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'Parasita' reabre discussão sobre papel cultural de legendas e dublagens

Bong Joon Ho vence o Oscar 2020 por "Parasita" e tradutora o acompanha no palco - Getty Images
Bong Joon Ho vence o Oscar 2020 por 'Parasita' e tradutora o acompanha no palco Imagem: Getty Images

Luiza Pollo

Do TAB

14/02/2020 04h00

Pela primeira vez, um filme não falado em inglês venceu o principal prêmio do Oscar. Você deve ter ouvido essa mesma frase várias vezes desde o dia da premiação, e não é para menos. "Parasita" é um filme coreano, língua falada por aproximadamente 75 milhões de pessoas no mundo, a 14ª em número de falantes nativos.

Os outros mais de 7 bilhões de habitantes do planeta Terra, se quiserem ver o melhor filme de 2019 segundo a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, precisam lidar com legendas ou dublagem. Boa parte dos países está acostumada com isso, já que a maioria dos filmes vem dos Estados Unidos em inglês. Eles mesmos não se acostumam nem à dublagem nem à legendagem. Não gostam. E há uma barreira cultural e social forte erguida entre EUA e o resto do mundo.

O debate virou briga, que ficou feia por causa de dois fatores: um apresentador de TV norte-americano fez um comentário racista sobre o discurso em coreano do diretor de "Parasita", Bong Joon Ho, no Twitter. Além disso, um comentarista de política escreveu, em nota de opinião na revista Mother Jones, que "ninguém gosta de legendas", e que elas são "comuns apenas em mercados onde as bilheterias não são altas o suficiente para que os estúdios consigam recuperar o custo das versões dubladas". Faltou informação aí.

Não há como cravar uma resposta universal — tudo é questão de gosto. Mas não dá para negar que a preferência por um ou outro envolve diversos fatores, desde condições socioculturais até fatores econômicos envolvidos na produção do filme e no país de exibição.

Rafael de Luna Freire, professor do Departamento de Cinema e Vídeo da UFF (Universidade Federal Fluminense) e autor do artigo "O início da legendagem de filme no Brasil" (2015) explicou ao TAB como esse processo ocorreu por aqui. "Minha tese é que inicialmente foi uma questão de motivações econômicas. A chegada do cinema sonoro (1929) coincidiu com a crise econômica mundial e a crise econômica e política no Brasil", relata. "Houve preferência por investimentos no cinema mais caro, que atendia sobretudo ao público letrado. Era o que dava mais dinheiro." Além da questão econômica, o professor conta que a preferência inicial por legendas se justifica pelo alto custo e complexidade da dublagem. Dublar um filme é mais caro.

Mesmo preparar legendas era um processo complicado, pois era preciso mexer nos frames (quadros) físicos dos filmes. Por isso, muitos deles foram exibidos por aqui em versão silenciosa com inserções de cards de texto entre cenas. Publicações da época citadas no artigo de Freire encorajam o espectador a ver primeiro a versão muda (com trilha sonora) e, depois, a original com diálogos em inglês. Assim, dava para ter uma ideia do enredo e em seguida aproveitar o filme em sua versão original, ouvindo a verdadeira voz dos astros de Hollywood.

Tradutor ou adaptador?

Atualmente, a legendagem do cinema é responsabilidade das distribuidoras que trazem os filmes de fora para o Brasil. Já os que passam na televisão costumam ser legendados pelo próprio canal.

Elaine Trindade, tradutora de mais de 2.200 títulos e professora do curso de Bacharelado em Letras: Língua Inglesa - Tradução da PUC-SP, conta que ela mesma já traduziu o mesmo filme para diferentes canais de TV. Hoje, o serviço é realizado principalmente de forma remota, com tradutores trabalhando de casa. "A TV a cabo veio para o Brasil na década de 1990, nem internet tinha ainda. Eu trabalhava dentro da HBO, às vezes com o técnico batendo no meu ombro e dizendo que o filme ia ao ar em meia hora", lembra. Ela relata que, naquela época, fazia tanto o texto da dublagem quanto o da legendagem para o canal — coisa rara hoje em dia.

As versões costumam ser feitas por pessoas diferentes, e não são idênticas. Em primeiro lugar, há uma questão técnica: o texto da dublagem precisa encaixar nos tempo de fala do vídeo — exceto em desenhos animados, em que é feita voz original e depois a boca dos personagens é animada. Além disso, a adaptação cultural do texto é maior na dublagem, explica Trindade. Como o público é mais amplo (incluindo crianças, idosos e pessoas não alfabetizadas em geral), é preciso um trabalho extra de adaptação de referências culturais.

Stella Esther Ortweiler Tagnin, professora da área de Estudos Linguísticos e Literários em Inglês do Departamento de Letras Modernas da USP, dá um exemplo: "Se a versão original de um filme alemão menciona um poeta que ninguém conhece, o tradutor precisa avaliar qual é a importância dele dentro do filme. Pode ser que tenha que manter o nome original, mas em alguns casos é possível colocar o nome de um poeta brasileiro", afirma.

Em uma obra legendada, espectadores mais atentos perceberão a diferença e, consequentemente, vão ganhar na informação. Por outro lado, a dublagem facilita o processo de compreensão e atenção nesse caso. Essas decisões são muitas vezes arbitrárias — aspecto que Trindade transformou em projeto de pesquisa de doutorado na USP, sob orientação de Tagnin. "Estou levantando os aspectos de manipulação de um texto por parte dos tradutores. Quero entender se as posições políticas, religiosas e outras podem interferir no resultado do trabalho", conta ela.

Será que um profissional pode pegar leve num palavrão ou amenizar um diálogo carregado de opinião política, por exemplo? Se na versão legendada os falantes da língua original do filme podem pegar essas diferenças, na dublagem, não.

Reprodução / Internet
Imagem: Reprodução / Internet

Vitória da dublagem

Na época da publicação do artigo de Freire, em 2015, a legendagem ainda imperava no país. Mas ele conta que houve uma mudança desde então: agora, é a dublagem que ganha as salas de cinema do país. "Houve uma mudança no perfil dos cinemas. Eles estão dentro dos shoppings, o público é mais adolescente, há mais filmes de ação...", enumera o professor da UFF. "Com isso, o estúdio já adianta uma dublagem que antigamente tinha que ser feita posteriormente só para passar na TV."

Isso aconteceu com os filmes mais "pop" do Oscar deste ano, como "Coringa" e "1917", disponíveis tanto com voz em português quanto com legendas nos cinemas pelo país. "Parasita", distribuído pela Pandora Filmes, não teve o mesmo destino: apesar de ter saltado de 70 salas na estreia (em 7 de novembro de 2019) para 250 após o Oscar, não há versão dublada.

Mabel Cezar, fundadora da Sociedade Brasileira de Dublagem (SBD), explica que nos Estados Unidos dificilmente uma grande produção vai sair sem voz na língua nativa. "Já é uma necessidade. O custo da dublagem entra no orçamento do filme", diz ela. O custo é maior do que o da legenda, porque inclui o tradutor, todo o elenco, a direção de dublagem, o estúdio de gravação, o mixador... "Mas, quando se lança um filme lá fora, eles já sabem que mesmo que a bilheteria no país não seja a esperada, a dublagem ao redor do mundo ajuda a levantar a arrecadação." Cezar dá como exemplo "3%", produção brasileira da Netflix que não pegou entre o público nacional, mas fez muito sucesso lá fora.

O serviço de streaming, por sinal, está bastante atento à dublagem, afirma a diretora. Desde 2018, a Netflix vem investindo pesado nisso, inclusive com uma equipe interna dedicada à área. O retorno financeiro das produções dubladas normalmente para nove línguas (português brasileiro, francês, italiano, alemão, turco, polonês, japonês, espanhol castelhano e espanhol latino-americano) justifica pagar até o cachê dos atores originais das séries e filmes para dublarem seus próprios personagens, quando eles falam mais de uma língua. "A Chuva", da Dinamarca, e "Cães de Berlim", da Alemanha, são exemplos de séries dubladas para o inglês por atores do casting original.

Cezar acredita no crescimento cada vez maior da área, e vê inclusive a profissão sendo reconhecida em premiações no futuro. Ela lembra que, em 2020, tradutores subiram ao palco da cerimônia do Oscar, e afirma que diversos atores conhecidos vêm procurá-la por interesse em trabalhar na área.

Vale lembrar da importância social do trabalho. Foi com a dublagem que a população de baixa renda, por exemplo, teve acesso a Frank Sinatra, à Disney e a outros produtos culturais do exterior, ressalta Cezar. "No Brasil, você tem casas sem acesso a saneamento básico e que têm televisão", observa ela.

Sem tempo, irmão

Há ainda um outro fator que pesa na popularidade da dublagem: nosso estilo de vida. Vivemos na correria, não temos tempo para nada, nem para sentar em frente à TV e simplesmente ver um filme. Com o celular na mão, o laptop no colo ou preparando uma refeição, por exemplo, fica mais fácil consumir um produto audiovisual "de ouvido". "A dublagem dá acessibilidade, mas também serve para quando a gente não quer parar para ver um filme, está com a TV ligada e não quer 'perder tempo'. Assistimos pelo ouvido", brinca.

Dublado ou legendado, vale lembrar que o filme estrangeiro a que você está assistindo exigiu um trabalhão de quem o traduziu. "Eu sempre falo para os meus alunos que o mundo só é do jeito que é porque nós existimos. A globalização depende do tradutor, as relações internacionais dependem do tradutor, a cultura depende do tradutor", diz Trindade, que se considera uma das grandes "culpadas" pela polêmica popularização do Halloween no Brasil, já que traduziu diversos filmes com essa temática.

Brincadeiras à parte, a professora afirma que o tradutor precisa, antes de mais nada, ter conhecimento profundo da cultura de seu país e daquele cuja língua ele traduz. "Eu colocaria a profissão ao lado das relações internacionais. O tradutor precisa dominar sua cultura e a do outro", diz.

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