeste no momento.

A pista para um caminho possível de inclusão da crise ambiental ao debate público talvez seja, mesmo, a adesão de celebridades e cidadãos privilegiados à causa. A luta dos cidadãos parece seguir firme em Londres: na quinta-feira (17), outro protesto do XR na Parliament Square questionou empresas inglesas que investiram na mineração em Minas Gerais sobre os planos de revitalização e compensação de danos nas regiões afetadas pelos rompimentos de barragens.

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