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Não é só pó: folha de coca é base para vinho, cerveja e azeite na Colômbia

Funcionária exibe produtos feitos à base de folha de coca na loja Coca Nasa, em Bogotá - Fernanda Ezabella/UOL
Funcionária exibe produtos feitos à base de folha de coca na loja Coca Nasa, em Bogotá Imagem: Fernanda Ezabella/UOL

Fernanda Ezabella

Colaboração para o TAB, de Bogotá

02/11/2019 04h00

A colombiana Fabiola Piñacué lembra com carinho de quando era pequena em seu povoado indígena e acompanhava a mãe nas viagens semanais a uma comunidade vizinha: iam a cavalo pelo percurso de cinco horas, subindo sem parar pelas montanhas andinas, no meio da madrugada. O motivo? Folhas de coca.

"Era algo romântico, tenho muitas memórias bonitas com a coca. Trocávamos por leite, feijões, laranjas", diz a ativista e empresária de 49 anos ao TAB. "Hoje, infelizmente, não é mais assim. Hoje precisamos defender a folha."

Em seu estado natural, a coca (espécie Erythroxylum coca) é um estimulante inofensivo parecido como o café. Usada por populações andinas há milênios, a planta é base de sua alimentação e de seus remédios tradicionais, além de ser essencial para suas cerimônias religiosas.

A Colômbia é o maior produtor mundial de coca, uma produção que bateu recordes em 2017. Mas boa parte tem outra finalidade: as folhas são quimicamente transformadas no pó branco altamente viciante da cocaína, uma droga que afundou o país em décadas de violência. E, de quebra, fez a coca virar sinônimo de guerra.

"Minha missão inicial era acabar com o estigma da planta, acabar com essa demonização", diz Piñacué, sentada em seu escritório em Bogotá, rodeada dos produtos de sua empresa Coca Nasa. São latinhas de refrigerante, caixinhas de chá, garrafas de rum, vinho e azeite, além de sacos de farinha e biscoitos de chocolate. Todos, sem exceção, são feitos com folhas de coca.

Para conseguir a matéria-prima, a empresária volta à região onde nasceu, no povoado indígena Nasa, em Calderas (480 km de Bogotá), onde conta com ajuda de centenas de famílias de agricultores. Por mês, pode chegar a comprar 1.800 quilos de folha e vender US$ 20 mil em produtos. A viagem, no entanto, não tem nada do bucolismo romântico que marcou sua infância.

Piñacué já precisou enfrentar a polícia, o narcotráfico, empresas internacionais e segue enrolada na complexa legislação colombiana. Tudo para conseguir o reconhecimento do uso, consumo e comercialização da coca.

Café da Coca Nasa, no centro histórico de Bogotá - Fernanda Ezabella/UOL
Café da Coca Nasa, no centro histórico de Bogotá
Imagem: Fernanda Ezabella/UOL

"É um alívio para os campesinos quando podem vender para mim porque sabem que é para uma finalidade boa e não para fazer cocaína", diz a ativista. "A gente paga na hora e eles gostam. Os 'narcos' compram muita coca, levam tudo, dizem que vão pagar mais e não pagam. São muito trapaceiros. É uma concorrência difícil."

Apesar dos produtos serem legalizados, a Anvisa colombiana restringe a venda para territórios indígenas e não autoriza para o resto do país. Ainda assim, os produtos da Coca Nasa estão por todos os lados em Bogotá, principalmente nas lojinhas do centro histórico da Candelária. A empresa também tem na capital uma loja própria pequena e um café recém-aberto, cujas paredes trazem fotografias de plantações e explicações sobre a cultura indígena.

O produto mais popular é a latinha de refrigerante Coca Sek ("coca do sol" na língua Nasa Yuwe), que vende cerca de 3 mil por mês. As caixas de chá também saem bastante, uma ideia que surgiu quando Piñacué frequentava a faculdade de ciências políticas em Bogotá, no final dos anos 1990, ápice dos combates às plantações de coca com fumigações de glifosato.

Fabiola Piñacué e seu filho Juan David; nas mãos, o refrigerante Coca Sek - Fernanda Ezabella/UOL
Fabiola Piñacué e seu filho Juan David; nas mãos, o refrigerante Coca Sek
Imagem: Fernanda Ezabella/UOL

"Eu era uma pobre indígena que não tinha dinheiro nem para as fotocópias do curso. Com a coca, consegui sobreviver", diz Piñacué, que vendia aos colegas copinhos de chá de uma garrafa térmica. "O chá ajudava a concentrar nos estudos, a aplacar cólicas menstruais, foi um sucesso. Havia garotos que diziam: 'Se meu pai me pega tomando isso, me expulsa de casa!'"

Quando decidiu abrir a empresa, em 2000, chegou a ter crédito negado por trabalhar com coca e também teve que mentir para a empacotadora dos chás. "Dizia que eram ervas indígenas de que não sabia o nome em espanhol. Caso contrário, ela não o faria", lembra Piñacué.

Quem ajuda a atravessar os imbróglios jurídicos é o marido e sócio de Piñacué, o advogado David Curtidor, 52, com quem tem quatro filhos. Para ele, a estrutura da Coca Nasa prova que é possível fazer da coca um negócio legítimo e lucrativo para todos os envolvidos na cadeia de produção. Porém, o novo governo eleito em 2018 quer voltar com as fumigações e a política de repressão contra os cocaleros.

"Veja o que acontece com o café colombiano. Não há transformação de valores para a comunidade. As empresas se apropriam do café e o vendem a preços fabulosos", diz Curtidor. "Nós somos os produtores e os cultivadores. A folha de coca pode ser um produto muito importante, muito valioso, mas hoje somos muito reprimidos."

Foi ele que ajudou a Coca Nasa a ganhar o processo de plágio aberto pela Coca-Cola em 2006, por conta do nome. Ao ser questionada se "o monstro capitalista" havia tentado comprar sua empresa, Piñacué respondeu com uma risada: "Se quiserem comprar, vendo duas caixinhas de chá para eles. Apenas."

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