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'É hora de por o rabo na rua': BloCu desfila um ano após 'golden shower'

O Blocu desfila pelo centro de São Paulo um ano após o caso do "golden shower", que viralizou quando o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) perguntou sobre a prática no Twitter  - DANILO M. YOSHIOKA/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
O Blocu desfila pelo centro de São Paulo um ano após o caso do "golden shower", que viralizou quando o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) perguntou sobre a prática no Twitter Imagem: DANILO M. YOSHIOKA/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Daniel Lisboa

Colaboração para o TAB

25/02/2020 04h00

Um homem que aparenta ter por volta de 50 anos rebola no ponto de ônibus. Do outro lado da rua, dois homens na mesma faixa etária observam a folia com ar impassível. Difícil saber se gostam do BloCu ou se estão chocados demais para esboçar uma reação.

O bloco que saiu ontem à tarde (24) do Pateo do Collegio e desfilou pelo centro de São Paulo é aquele que ficou famoso depois que o presidente Jair Bolsonaro postou, no carnaval de 2019, um vídeo com alguns de seus integrantes fazendo "golden shower".

Desfile do BloCu no centro de São Paulo - Tata Barreto/Divulgação
Desfile do BloCu no centro de São Paulo
Imagem: Tata Barreto/Divulgação

O bloco aposta nas performances para passar sua mensagem. À frente do trio, cerca de dez homens e algumas poucas mulheres dançam, rebolam, rolam pelo asfalto, se beijam, se esfregam, jogam cera de vela nas nádegas e também as fustigam com chibatadas.

Apesar da súbita — e invonluntária — visibilidade conquistada pelo BloCu, ele é um bloco ainda pequeno. O público que o acompanhou ocupou algo em torno de um quarteirão. O desfile passou animado e em clima de total tranquilidade: a reportagem do TAB não presenciou brigas ou roubos. E as performances ficaram do lado de dentro das cordas. Ao contrário do que talvez imagine o presidente, o entorno do trio não é em nada diferente dos demais blocos: tem gente de boa, gente bêbada, gente se pegando, fantasiada ou vestida como "civil".

O clima político do país, porém, levou o TAB a questionar os foliões: qual o papel de um bloco como o BloCu em tempos conservadores?

"Não importa se é gay ou hétero, a experiência de estar aqui já é algo importante", acredita Lucas Gaspar, de 25 anos. "Só lamento que o bloco ainda seja pequeno, uma coisa de nicho. De qualquer modo, está fazendo o papel dele."

Fábio Augusto, 53, concorda que, independentemente do tamanho, a presença do BloCu nas ruas já significa uma vitória em alguma medida. Vestindo apenas uma sunga cavada, ele ressalta o lado performático do bloco para defender a liberdade dos corpos. "As pessoas têm que parar de se preocupar com bundas de fora e prestar atenção nos problemas realmente sérios", diz Augusto. "É preciso naturalizar o corpo nu, parar com isso de ser reprimido pela sociedade", completa.

Blocu desfila pelo centro de São Paulo um ano após o caso do "golden shower" - DANILO M YOSHIOKA/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Blocu desfila pelo centro de São Paulo um ano após o caso do "golden shower"
Imagem: DANILO M YOSHIOKA/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Arte, nudez e liberdade sexual. Para Isabel Branquinha, 23, o BloCu representa um verdadeiro "combo" de tudo o que é perseguido pelo atual governo. "Como jornalista e artista, eu sei bem o que é isso", diz ela. "O BloCu é um espaço de acolhimento, e para mim isso é o mais importante."

"A questão é como a mensagem vai sair do bloco", diz Cris Neutzling, 36. Ele concorda que as performances do BloCu têm potencial para, digamos, impactar a família brasileira. Não acha, porém, que isso seja necessariamente ruim. "Choca. E ao chocar, reverbera na sociedade", acredita.

O BloCu é, provavelmente, o mais ousado bloco paulistano na maneira como trabalha a sexualidade. Eduardo Ritter, de 29, acredita que isso é bom, mas lamenta que o bloco desfile "escondido". "A gente está aqui passando em frente a um monte de prédio vazio, só tem os porteiros. Eu queria ver um bloco desses desfilando lá na Zona Leste, em um bairro residencial", diz. "Por outro lado, é bom lembrar que Carnaval é, antes de tudo, diversão. Por mais que um bloco seja contestador, a galera tem mais é que se jogar. Ninguém tá aqui fazendo a revolução russa", brinca o folião.

Domenica Camatti, 32, foi testemunha ocular do "episódio golden shower" no Carnaval passado. Garante que assistiu à cena com naturalidade. "Achei tranquilo porque dentro da minha 'bolha', vemos esse tipo de coisa com normalidade", diz ela. "O que não pode é o presidente da República sair compartilhando de um jeito que discrimina o rolê. Acho importante que as performances saiam da nossa bolha, mas não é desse jeito que se faz."

Tata Barreto / Divulgação
Imagem: Tata Barreto / Divulgação

Yuri Tsukamoto, 23, concorda que a maneira como a performance do golden shower chegou ao grande público não foi a ideal. Mas, falando sobre a apresentação de hoje, lembra que performances podem ser uma expressão política. "O nosso próprio corpo, aliás, também é político", diz ele.

Depois de percorrer dois longos quarteirões desde o Pateo do Collegio, o bloco para na rua Líbero Badaró. O trio fica estacionado até o final da festança, por volta das 19 horas. Pessoas que passam pela região (e que claramente não estão ali como foliões) param para tirar fotos das performances. Algumas famílias estão acompanhadas de crianças, em uma cena que provavelmente perturbaria os critérios morais da ministra Damares Alves.

"É incrível termos um bloco como esse nessa época tenebrosa que vivemos. O BloCu não é importante apenas para a nossa causa (gay). É importante para a causa de todos aqueles que desejam um país decente", diz Vitor Franco, 28. "Todo mundo tem muito pudor. É hora de pormos o rabo na rua".

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