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"Pandemias dizem mais sobre nós mesmos do que a doença em si"

Coronavírus: mulher usando mascara e luva no metrô de São Paulo - Roberto Casimiro/Fotoarena/Estadão Conteúdo
Coronavírus: mulher usando mascara e luva no metrô de São Paulo Imagem: Roberto Casimiro/Fotoarena/Estadão Conteúdo

Marie Declercq

Do TAB

22/03/2020 04h00

Doenças, guerras e catástrofes naturais costumam ser vistas como um mal coletivo, em que todos sofrem da mesma forma, independentemente de classe social. Quando surgiu no Brasil, o novo coronavírus foi relacionado a pessoas com condições de viajar para o exterior, mas as primeiras mortes confirmadas mostraram o país como ele é.

As primeiras vítimas fatais foram trabalhadores de classe média-baixa — um porteiro aposentado e uma trabalhadora doméstica, exposta ao SARS-CoV-2 enquanto cuidava da patroa infectada. Para Denise Pimenta, doutora em Antropologia pela FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas) da USP, uma pandemia como essa oferece a oportunidade de escancarar e aprofundar ainda mais questões de classe e gênero no Brasil e no mundo.

Em sua tese de doutorado, Pimenta viajou até Serra Leoa para entender por que a doença do vírus ebola afetou muito mais mulheres do que homens. De 2013 a 2017, quando foi erradicado, o surto da doença na África Ocidental afetou 28.637 pessoas e fez 11.315 vítimas fatais, de acordo com dados da OMS. O motivo, segundo Pimenta, era o "amor-fardo". Essas mulheres — que ainda lidavam com os fantasmas recentes de uma guerra civil que durou de 1991 a 2002 — enfrentavam uma carga dupla por causa da epidemia. Além de adoecerem, também tinham de tratar de suas famílias. "O ebola é a doença do cuidado", conta.

O machismo será outro dos problemas sociais do Brasil escancarados pelo novo coronavírus: a cada quatro minutos, um caso de violência doméstica é registrado no país. A ONU Mulheres já alertou para um aumento de casos de violência doméstica devido da isolamento social. Em Serra Leoa, com o fechamento de escolas e a maior permanência de meninas e adolescentes nos lares, os índices de gravidez nesse grupo aumentaram.

Em outras epidemias no Brasil, mulheres mais pobres foram severamente afetadas. Na epidemia de zika, 132.524 (67,3%) dos casos foram notificados em mulheres. Dessas, mais de 16 mil estavam grávidas. Visto que a infecção pelo vírus durante a gestação pode gerar diversos problemas na criança, como microcefalia e alterações neurológicas, muitas dessas mulheres foram abandonadas por maridos e famílias após gerarem os filhos. A antropóloga prevê que o impacto do novo coronavírus no país será parecido. Apesar da baixa letalidade fora dos grupos de risco, é um vírus que exige cuidados redobrados com idosos e crianças, o que aumenta o fardo das mulheres mais pobres.

"Momentos como esse são muito críticos para as mulheres. Muitas podem não fazer parte dos grupos de risco, mas sempre serão parte do grupo de cuidados", diz Pimenta.

TAB: O que uma situação como a que estamos vivendo agora evidencia a dinâmica social?

Denise Pimenta: Tenho lido muito sobre o novo coronavírus na academia e vejo muitas progressões e estatísticas — umas um tanto apocalípticas demais ou outras demasiadamente otimistas. Análises matemáticas são muito importantes, claro, mas não explicam muito. Endemias, epidemias e pandemias dizem mais sobre nós mesmos do que a doença em si. Partindo da minha pesquisa e comparando com o que está acontecendo agora no mundo e chegando ao Brasil, uma pandemia como essa revela a nossa estrutura social e as desigualdades dela. É como se abrisse uma cortina e a gente começasse a ver mais claramente as desigualdades, como elas prejudicam as pessoas e como elas também foram formadas.

Vejo uma relação muito parecida nessas endemias, epidemias e pandemias, porque as pessoas mais afetadas nessas estruturas são parte do proletariado. Quem mais vai se prejudicar na retirada dessa liberdade por conta do isolamento vai ser a mulher. Ficar dentro de casa também aumenta o alerta para outra coisa: o Brasil tem índices altíssimos de violência contra a mulher, física e psicológica. Na Serra Leoa, aconteceu um aumento de gravidez enorme entre as garotas, porque elas saíram da escola para ficar em casa. Em lugares com altos índices de violência contra a criança, a escola é muito mais um espaço para assegurar a liberdade do que um lugar para se aprender. Momentos como esse são especialmente críticos para mulheres. Muitas podem não fazer parte do grupo de risco, mas sempre serão parte do grupo de cuidados. É a pergunta: quem cuida de quem cuida? Essa carga social, na minha opinião, é muito romantizada.

A antropóloga Denise Pimenta - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

Qual foi o maior impacto da epidemia de ebola em Serra Leoa?

DP: Viajei para a Serra Leoa para tentar entender o motivo pelo qual a doença matou muito mais mulheres do que os homens no país. Muitos estudiosos, principalmente homens, me disseram que a resposta para essa pergunta é simples: existem mais mulheres do que homens por lá — mas mesmo que houvesse mais homens, morreriam mais mulheres por um simples fator: o ebola é a doença do cuidado. A pessoa se torna o vetor de transmissão porque está numa rede de cuidados. É a mulher que precisa cuidar do seu marido, do filhos, dos anciãos, da comunidade, cuidar dos filhos da vizinha que muitas vezes são tratados como seus próprios. Existe uma carga pesada para cuidar imposta à mulher, e não há a opção de recusar esse cuidado que nem um homem teria. Muitas vezes, isso é chamado de amor. Concordo, é amor, mas é um amor-fardo. Elas sabem disso. Nenhuma mulher com quem conversei na Serra Leoa achava que aquilo ali era um trabalho tranquilo. É uma realidade dura, elas sabem que criar os filhos na pobreza é duro e sabem também que, em uma epidemia, serão responsabilizadas a cuidarem dos filhos, dos maridos e dos anciãos. A rede de cuidado é gerida por mulheres e é perigosa porque elas são as que mais se expõem. É um amor perigoso que vem de responsabilização cultural das mulheres. Isso não acontece só na África, mas em outros continentes e países também, especialmente na América Latina.

Cemitério construído para vítimas do ebola em Serra Leoa. Antropóloga documentou o impacto da epidemia nas mulheres do país - Denise Pimenta/Arquivo Pessoal - Denise Pimenta/Arquivo Pessoal
Imagem: Denise Pimenta/Arquivo Pessoal

A pandemia do novo coronavírus, então, também causará um estrago e fardo muito grande para determinados grupos de pessoas na sociedade?

DP: O impacto da epidemia tem gênero, classe e raça. No ebola foi assim, no coronavírus também. É comum a gente falar ou ouvir que todo mundo pode pegar uma doença, que uma epidemia vai devastar a todos nós. Um tipo de narrativa usada para descrever catástrofes naturais, como um tsunami. Porém sempre haverá um grupo mais atingido. No caso do ebola, foram as mulheres as mais atingidas — tanto no número de mortes quanto na sobrecarga física e emocional, por serem elas as cuidadoras. A questão de classe também é crucial. As pessoas da elite serra-leonense foram visitar suas famílias no Reino Unido, nos EUA, coisa que aconteceu durante a guerra civil também. Portanto, a epidemia atingiu as mulheres das comunidades rurais e também das favelas da capital. A favela da Serra Leoa é muito particular porque é bem espremida, as pessoas vivem muito próximas e é na região da baía. Portanto, ela não só carece de saneamento básico, como também tem que se virar quando a maré sobe e toma suas casas. Então, não era só enfrentar a doença como também enfrentar toda a precariedade do dia a dia. Se fala muito em lavar a mão com detergente, mas lavar a mão em Serra Leoa não é uma coisa simples. Não tem torneira disponível. Você precisa ir até um poço artesiano, buscar água, trazer para casa (e quem faz isso são as crianças e as mulheres) e detergente é uma coisa cara.

Havia um componente racial em como se deu a epidemia de ebola em Serra Leoa?

DP: A questão racial não pesou muito por lá, como foi destacado no novo coronavírus. A gente sabe que a doença começou a se alastrar na China e foi se aproximando da Europa para chegar na Américas. Isso gerou uma grande xenofobia, especialmente contra asiáticos. Em São Paulo, ouvi de vários prédios na [avenida Luís Carlos Berrini] segregando chineses em elevadores separados. A primeira coisa que a gente pode ver numa epidemia é a xenofobia. Não é a solidariedade, não é a preocupação com o próximo. É o medo do outro e achar que você é melhor do que quem é de fora. Por causa do ebola, essa lógica da doença ficou atrelada a pessoas negras que vinham de outros países para morar no Brasil. É uma situação muito parecida com a dos asiáticos e descendentes.

Os sintomas da covid-19 também remetem muito aos sintomas de gripe e atingem especialmente idosos. O papel de mulher cuidadora também se repetirá?

DP:Não só pelos papéis de gênero, mas também por motivos econômicos. Nós estamos vivendo um momento muito crucial de precarização do trabalho. É o que chamamos de uberização. Se em uma família tem um pai, mãe ou quem toma conta que está trabalhando, os filhos serão deixados com os avós. Porém, futuramente, se precisar que alguém saia do seu emprego para tomar conta das crianças, da casa, ou do idoso que estiver doente, vai ser quase sempre a mulher. Essa mulher — que muitas vezes tem trabalhos temporários, mal remunerados — é quem vai ficar dentro de casa. Ela estará confinada ao ambiente doméstico, às vezes em um ambiente de abuso. Há também as mulheres que simplesmente não poderão parar de trabalhar porque não há essa possibilidade. Então, é o fardo de cuidar das coisas em casa e ainda de precisar se deslocar do Jardim Ângela para os Jardins.

No surto de zika vírus que vivemos em 2018, também ficou bastante evidente que as mulheres foram as principais afetadas pela epidemia.

DP: Muito se fala da criança que nasceu com microcefalia em decorrência ao zika vírus, mas atualmente sei de ótimos trabalhos de pesquisa nos estados de Pernambuco e Paraíba que estão indo atrás dessas mulheres que tiveram filhos durante o surto da epidemia. A carga imposta pela mulher continua no zika. Ela precisa cuidar da criança com necessidades especiais, enfrentar uma escola que não está preparada e não quer receber uma criança com essas necessidades, além de ter um trabalho precarizado onde recebe mal, não tem carteira assinada e muito menos seguridade social garantida. As mulheres do zika não são nem mais consideradas mulheres, elas são mães de crianças com zika, apenas. Quando engravidaram, muitas foram repudiadas e culpabilizadas apenas por serem mães — como se a gravidez natural de forma sexual não precisasse de um esperma que vem de um homem. É retirada dessa mulher qualquer outra característica que não seja ser mãe de uma criança doente. Pouco se fala sobre isso, mas quase todos os maridos abandonaram as mulheres que tiveram filhos com microcefalia e elas continuaram cuidando da criança. Elas não vão abandonar seu filho, lógico. Comecei uma pesquisa sobre o zika vírus em Manaus (AM), onde vi que essas mulheres precisam sair da região interiorana, enfrentando horas e até dias de barco com uma criança, para morar em uma cidade onde o tratamento médico é melhor para o filho. No entanto, não existe um lugar adequado para receber essas crianças com microcefalia, nenhum sistema se preparou para elas. Quem ajuda, muitas vezes, é uma rede de mulheres, seja a mãe, a tia e até mesmo outras mulheres que são mães de zika.