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Como os blocos LGBTQs ajudaram a dar a cara do Carnaval de rua em SP

Meu Santo é no Pop em 2019: bloco foi um dos primeiros a arrastar jovens LGBTQ+ na retomada do Carnaval em São Paulo - Divulgação
Meu Santo é no Pop em 2019: bloco foi um dos primeiros a arrastar jovens LGBTQ+ na retomada do Carnaval em São Paulo Imagem: Divulgação

Tiago Dias

Do TAB

21/02/2020 04h00

São Paulo dá início ao Carnaval 2020 com a estimativa de levar 15 milhões de foliões às ruas, 1 milhão a mais do que em 2019. Uma evolução e tanto para a cidade que há uma década parecia ter soterrado a folia na rua, dando razão a quem um dia a chamou de "túmulo do samba".

Do final de semana passado até dia 1º de março, serão 678 desfiles oficiais na rua, um aumento de 38,5%. Um número em especial salta aos olhos. Desse total, 60 blocos são voltados ao público LGBTQ+, representatividade que muitos destinos clássicos do Carnaval nunca chegaram a ter. E isso diz muito sobre a cara do Carnaval de rua que a cidade agora ostenta.

O processo de revitalização dessa folia passa pelo surgimento dos blocos Acadêmicos do Baixo Augusta (2010) -- hoje o maior da cidade, atraindo 1 milhão de pessoas --, o Casa Comigo (em 2012) e o Tarado Ni Você (em 2013), mas muitos apontam 2015 como o ano da virada, quando a cidade passa a disputar turistas com Salvador e Rio de Janeiro e a concentrar recursos e a atenção das marcas patrocinadoras. Naquele ano, jovens foliões (muitos estreantes na festa) tomaram as ruas para seguir trios elétricos que sequer tinham bandinha de fanfarra ou bateria.

Foi o caso do Meu Santo é Pop, que saiu pela primeira vez com DJs substituindo as marchinhas pelos hinos de divas do pop, na mesma pegada das baladas LGBTQ+ da cidade. Uma quebra na lógica tradicional da festa, não apenas na sonoridade, mas também no comportamento. Segundo o fundador, Raphael Malaquias, a intenção era fazer a comunidade gay, acostumada com a ferveção da noite, botar a cara no sol e na folia.

"Em 2015 tinha muito bloco 'friendly', mas eu não conhecia nenhum bloco específico para o público LGBTQ+. O bloco surgiu para que elas se sentissem livres para curtir o Carnaval sem medo", conta. "Até então era tudo muito tradicional, as mesmas marchinhas, a repetição de padrões homofóbicos no comportamento e na música."

De cara, o bloco reuniu 5 mil pessoas. Hoje, conta com patrocínio e a estimativa de 100 mil pessoas para o desfile deste ano no pós-Carnaval. "Colocar um bloco pop e abertamente LGBTQ+ nas ruas fez as pessoas perceberam que era possível pertencer ao Carnaval de rua com seus nichos. 2015 foi quando a diversidade realmente deu as caras na festa", observa Malaquias.

Raphael Malaquias, um dos fundadores do Meu Santo é Pop - Murilo Marcio/Divulgação - Murilo Marcio/Divulgação
Raphael Malaquias, um dos fundadores do Meu Santo é Pop
Imagem: Murilo Marcio/Divulgação

A movimentação nas ruas naquele ano chamou atenção até do Observatório de Turismo e Eventos da Cidade de São Paulo, núcleo de estudos e pesquisas da SPTuris, que antes monitorava a movimentação apenas no sambódromo. O levantamento mostrou um crescimento de 22% de turistas e um aumento no número de paulistanos que ficaram na cidade por causa do Carnaval (42%). Em 2019, o número chegou a 55%.

Carnaval plural

Figura conhecida da comunidade LGBTQ+ na cidade, o jornalista André Fischer se recorda que, há 20 anos, o público contava apenas com a Redoma, espécie de bloco que rolava na segunda-feira anterior à festa.

"Como todo mundo saía da cidade nos dias de Carnaval, era o momento do encontro da comunidade. Até então o destino principal era o Rio, com seus bailes e bandas frequentados pelos que se montavam, pelos que viviam enrustidos durante o ano e pelos que se assumiam sem grandes problemas", lembra.

Hoje, como diretor do Centro Cultural da Diversidade da Secretaria Municipal de Cultura, Fischer não tem dúvida de que a festa, como a conhecemos hoje, foi atravessada pela participação dos LGBTQ+ na folia.

"Assim como a cidade abraçou a Parada do Orgulho LGBT e a transformou na maior do mundo e em um de seus eventos mais emblemáticos, os blocos gays são parte fundamental do sucesso e da própria identidade do carnaval paulistano", observa. "Aqui os blocos não tocam apenas samba, axé, frevo. Tem música eletrônica, funk e pop, inclusive em inglês, que são ritmos 'tradicionais' da cena gay."

Foliões curtem Bloco Agrada Gregos na tarde de sábado (10) no Obelisco do Ibirapuera, em São Paulo - Edson Lopes Jr - Edson Lopes Jr
Foliões curtem Bloco Agrada Gregos no Carnaval de 2018
Imagem: Edson Lopes Jr

E não há como negar que a diversidade sonora, apesar de render o apelido de "carnaval de balada", é o que diferencia a festa daqui com a de outros destinos. Nos 400 circuitos espalhados pela cidade este ano, há espaço até para blocos de k-pop e emo. Entre as estreias de 2020 tem o lendário Galo da Madrugada, bloco tradicional de Recife, mas também tem trio com Alok e Vintage Culture, dois totens da música eletrônica. Se antes causava estranheza um bloco como Beatloko, voltado para o rap, hoje o gênero ganha a companhia de outro trio, liderado por Emicida.

"O que aconteceu foi um movimento de pluralizar o público, e também os gêneros musicais", diz a publicitária Nath Takenobu, uma das criadoras do Agrada Gregos, bloco gay e "hetero friendly", que reuniu quase meio milhão de pessoas em 2019.

Assim como nove em cada dez paulistas, ela costumava curtir o Carnaval no Rio de Janeiro, até 2015, quando foi impactada pelo movimento nas ruas. "Queríamos fazer um bloco com o perfil dos nossos amigos, que saiam à noite. Nos primeiros anos, era esse o approach: se você acha que não gosta de Carnaval você está errado, você não gosta é de marchinha, e a gente vai tocar a música que você gosta", conta.

Bateria do Siga Bem Caminhoneira, nas ruas de São Paulo desde 2017 - Nina Moreira/Divulgação - Nina Moreira/Divulgação
Bateria do Siga Bem Caminhoneira, nas ruas de São Paulo desde 2017
Imagem: Nina Moreira/Divulgação

Junto com o Agrada Gregos, 2016 também marcou a estreia do Domingo Ela Não Vai e Minhoqueens, que em menos de um ano já arrastavam facilmente 150 mil foliões. No levantamento da SPTuris de 2019, pela primeira vez Agrada Gregos e Minhoqueens foram os blocos mais citados pelos entrevistados.

"Há muita gente vindo de outros estados para conhecer o Carnaval de São Paulo", observa Fischer. "O nosso Carnaval está ficando conhecido até mesmo na cena internacional, por ser mais organizado, e, com certeza, pela imensa visibilidade e protagonismo de gays, lésbicas, drag queens, travestis e pessoas trans."

Esse espaço é meu

Há muitas explicações para esse boom ter acontecido na metade da década. A economia em queda certamente fez com que as pessoas desistissem de viajar, mas para Takenobu um motivo se sobrepõe. "Foi o ano da pluralização que, hoje em dia, é a marca registrada de São Paulo", observa.

"Eu me divertia muito no Rio, mas não me sentia representada. Eram blocos majoritariamente héteros, então tinha aquela coisa de puxar o braço, o povo queria pegação. Esses blocos LGBTQ+ têm muita pegação, óbvio, mas eles estão muito pautados para você estar entre os seus. E isso faz diferença. São muitas as mulheres hétero que também escolhem ir a esses blocos, porque elas ficam livres e seguras para dançar". Sinal de um ambiente mais plural e seguro, as mulheres passaram a ser maioria na festa da rua, segundo a SPTuris. Em 2019, elas representavam 54% dos foliões.

Foi nesse ambiente que as lésbicas passaram a botar seus blocos na rua, abrindo espaço e representatividade na folia. De lá pra cá, surgiram os blocos Desculpa Qualquer Coisa, Dramas de Sapatão, Siriricando e o Siga Bem Caminhoneira -- que resgata a tradição com uma bateria 100% feminina.

"Queremos provar que as mulheres podem fazer tudo. Podem discotecar, podem tocar, podem fazer o que quiser. Com a bateria na rua, aumenta nossa proximidade com o público, acaba sendo maior nessa configuração", observa Luana Coelho, DJ e produtora do bloco.

Saldo parcial: arrastões

O crescimento contínuo do Carnaval de rua fez aumentar também a sensação de insegurança. No levantamento da SPTuris, em 2015, 89% dos entrevistados disseram se sentir seguros na festa. Em 2019, esse número caiu para 70%.

Em 2020, no pré-Carnaval, o Desculpa Qualquer Coisa desfilou em um espaço maior, no centro da cidade, e sofreu com arrastões e alguns casos de assédio. Uns apontam a má distribuição dos blocos pelos circuitos, misturando blocos, estilos e públicos diferentes, como um dos motivos.

Carta Aberta ao público da Desculpa Qualquer Coisa, @smculturasp , @prefeitura.sp.gov.br , @aleyoussef e @brunocovas . No sábado, 15/02/20, pusemos mais uma edição do nosso bloco de carnaval nas ruas de São Paulo. Primeiro, nós queremos agradecer a presença das milhares de pessoas e principalmente mulheres, que compareceram e fortaleceram o bloco. Apesar de ter sido maravilhoso ver aquela galera toda presente, o que assistimos foi sem precedentes em termos de violência e agressividade. Para além dos furtos, o que vimos foram mulheres absurdamente assediadas, pessoas agredidas por grupos inteiros; paramos o som de música em música, tentando conter as inúmeras brigas que aconteceram e infelizmente, não pudemos garantir a paz, tranquilidade e o espaço seguro que o bloco se propõe a ser para o público LGBTQIA+ e principalmente as mulheres. Não houve qualquer iniciativa por parte do poder público para lidar com essa situação prévia ou no decorrer do bloco e temos muita consciência de que mais polícia (principalmente militar) não é solução para nada. Nós tivemos a oportunidade de observar um quadro muito fiel da nossa conjuntura atual e infelizmente, muitas pessoas foram afetadas. Foi bastante perceptível também a diferença gritante da atuação dos aparelhos de segurança pública, que no Centro de São Paulo, age de maneira bastante diferente do modo como atua em regiões periféricas. Com um Estado (e Governo) que não busca atacar as causas dos problemas (e sim aprofundá-los) e a compreensão de que atuação policial pura e simplesmente não resolve problema de segurança pública, lamentavelmente não veremos nada disso mudar tão cedo. (texto continua nos comentários)

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Em uma carta aberta à prefeitura, o bloco cobrou mais segurança: "Reiteramos que nosso objetivo era contrapor precisamente esse quadro nefasto no qual estamos inseridas: mulheres lésbicas e bissexuais se divertindo e ocupando a cidade, em um espaço seguro, são representações da sociedade que queremos".

Para Coelho, do Siga Bem, os blocos LGBTQ+ têm peso político na festa. "Acreditamos que a folia se tornou muito mais politizada e democrática com o passar dos anos, e a procura por blocos mais inclusivos aumentou, afinal, todos têm direito a se divertir, não é mesmo?", diz.