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'Nós somos invisíveis': trabalhadoras sexuais são afetadas pela pandemia

Assim como milhões de trabalhadores autônomos brasileiros, as profissionais do sexo são as mais afetadas pela pandemia do novo coronavírus - Dado Galdieri/The New York Times
Assim como milhões de trabalhadores autônomos brasileiros, as profissionais do sexo são as mais afetadas pela pandemia do novo coronavírus
Imagem: Dado Galdieri/The New York Times

Marie Declercq

Do TAB

28/03/2020 04h00

Assim como milhões de trabalhadores autônomos que dependem da própria força de trabalho para se sustentar, profissionais do sexo estão expostos a riscos — e sem perspectivas de entrar em quarentena para se proteger da covid-19. Na região central de SP, como já reportado, zonas de prostituição de rua continuam em atividade, e mulheres acima de 60 anos seguem trabalhando por terem na prostituição sua única fonte de renda. Em outros estados, a realidade é a mesma.

Por recomendação da OMS, o distanciamento social é uma das melhores medidas para que pessoas não entrem em contato com o coronavírus, reduzindo a velocidade do contágio. No entanto, em um país onde milhões de pessoas trabalham por conta própria — boa parte delas em regime informal —, ficar em casa significa deixar de ganhar dinheiro para pagar as contas. Para as prostitutas, à falta de trabalho se somam ainda o preconceito e o abandono por parte do poder público em garantir direitos básicos para a categoria.

A trabalhadora sexual Santuzza de Souza viu o movimento reduzir radicalmente nas últimas semanas na Rua Guaicurus, situada na região central de Belo Horizonte (MG) e conhecida historicamente como uma zona de bares e de prostituição. Souza faz parte do Coletivo Rebu e da CUTS (Central Única de Trabalhadoras Sexuais), e sua maior preocupação é que ela e suas colegas — mais de duas mil só na Guaicurus — fiquem sem sustento por causa da pandemia. "Já somos vistas como vetor de doenças, e agora também nos olham como responsáveis pela propagação do coronavírus", afirma.

Os trabalhadores brasileiros em geral sofrem com a falta de medidas do governo que os protejam de prejuízos causados pelo coronavírus, mas as profissionais do sexo são especialmente invisibilizadas desde antes do coronavírus. Sem contar com sindicatos tradicionais para representá-las, a categoria possui uma organização histórica, desde os anos 1970, formada por redes de associações espalhadas pelo Brasil inteiro para representar seu direitos e interesses. O TAB falou com algumas dessas lideranças de associações de trabalhadoras sexuais de Minas Gerais, Pará, Sergipe, Paraíba, São Paulo, Maranhão e Amazonas sobre a situação de milhares de mulheres — muitas no grupo de risco de pessoas acima de 60 anos — que não têm outra opção senão continuarem trabalhando para sustentar suas famílias e a si mesmas.

"Como eu falo para elas ficarem a um metro de distância do cliente?"

Grande parte das associações não exige tratamento especial para a categoria e sabe que a situação é muito parecida com a de milhões de trabalhadores autônomos — como entregadores, motoristas de aplicativo e empregados domésticos. A solução é compartilhar recomendações de segurança com quem faz ponto na rua ou em estabelecimentos e não pode parar de trabalhar.

Maria de Jesus Almeida Costa, coordenadora da Aprosma (Associação das Profissionais do Sexo do Maranhão), afirma que o momento agora é de conscientizar quem está trabalhando. Desde evitar sair de casa caso esteja doente até cobrar que bares e casas noturnas distribuam álcool em gel. "Passamos nos bares, já conversamos com muita gente e fizemos uma campanha no começo do mês para enfatizar a questão do coronavírus. Muitos bares e [bailes] bregas já fecharam em São Luís", conta a coordenadora.

"Como eu falo para elas ficarem a um metro de distância do cliente, se elas devem ir com o cliente para a cama?", questiona Irene Santos, coordenadora da Astrasse (Associação das Trabalhadoras Sexuais de Sergipe) e membro da CUTS. Ela afirma se sentir de mãos atadas ao recomendar as medidas de segurança às dezenas de profissionais a quem presta apoio na capital, Aracaju, além de oito municípios do estado.

"O movimento baixou muito, muito mesmo. Já não estava bom e agora piorou", conta.

É um público-alvo com o qual o Poder Público não está nada preocupado. Ninguém fala sobre o que fazer com as trabalhadoras do sexo.

Irene Santos, coordenadora da Associação das Trabalhadoras Sexuais de Sergipe

Em Brasília, diversas associações se uniram para redigir uma cartilha de redução de danos a ser distribuída entre trabalhadoras do sexo da região. Além de recomendações de higiene, há dicas para ganhar dinheiro através da internet, opção apontada por muitas lideranças como difícil de adotar pela falta de familiaridade com o trabalho sexual virtual. Muitas dessas trabalhadoras dependem da rua para fazerem programas a um preço que varia de 30 a 150 reais, dependendo da região.

Já em Manaus, capital do Amazonas, cidade turística que recebe muitos tripulantes de embarcações, o movimento parou para quem depende da prostituição para sobreviver. "Alguns dos turistas que entrariam na cidade seriam clientes, mas eles não estão vindo mais" diz Denise Viana, coordenadora do Núcleo de Prostitutas Rosa Vermelha em Manaus.

"Velha guarda" da prostituição: risco duplo

Mesmo se o presidente Jair Bolsonaro insistir no isolamento vertical de idosos e pessoas com comorbidades, como afirmou durante seu pronunciamento, pouco mudaria na vida de muitas profissionais do sexo na ativa. "Temos uma demanda muito grande de mulheres idosas, a velha guarda, que ainda trabalha sem as mínimas condições", aponta Lourdes Barreto, uma das fundadoras da Rede Brasileira de Prostitutas (RBP) e do Gempac (Grupo de Prostitutas do Estado do Pará). Barreto é uma liderança histórica, ao lado de Gabriela Leite, na luta pelo reconhecimento dos direitos dos trabalhadores do sexo brasileiros.

Lourdes Barreto (mostrando a tatuagem no antebraço) participa de um encontro promovido pelo Gempac (Grupo de Mulheres Prostitutas do Estado do Pará) - Arquivo Pessoal
Lourdes Barreto (mostrando a tatuagem no antebraço) participa de um encontro promovido pelo Gempac (Grupo de Mulheres Prostitutas do Estado do Pará)
Imagem: Arquivo Pessoal

Barreto alertou para algo que coordenadoras de ações em outros estados também reportaram ao TAB: um número expressivo de mulheres que trabalham como prostitutas e fazem ponto na rua tem mais de 60 anos de idade. Com isso, correm um risco duplo: sofrem a vulnerabilidade da rua e integram um grupo de risco em que a covid-19 tem muito mais chances de ser fatal.

"A classe empresarial provavelmente não vai querer firmar nenhum compromisso com uma categoria que já sofre estigma na sociedade", alerta Barreto sobre as tentativas de negociação com donos de bares e boates em Belém do Pará, onde mora e atende milhares de profissionais.

Algumas já estão isoladas, sem ter o que comer, e muitas moram em locais com um único cômodo. Se isolar é quase impossível. A quarentena só dá certo para o rico, porque essas medidas não adiantam para a sociedade mais pobre.

Lourdes Barreto, coordenadora do Grupo de Prostitutas do Estado do Pará e membro da Rede Brasileira de Prostitutas

No Maranhão, a prioridade de Almeida Costa é conscientizar e, de alguma forma, assegurar que as mulheres idosas possam se proteger do contágio. "Todas estão na vulnerabilidade, claro, mas as mais velhas fazem as mesmas coisas que as mais novinhas. E atendem menos clientes, por causa da idade. É um risco iminente. Se ela está no rolo na vulnerabilidade e já tem menos parceiros, agora com o coronavírus vai acabar de vez qualquer chance de ela se sustentar", diz.

Betânia Santos, trabalhadora sexual e membro da associação Mulheres Guerreiras de Campinas (SP) - Arquivo Pessoal/Facebook
Betânia Santos, trabalhadora sexual e membro da associação Mulheres Guerreiras de Campinas (SP)
Imagem: Arquivo Pessoal/Facebook

"Saímos para trabalhar todos os dias, mas não tem cliente"

O Jardim Itatinga, em Campinas (SP), surgiu durante a ditadura militar com o deslocamento de prostíbulos do centro da cidade para um bairro mais afastado, próximo ao Aeroporto de Viracopos. É uma das maiores zonas de prostituição do Brasil, onde mulheres cisgêneras, trans e travestis aguardam na rua a vinda de clientes.

Além das pensões que abrigam as mulheres, o bairro também conta com bares, restaurantes e "inferninhos" que abastecem milhares de pessoas que trabalham por lá. No entanto, apesar das medidas anunciadas pelo governador João Doria, Betânia Santos, trabalhadora sexual e integrante da associação Mulheres Guerreiras, diz que nada mudou no bairro. Exceto os clientes. Por conta da doença, há pouquíssima procura pelas centenas de trabalhadoras sexuais do local. Pela primeira vez em décadas de existência, as ruas do Jardim Itatinga estão vazias.

Santos afirma que muitas trabalhadoras precisam atender todos os dias, pois dependem disso para se sustentarem. Até o momento, nenhuma orientação do poder público sobre o funcionamento das casas foi informada às mulheres. Por ora, todas evitam aglomerações e trabalham na rua. "Estamos trabalhando, e estamos sem saber o que fazer. Aqui tem meninas que pagam diária nas casas. Se não estão trabalhando, como vão pagar? Tem gente que tentou ir embora e não conseguiu, porque não podem, por exemplo, voltar para o Rio de Janeiro. É complicado para um trabalhador autônomo. Praticamente todo trabalhador do Jardim Itatinga é autônomo — não só as trabalhadoras sexuais, mas também as pessoas nos bares, restaurantes e outros estabelecimentos que atendem ao bairro", explica Santos.

"Estamos vivendo como se fosse na China"

Indianare Siqueira idealizou e coordena a Casa Nem, uma ONG criada para acolher a população LGBTQ+ na capital do Rio de Janeiro. Siqueira afirma que, no momento, os esforços estão direcionados a acolher pessoas que moram na rua, incluindo trabalhadores sexuais. Por conta disso, a Casa Nem, situada em um prédio de sete andares em Copacabana, na Zona Sul do Rio de Janeiro, tomou medidas rígidas. As visitas estão suspensas, um dos andares servirá como um ambulatório improvisado e outro para isolar algumas pessoas. "Todo mundo precisa se higienizar quando for entrar e subir no prédio", conta Indianare. "Estamos vivendo como se fosse na China".

O Rio de Janeiro, ao lado de São Paulo, foi um dos primeiros a ter declarado o contágio comunitário (quando não se pode traçar a origem do vírus). Por conta das medidas de isolamento anunciadas pelo governador Wilson Witzel, as zonas de prostituição estão vazias. Para conseguir ajudar a população mais vulnerável, a Casa Nem está pedindo doações e mapeando pessoas que ainda estão nas ruas para tentar abrigá-las em prédios abandonados e ocupações ligadas à organização.

A Casa Nem, ONG carioca, está prestando apoio à população LGBTQ+ afetada pelo coronavírus - Reprodução/Facebook
A Casa Nem, ONG carioca, está prestando apoio à população LGBTQ+ afetada pelo coronavírus
Imagem: Reprodução/Facebook

"A gente que viveu a epidemia da AIDS sabe como é essa experiência. Saí da minha casa na Zona Oeste e me isolei no prédio da Casa Nem. As trabalhadoras sexuais nas ruas estão começando a entender que estamos prestando essa ajuda para elas, e estamos pedindo também que nos ajudem a encontrar quem ainda está na rua", diz.

Fechamento de hotéis complicam moradia

Os cinco quarteirões da Rua Guaicurus abrigam 28 hotéis e diversos bares, casas noturnas, casas de massagem e outros estabelecimentos dos quais mais de duas mil trabalhadoras sexuais dependem para ganhar dinheiro. Já em Belo Horizonte, com o fechamento do centro, as trabalhadoras do local contam com a atuação de associações, coletivos e ONGs como o Coletivo Rebu e a Aprosmig (Associação das Prostitutas de Minas Gerais) para negociar soluções e medidas no local.

Na Rua Guaicurus, muitas pessoas de outros estados que se mudaram para a área para trabalhar com o sexo. Os hotéis servem não só para atender clientes, mas também são moradia para muitas pessoas que desembolsam de R$ 100 a R$ 170 por diária. Por conta da pandemia, esses estabelecimentos fecharam as portas e deixaram trabalhadoras sem ter para onde ir. Está em curso uma negociação desde o dia 19 de março para que alguns estabelecimentos permaneçam abertos sem cobrar a diária de moradoras. Assim, elas também poderiam se isolar.

"Depende muito de cada dono de hotel", diz Cida Viera, diretora-geral da Aprosmig. "Semana que vem, vamos conversar para que elas parem de trabalhar e levaremos alguns psicólogos para explicar a situação. Há necessidade de dinheiro, mas há necessidade de vida também." No momento, a Aprosmig está pedindo a doação de insumos para ajudar na prevenção.

diretora-geral da Aprosmig ... - Veja mais em https://blogdoperrone.blogosfera.uol.com.br/2020/03/covid-19-prostitutas-de-mg-querem-ser-incluidas-em-plano-do-governo/?cmpid=copiaecola
diretora-geral da Aprosmig (Associação das Prostitutas de Minas Gerais)... - Veja mais em https://blogdoperrone.blogosfera.uol.com.br/2020/03/covid-19-prostitutas-de-mg-querem-ser-incluidas-em-plano-do-governo/?cmpid=copiaecola
diretora-geral da Aprosmig ... - Veja mais em https://blogdoperrone.blogosfera.uol.com.br/2020/03/covid-19-prostitutas-de-mg-querem-ser-incluidas-em-plano-do-governo/?cmpid=copiaecola
Desde a negociação feita pela Aprosmig, três hoteis seguem abertos para acolher mulheres da área. Houve uma movimentação feita por Souza e o Coletivo Clã das Lobas, porém, segundo a trabalhadora sexual, muitas acabaram ficando por conta dos hoteis. Há ainda uma resistência de algumas mulheres em parar de trabalhar.
"Muitas trabalhadoras não estão acreditando muito nisso. Que amanhã vai dar pra voltar pra trabalhar, que vai ser rapidinho", explica Souza.

Eles também estão sem trabalho

As mulheres cisgêneras e transexuais representam uma grande fatia da demografia dos profissionais do sexo brasileiros, mas homens também têm reportado dificuldades para conseguir trabalhar.

O profissional do sexo Enzo Ferrari relatou na semana passada que não haviam mais clientes para atender em saunas gays de São Paulo. A solução foi anunciar nas redes sociais promoção de fotos, vídeos e outros serviços online.

"Afetou todo mundo, ninguém está querendo sair de casa", conta. "A gente tem que pegar metrô, ônibus e o risco é muito grande para a gente e para os trabalhadores em geral. Estou oferecendo videochamadas que é mais seguro, mas se não tiver como, a gente vai pra luta também".

Uma população invisível

Se a prostituição é a profissão mais antiga do mundo, é também a mais estigmatizada. No Brasil, ser profissional do sexo não é crime, mas a categoria sofre pela falta de regulamentação e pela escassez de políticas públicas voltadas para o bem-estar de quem trabalha com a prostituição. Grande parte dos projetos voltados à demografia só falam de prevenção contra HIV e outras ISTs e não consideram outras questões que permeiam a categoria, como a falta de regulamentação dos bordeis. "Ainda mais hoje em dia, já que vivemos sob a égide do conservadorismo hipócrita, em que muitos representantes desse conservadorismo são os usuários desses mesmos serviços sexuais — mas na hora de fazer políticas públicas, fingem que essas pessoas não existem", critica Pedro Tourinho, médico sanitarista e vereador eleito em Campinas pelo PT (Partido dos Trabalhadores).

"Mesmo sendo [uma profissão] legalizada e constando no índice de profissões existentes no Brasil, se autodeclarar profissional do sexo implica em tantos constrangimentos que poucos têm coragem de assumir o estigma", explica a antropóloga Maria Isabel Zanzotti de Oliveira. "Porém, a informalidade de todo modo é o que existe. Isso implica em ausência de direitos e seguridade, inclusive na aposentadoria de quem passou parte da vida na profissão. Então, pode ser um quadro semelhante aos de muitos trabalhadores informais de vários setores no Brasil."

Em 2002, o Ministério do Trabalho reconheceu a prostituição como profissão e adicionou o termo na Classificação Brasileira de Ocupações. Ter a categoria reconhecida oficialmente como profissão não é mera formalidade, mas uma chance de pessoas poderem se cadastrar no INSS e contribuir mensalmente para poderem se aposentar. No entanto, o estigma da sociedade impede que muitas formalizem o trabalho. "Nos últimos dois anos, conseguimos que pelo menos 30% das trabalhadoras de Sergipe se cadastrassem", conta Irene Santos. "Algumas pagam aposentadoria por conta própria, mas várias que tentaram oficializar a profissão ouviram do próprio órgão público que o melhor seria se registrar com outra profissão ".

A situação das profissionais do sexo, como dizem as lideranças brasileiras, não difere da situação de milhões de trabalhadores autônomos e informais que exercem um trabalho precarizado e sem direitos básicos assegurados. "Não existe uma politica de proteção para elas e nem para outros trabalhadores autônomos que dependem da renda diária", alerta Tourinho.

Até o momento, as associações de profissionais do sexo esperam o anúncio de medidas mais efetivas do Governo Federal para que possam parar de trabalhar. Muitas ainda estão nas ruas, desertas, dependendo de uma clientela que está trancada em casa para se proteger da pandemia.

"Nós somos invisíveis, mas existimos", diz Lourdes Barreto.