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Como o antigo fetiche por mulheres asiáticas persiste na pornografia

Bùi Thanh Tâm/Unsplash
Imagem: Bùi Thanh Tâm/Unsplash

Juliana Sayuri

Colaboração para o TAB, de Toyohashi (Japão)

24/01/2020 04h00

"Japonesa" foi a palavra-chave mais buscada por homens no PornHub em 2019, o maior site de compartilhamento de conteúdo adulto do mundo. "Hentai" (animes eróticos), "coreana" e "asiática" também estão no top 5, indica o relatório PornHub 2019 Year in Review, divulgado em meados de dezembro passado. Americanos, britânicos e japoneses são os principais navegantes do site, que teve 42 bilhões de visitas no ano (uma média de 115 milhões por dia). O fetiche por mulheres asiáticas, tão antigo, está em alta novamente.

Liderar um ranking internacional de fantasias sexuais, entretanto, não é motivo de orgulho para muitas mulheres de ascendência asiática no Brasil: 78% delas se sentem desconfortáveis com a fetichização e os estereótipos, disfarçados de elogios (a "beleza exótica") ou não ("mulheres amarelas são mais submissas"), segundo estudo feito por Cecilia Inamura de Moraes, que cursa Relações Internacionais na USP (Universidade de São Paulo).

"A forma como a mulher asiática é representada na indústria de entretenimento (incluindo a pornografia), tida como exótica, submissa, hiperfeminina, infantilizada, influencia muito em como a sociedade nos vê. Um é produto do outro", destaca o texto "Mulheres de Desconforto", publicado no Medium em fins de outubro. O título remete à expressão "mulheres de conforto", que eram feitas de escravas sexuais por militares japoneses durante a Segunda Guerra Mundial. Depois, nos conflitos na Coreia e no Vietnã, a violência sexual de asiáticas por militares americanos arraigou ainda mais o estigma de submissas.

Inamura reuniu 566 relatos inéditos e anônimos de jovens autodeclaradas amarelas - no censo do IBGE de 2010, o mais atual, 2,08 milhões de brasileiros se declararam amarelos (o que corresponde a 1,1% da população). Segundo o estudo, feito e divulgado digitalmente pela universitária, 86,7% das entrevistadas consideram que o corpo asiático é erotizado na cultura pop e 68,2% contam que já viveram episódios de abuso e assédio diretamente relacionados à sua ascendência. A tendência também é visível no levantamento do Instituto Datafolha de 2017, que indicou que 49% das mulheres amarelas relatam ter já sofrido assédio sexual (é o índice mais alto, seguido por 46% de mulheres pretas e 45% de pardas).

"Desde cedo fui "sexualizada", nunca entendi muito bem o por quê. Durante o Ensino Médio comentavam abertamente sobre minha vagina, que deveria ser diferente pelo simples fato de ser japonesa. Um ex me disse que "fui a primeira japa com quem ele transou", como se eu fosse um troféu. Fui perseguida na faculdade por quem "acha asiáticas sexies". Sempre me compararam a atrizes pornô"

Ana (nome fictício), trecho editado

Fenômeno "yellow fever"

Os mais de 500 questionários foram respondidos majoritariamente por mulheres de 18 a 25 anos (62%), mas a autora ainda recebeu diversos relatos de meninas menores de 18, que não foram incorporados ao balanço final do estudo. "É um reflexo da infantilização, o fetiche da estudante colegial dos animes. Também recebi depoimentos de jovens que agora atingiram a maioridade, mas narrando situações passadas na adolescência: por exemplo, homens abordando garotas de 15 anos na rua, dizendo-se 'apaixonados' por asiáticas e perguntando se elas eram 'tipo' as dos pornôs. Também vivi episódios quando era mais nova, de meninos brancos dizendo que 'só namoram asiática'", conta a autora de 21 anos, neta de japoneses.

Fetiche por asiáticas - Photo by Tianshu Liu/Unsplash - Photo by Tianshu Liu/Unsplash
Imagem: Photo by Tianshu Liu/Unsplash

"Sempre quis namorar uma asiática", aliás, é uma das frases mais manjadas para identificar o recorte racial da fetichização, que retrata mulheres amarelas como delicadas e tímidas, mas, ao mesmo tempo, misteriosas e fãs de sexo selvagem - fetiche, diz o dicionário, se refere a um objeto, corpo ou comportamento que provoca excitação sexual. Entretanto, esse imaginário pode levar a situações de abuso e assédio, como se elas estivessem sempre disponíveis para realizar fantasias dos outros.

O fenômeno "yellow fever" se refere, inclusive, a homens que só buscam relacionamentos com mulheres amarelas, o que não é visto com bons olhos por muitas delas, justamente por objetificá-las, isto é, vê-las como simples objetos. No Brasil popularizou-se a expressão japonesa "otaku" para se referir aos aficionados por cultura asiática, incluindo animes, mangás e muitas vezes, sim, mulheres - o foco é principalmente nas descendentes do Leste Asiático, que compreende países como Japão, China, Coreias do Sul e do Norte.

"Sempre surge aquele papo de 'adoro animes', 'adoro a cultura japonesa', 'queria namorar uma japonesa' e afins... Me sinto desconfortável, como se eu só me resumisse a isso, como se eu fosse uma forma de "realizar" o fetiche dessas pessoas"

Beatriz (nome fictício), trecho editado para fins de clareza

De Madame Butterfly a Miss Saigon

Além da indústria pornográfica, diversos livros e filmes hollywoodianos historicamente cristalizaram o fetiche por mulheres asiáticas, destaca a jornalista Sheridan Prasso no livro "The Asian Mystique", de 2005.

Ao longo de mais de 400 páginas, Prasso, correspondente da Bloomberg e editora especializada na Ásia, trata de estereótipos opostos mas integrados: de um lado, a gueixa (a garota submissa, servil e dócil, como a protagonista do livro-filme "Memórias de uma gueixa"); de outro, a "dragon lady" (a vilã misteriosa estilo dominatrix, como a mafiosa interpretada por Lucy Liu em "Kill Bill"). Outras autoras adicionam variantes, como "lotus baby" e "China doll" para se referir ao modelo da gueixa, e criticam o complexo do herói branco (o forasteiro que vai salvar o dia, como o soldado interpretado por Tom Cruise em "O último samurai").

No livro, a jornalista entrevista Mineko Iwasaki, a fonte de inspiração do best-seller de 1997 do autor norte-americano Arthur Golden, "Memórias de uma gueixa". Iwasaki critica os erros no romance, como a ideia de que gueixas (que quer dizer artistas, em japonês) são prostitutas de luxo, tendo sua virgindade vendida em leilões. Após a publicação, ela moveu um processo milionário contra o escritor por revelar sua identidade (antes secreta) e representá-la incorretamente.

Um conto do fim do século 19, que depois se tornou ópera, peça e filme, também é lembrado como um dos marcos da fetichização da mulher asiática como erótica e exótica: "Madame Butterfly", de 1898, do autor americano John Luther Long. Ele narra a história de uma delicada gueixa que se apaixona por um tenente da Marinha norte-americana - e que se suicida após anos de espera pelo retorno do amante.

No fim da década de 1980 estreou "Miss Saigon", musical inspirado na ópera, com pequenas variações: sai a gueixa japonesa, entra a jovem prostituta vietnamita. A história, agora protagonizada por um soldado americano e uma bar girl, se passa na cidade de Saigon durante a Guerra do Vietnã. Até hoje, o musical está em cartaz mundo afora.

Bibelô, não

Enquanto ativistas e jornalistas tratam dessas questões nos Estados Unidos e na Europa há bastante tempo, inclusive com palavras-chave já consolidadas como yellow fever e Asian fetish, no Brasil a discussão é recente mas vem crescendo por impulso de jovens influenciadores nas redes sociais.

A artista mineira Ing Lee foi uma das fundadoras do Selo Pólvora, coletivo composto por mulheres de ascendência asiática. Filha de pai norte-coreano, ela estreou a zine impressa "A Boneca", em 2016, uma ideia que "surgiu da vontade de discutir o desconforto de ter meu corpo desumanizado tal como uma boneca, que não tem cérebro, caga ou sangra". Um tipo de "manifesto", define.

E se agente descolonizasse nossa sexualidade? Sexualidade e afetividade são construções quando nossos afetos e gostos também estão imersos na cultura no qual vivemos. Se há amor diante do belo, qual a beleza que te cativa? E assim, quanto nós, mulheres racializadas, deixamos de nos dar prazer e mesmo entender merecimento no prazer, em função da auto desvalorização em sermos constantemente fetichizadas, ou mesmo negadas de sermos reconhecidas ?mulher?? Dignas de amor, além do fetiche. Teve tempos no qual eu me conformei em meu corpo ser um território exótico à ser desbravado pelo colonizador. Teve tempos no qual eu realmente acreditei que todo amor que eu poderia merecer seria apenas sendo objetificada numa seção específica de afetos que separa mulheres como vertentes de pornografia. Não mais. Não mais acredito na construção de um amor que não seja crítico. Não mais meu corpo é categorizado para experimentação. Não mais o meu prazer está na mão daquele que me oprime. Pelo prazer decolonial, sexualidade emancipatória e afetos verdadeiros. Pelo direito de sermos amadas como pessoas, e principalmente, amarmos à nós mesmas. Afinal, já pensou se a primeira paixão arrebatadora fosse por nós? E assim, desde o início fundar bases sólidas e atemporais de compreensão sobre uma relação que pode e deve ser criada através de respeito, autonomia e confiança? E se a primeira companheira sexual que tivéssemos fosse inclusive nós mesmas? E juntas, desbravar os territórios de prazer que habita em nossas corpas afim de sermos as mais experientes diante daquilo que é nosso? Tomemos de volta para nós essas fronteiras. E saibamos de forma profunda e intransferível onde habita o gozo dessa terra. ph: @diniloris | direção criativa: @marinazaguini | arte + set design: @giuliabarbero_ | produção de arte: @nataliamiyashiro | mk-up: @lauralalaina #eladecide #direitossexuaisereprodutivos #mulheres #feminismo #feministas #feminismointerseccional #feminismoasiatico #equidadedegenero #igualdadedegenero #emancipação #autonomia #empoderamento #autoamor #autocuidado #autogentileza #sexualidade #afetividade

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Ing Lee lembra que, na adolescência, tentava se enquadrar nos "moldes" de mulher amarela, estigmatizados como delicada e pequena pelas expectativas dos outros - um "bibelô exótico", nas suas palavras. "Fui constantemente fetichizada e 'idolizada' meramente por possuir traços asiáticos, como uma personificação de suas fantasias sobre a concepção do 'Oriente' para a ilusão otaku", conta. Agora, aos 24 anos, ela busca desconstruir esses padrões a partir de ilustrações. "Não sou seu souvenir", diz uma de suas artes.

A artista e performer paulistana Caroline Ricca Lee fundou o coletivo feminista Lótus, em 2016, para promover visibilidade e representatividade de asiáticas-brasileiras no país. "Demorei muito para assumir o quanto vivenciei experiências inúmeras de abuso [associadas à ascendência]. Poder informar outras mulheres e trabalhar para que demais gerações não sofram com a mesma condição é o que tem me trazido forças e entendimento sobre toda violência que já passei", diz a ativista de 29 anos, de família sino-japonesa.

Segundo Lee, coautora do capítulo "Feminismo Asiático" na coletânea "Explosão Feminista" (2019), organizada pela antropóloga Heloisa Buarque de Hollanda, as iniciativas atuais são importantes para dar visibilidade ao fenômeno. Caso contrário, diz ela, muitas jovens vão continuar crescendo "ou forçadas a viver um estereótipo para serem aceitas, ou constantemente deslocadas por não corresponderem ao padrão". "Em ambos os casos existe uma constante: a solidão", critica.