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"A criminalização não começa nem vai terminar com o funk", diz funkeiro

Baile funk DZ7 na comunidade de Paraisópolis, zona sul de São Paulo - 07.dez.2019 - José Barbosa/Futura Press/Estadão Conteúdo
Baile funk DZ7 na comunidade de Paraisópolis, zona sul de São Paulo Imagem: 07.dez.2019 - José Barbosa/Futura Press/Estadão Conteúdo

Letícia Naísa

do TAB, em São Paulo

13/12/2019 04h00

Dos nove jovens que morreram em Paraisópolis em 1º de dezembro, depois de uma batida policial, nenhum deles era daquela quebrada. Vindos de Carapicuíba, Pirituba, Mogi das Cruzes ou do Capão Redondo, naquela noite todos aqueles meninos (e uma menina) atravessaram a cidade e percorreram quilômetros com um só objetivo: curtir o funk, que, atrás do sertanejo, é o ritmo que mais vira a cabeça da juventude.

Há anos, numa tentativa de contornar os problemas causados pelos bailes funk cravados em vielas e ruas pequenas das periferias e comunidades — barulho, acúmulo de lixo e desorganização são alguns dos mais comuns —, o poder público tem apostado em festivais "permitidões".

No Rio, a prefeitura apoia o Rio Parada Funk desde 2013. Em São Paulo, o projeto-piloto do Festival Funk da Hora, em Cidade Tiradentes, leva funk "oficial" e organizado ao bairro. Já houve outros: entre 2008 e 2010, o então prefeito Gilberto Kassab apoiou a realização de shows de funk ali. Dessa vez, o evento terá palestras, shows e mesas de debates. A proposta é debater a cultura do funk e a descriminalização do gênero musical.

Funk como resposta

Funk não é apenas um batida e uma letra sacana. Funk é um estilo de vida. "É o que dá sentido, é um grito de humanidade dos jovens da periferia", afirma Juliana Lessa, professora de história e doutoranda em história social pela PUC-RJ. Hoje, o funk já é reconhecido como um movimento cultural, assim como o rap e samba, que também nasceram nas periferias das cidades brasileiras.

Em comum com os outros ritmos, o funk também passou por um processo de criminalização, cujo ápice foi a tragédia de Paraisópolis. "O preconceito não é musical nem cultural. É com sua origem, de onde ele vem e com as pessoas que o fazem e o consomem", diz Lessa.

Para quem vem da quebrada, isso é ainda mais claro. "A criminalização não começa nem vai terminar com o funk", diz Bruno Ramos, representante nacional do Movimento Funk e membro do coletivo Favela no Poder. "Essa parte da criminalização é estimulada pela grande mídia e pelo poder público quando ele abre mão de infraestrutura para a comunidade. A ausência de políticas públicas na periferia faz com que a repressão aumente", afirma.

Festa da DZ7 em Paraisópolis ganha faixa de protesto após matança de nove pessoas  - Marlene Bergao/Folhapess
Festa da DZ7 em Paraisópolis ganha faixa de protesto após matança de nove pessoas
Imagem: Marlene Bergao/Folhapess

A falta de organização dos fluxos não é interessante para as autoridades e nem para quem participa dos bailes, diz Ramos. "É desorganizado e sem hora pra acabar. A gente precisa ter banheiro químico, precisa de especialistas discutindo redução de danos", opina. "Mas o que acontece no fluxo não é culpa do funk."

O estilo musical é, para Ramos, um reflexo do que é vivido pelos jovens da periferia. "Se as pessoas estão incomodadas com as nossas letras é porque não conhecem nem de perto a nossa realidade", diz. Exatamente por gerarem identificação que os bailes funk se tornaram tão populares e gigantescos, como o DZ7 de Paraisópolis, que reúne milhares de pessoas no coração da favela por dias seguidos.

"É uma relação de amor e ódio, porque a galera está ocupando espaço público com um ritmo que eles gostam, podendo beber e dançar. Porém, estão gerando barulho, bagunça, lixo acumulado", diz Vagner de Alencar, doutorando em educação pela PUC-SP, ex-morador do Paraisópolis e autor do livro "Cidade do Paraíso" (2013), que narra a rotina da favela.

Bons ou ruins, os fluxos como acontecem não devem desaparecer tão cedo.

Cena do baile DZ7, em Paraisópolis - Jeferson Delgado
Cena do baile DZ7, em Paraisópolis
Imagem: Jeferson Delgado

Para Lessa, iniciativas como a das prefeituras de SP e Rio são essenciais. "Não sei se são uma solução definitiva, mas é um caminho para legitimar o funk como movimento cultural", afirma. "Cria um canal de troca simbólica, de comunicação. São canais de diálogo que precisam existir", diz.

Ramos, que é um dos curadores do Funk da Hora, acredita que ainda há pouca vontade de diálogo, mas que o festival é um primeiro passo e é preciso pensar a questão para além do debate de segurança pública. Para ele, é uma questão de direitos humanos, de mobilidade urbana, de desigualdade social, e que também deve ser pensada além da pasta cultural.

Sao Paulo, SP, Brasil - 19 de junho de 2010 - Festival de Funk na Cidade Tiradentes - Patricia Stavis / Folhapress
Sao Paulo, SP, Brasil - 19 de junho de 2010 - Festival de Funk na Cidade Tiradentes
Imagem: Patricia Stavis / Folhapress

"O poder público não tem que pensar em levar cultura para a quebrada, mas em fomentar as culturas que já existem nas quebradas", afirma. "E cada uma é diferente, cada lugar tem a sua peculiaridade."

Em Paraisópolis, Alencar diz que ainda é preciso pensar onde e como funcionaria um "permitidão" nos moldes dos que acontecem em outras periferias.

"É uma questão de testar, porque os pancadões nunca vão acabar", diz. "Tem toda a questão dos proibidões falando de tráfico e de violência. Mas acho que hoje o funk consegue simbolizar mais o que o jovem vive na periferia. Tem todas as vertentes: as funkeiras mulheres, os LGBTs, as músicas que falam de machismo. O funk ganhou essa potência, e o jovem pode simbolizar essas coisas."

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