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Legado soviético: como a tecnologia vem transformando o mundo da bola

Centro analítico do Zenit - Zenit/Divulgação
Centro analítico do Zenit Imagem: Zenit/Divulgação

Elcio Padovez

Colaboração para o TAB

06/02/2020 04h00

Faz tempo que o futebol já não se limita às quatro linhas. O uso do VAR (Video Assistant Referee) é prova disso — e todo mundo já sabe o que ele anda aprontando. Mas esse jogo de cara moderna que parece coisa do século 21 começou a ser desenvolvido bem antes, no início da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Um dos responsáveis pelo pontapé inicial? A União Soviética.

Na década de 1930, os dirigentes soviéticos passaram a incentivar o intercâmbio esportivo como ferramenta diplomática, e a partir de excursões a países como Alemanha e Inglaterra. Absorveram conhecimentos de futebol e de outras modalidades e, intra-muros, testavam inovações, como a preparação física avançada, que incluía exames de detecção de lesões, acompanhamento fisiológico e treinamentos específicos por posição de jogo. Os soviéticos também se valiam de "espiões" — observadores técnicos que viajavam o mundo para fazer relatórios sobre os adversários que iriam enfrentar.

O estilo soviético de jogar futebol passou a ser chamado de "futebol científico" e logo começou a dar resultados. Em 1956, a seleção da URSS levou o ouro nos Jogos de Melbourne (Austrália), conquista que fazia parte de uma estratégia para, dois anos depois, buscar a Copa do Mundo, na Suécia. O plano precisou ser abortado por causa de Garrincha e da seleção brasileira, que com menos recursos técnicos, levou seu primeiro mundial. Mas, o que resta do legado das inovações tecnológicas do futebol soviético nos gramados russos hoje?

Na palma da mão

Em 2007, anos antes de a Rússia ser anunciada como sede da Copa do Mundo de 2018, os profissionais do futebol do país já possuíam uma tecnologia nacional para análise de dados e de desempenho. O InStat Scout é uma plataforma com informações de cerca de 960 mil jogadores ao redor do mundo. Segundo o jornalista Grigory Telingater, do site Championat, as 16 equipes que disputam a elite da Liga Russa fazem uso do aplicativo local ou do WyScout, desenvolvido na Itália, e que armazena dados de mais de 460 mil atletas e 212 mil jogos passíveis de análise. e tem presença em 121 países afiliados a Fifa (Federação Internacional de Futebol).

O Zenit, de São Petersburgo, pode ser considerado como um dos times russos mais vanguardistas no que se refere ao uso de novas tecnologias. O auxiliar técnico William Artur de Oliveira trabalha há um ano no clube e vive há dez no país. Ele afirma que a comissão técnica do Zenit utiliza plataformas de empresas de dados e um Centro Analítico, composto por quatro profissionais: um para cuidar do GPS, que monitora o tipo e a intensidade do treinamento de cada jogador; um operador de vídeo, que filma treinos e jogos e destrincha as informações para a equipe; dois responsáveis pela parte analítica que, a partir de um mar de dados, selecionam o que vai ser apresentado e trabalhado com os jogadores nos próximos jogos.

Tela de análise de dados da partida entre o Tottenham e a Juventus na Champions League de 2019 - WyScout/Divulgação
Tela de análise de dados da partida entre o Tottenham e a Juventus na Champions League de 2019
Imagem: WyScout/Divulgação

Outras equipes grandes da Rússia também têm investido em centros próprios de análise e banco de dados, como o Dínamo de Moscou, o Spartak e o CSKA.

Petróleo do esporte

Além dos russos, times europeus e da Major League Soccer dos EUA têm investido em análise de dados e desempenho. De acordo com Ary Rocco, professor da Escola de Educação Física da USP (Universidade de São Paulo), quem souber usar melhor a base gigantesca de dados oferecidas por empresas de tecnologia, chamada por ele de "petróleo do esporte", vai liderar.

"O caso mais avançado nessa frente é o Liverpool, pertencente ao grupo americano Fenway Sports Group, que já usam há anos análise de dados para o beisebol — no caso, o Boston Red Socks —, e aplicam a mesma tecnologia em suas equipes de futebol. O Jürgen Klopp e as peças do time campeão da Champions League, do Mundial Interclubes da Fifa e do líder da Premier League foram contratados a partir de uma análise minuciosa das estatísticas e características que os gestores buscavam para cada posição, inclusive o técnico", explica Rocco.

Seleção russa na Copa do Mundo de 1958 - UPI
Seleção russa na Copa do Mundo de 1958
Imagem: UPI

Ele também destaca na Europa os exemplos da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto, que desenvolve produtos que auxiliam o treinamento. Lá existe uma sala circular com luzes: o atleta precisa tocar a bola na luz que acende, com o objetivo de estimular a melhoria nos reflexos e o tempo de bola. Um dos resultados práticos do intercâmbio academia-campo veio com o tricampeonato consecutivo do Porto no Campeonato Português (2006-2009). O Lille, da França, atual quarto colocado da League 1, também utiliza pesquisas feitas na universidade local para evoluir em treinamentos e análises.

Rocco, no entanto, faz uma ressalva. "É importante o clube de futebol saber o que quer. Ele pode ter as melhores tecnologias disponíveis, mas se não forem bem geridas, é difícil dar certo e as utilizar corretamente." As famosas contratações de "jogadores de DVD" — em geral por indicação de agentes amigos de dirigentes e técnicos, entram na lista de má gestão e nem sempre funcionam.

Big data à brasileira

O analista de dados brasileiro César Andrade, que vive há quatro anos na Itália e trabalha na plataforma americana Hudl, defende que a tecnologia está aí para otimizar o tempo e ajudar os clubes a tomarem as melhores decisões. "A decisão final das contratações continua sendo da direção dos clubes, mas hoje ela conta com relatórios mais precisos de cada atleta e isso pode ser benéfico em novos negócios."

Andrade explica que a Premier League está consolidada no uso de análise de dados, assim como o Barcelona, que paga dez pessoas apenas para fazer esse trabalho, sem contar o time de análise de desempenho, mais focado no que é feito durante os treinos e jogos. O Real Madrid destaca oito profissionais para isso, assim como o Manchester City. Para ele, a equipe ideal deveria ter cinco profissionais para cada tipo de análise e serem lideradas por chefes especializados em cada frente. Elas podem conversar e trocar informações, mas não são a mesma coisa. "A análise de dados pode ajudar na contratação de jogadores e no mapeamento de informações como características específicas, histórico e valor de mercado. Isso tende a gerar melhores administrações e uso do dinheiro", explica.

Se o uso de análise de desempenho no Brasil já é uma realidade entre os principais clubes, o mesmo não se pode dizer sobre a análise de dados. Andrade, que atuou por cinco anos no mercado nacional, trabalhou muito com o DVD como uma das principais ferramentas para indicar a contratação de novos jogadores e saber quais as características de cada um.

Dos 20 clubes do Campeonato Brasileiro desta temporada, oito possuem em suas comissões técnicas profissionais que se dedicam exclusivamente à área que envolve big data. O número varia de um a três analistas. Além do Flamengo, o Athletico-PR, Botafogo, Corinthians, Fluminense, Grêmio e Internacional também contam com profissionais internos que trabalham com a análise de dados no dia a dia. O Red Bull Bragantino, promovido à elite em 2019, também possui um departamento de dados/scout, composto de cinco profissionais.

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