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Coronavírus: Isolamento pode mudar relações humanas, dizem especialistas

Do UOL, em São Paulo

17/04/2020 13h54

A pandemia do novo coronavírus levou muita gente a se isolar, mas o isolamento pode nos levar a uma mudança no relacionamento com outras pessoas. É o que afirma Amyr Klink, navegador e escritor, com longa experiência de períodos isolados em alto-mar.

A questão foi discutida hoje no UOL Debate. Além de Amyr, o programa reuniu Juliana Wallauer, publicitária e apresentadora do podcast Mamilos; Henrique Vieira, pastor evangélico, teólogo, ator e ativista negro; e Maria Homem, psicanalista e autora de livros, reflete sobre a solidão contemporânea.

Para Amyr, a quarentena pode apresentar aos povos latinos uma experiência mais próxima das vividas em outras regiões. O momento, segundo ele, tem a capacidade de nos levar a mudar olhares e rever valores.

"Nós, latinos, temos uma dificuldade muito grande de aceitar essa situação de isolamento físico. A gente gosta de aglomeração, da família fazendo barulho. Curiosamente, acho que é entre as pessoas que praticam aglomeração que sente solidão. É nas situações críticas que a gente começa a mudar o olhar", disse.

"Vivi muitos anos no barco e descobri uma coisa que me dá prazer: o barco afunda. Quando a gente tem noção da finitude, que nada é eterno, que pode acabar em três minutos o que levou uma vida para fazer, a gente revê valores", acrescentou.

De acordo com o navegador, os períodos no mar deram a ele novas percepções — entre elas, de que nem tudo está sob o nosso controle.

"A cada minuto, cada metro, tive que comandar o barco. A gente começa a enxergar o outro nesse isolamento geográfico. Todas as experiências que eu tive, várias, de meses, semanas e anos, foram maravilhosas. Agora, ficar sozinho em casa com mulheres é duro pra caramba, complicado", diz Amyr, que é casado e tem três filhas.

"Graças a Deus, a gente é uma família divertida, mas vou falar a verdade: não tenho medo de morrer, mas de causar mal para os outros. Medo do que pode acontecer depois, das pessoas que vão sofrer. Não tenho como intervir sobre isso. Vamos aprender bastante. Teremos que transformar nossa atitude. Espero que seja proveitoso refletir sobre isso."

Mas o cenário não é único. Para a psicanalista Maria Homem, o período em casa pode ajudar cada um a se redescobrir também.

"Ficar em casa é outro tipo de exploração, talvez igualmente perigosa. Você vai para uma exploração de traços profundos de uma subjetividade que se revela em um confinamento, que no dia a dia passa batido", analisou.