PUBLICIDADE

Topo

Ser adulto não é só pagar boleto, e já tem até curso para encarar essa fase

Dillon Shook / Unsplash
Imagem: Dillon Shook / Unsplash

Luiza Pollo

Da agência Eder Content, colaboração para o TAB

28/04/2020 04h00

Se a resistência do chuveiro da sua casa queimar, você sabe trocá-la? Costurar um botão na camisa é algo que você aprendeu a fazer? E declarar o imposto de renda?

Enquanto a ciência define diferentes estágios de maturidade e evolução do cérebro aos dez, 20 e 30 anos de idade, as marcas sociais da vida adulta são muitas, e realizar algumas tarefas como essas descritas acima — além de pagar boleto, como bem nos lembram inúmeros memes —, são bons indicativos de independência.

Mas, em que momento a gente aprende a fazer tudo isso? Na escola, temas como esses passam longe das apostilas. Em casa, não há mais grandes rituais de transição em que os pais ensinam os filhos a navegar pela vida adulta. Os millennials estão chegando aos 20 e poucos em fases bem diferentes da vida: enquanto uns conquistam independência financeira e social cedo, outros enfrentam mais dificuldade para se virar sozinhos.

"É a primeira geração que não foi preparada para ser adulta. Isso se deve à educação dada a eles pelos pais baby boomers (os nascidos entre 1946 e 1964), mas também porque eles são reflexo de um mundo em que se esfacelou por completo a ideia de curso de vida", reflete o sociólogo e colunista do TAB Michel Alcoforado.

Como solução, começam a surgir cursos especializados em ensinar a encarar o mundo real de forma autônoma. A Universidade da Califórnia em Berkeley (UC Berkeley) é uma das instituições que oferecem, nos Estados Unidos, um curso de adulting. Há também a Adulting School of Portland, além de diversos cursos livres e mais específicos sobre temas da vida adulta, como contabilidade básica, marcenaria e culinária básica.

Apesar de o nome ser novo, não é difícil ouvir alguém se perguntando por que é que não aprendemos tudo isso na escola. "Há vários sinais de que essa limitação das práticas escolares faz com que elas não respondam a muitas necessidades e aspirações das pessoas", avalia Elie Ghanem, professor de sociologia da educação na Faculdade de Educação da USP e coordenador do Centro Universitário de Investigação em Inovação, Reforma e Mudança Educacional (Ceunir). "A vida cotidiana requer saberes ligados a relacionamentos interpessoais, ao conhecimento de si, à organização da rotina doméstica, ao planejamento e à realização de projetos de vida."

Enquanto na educação infantil há espaço para desenvolver habilidades pessoais, brincar e crescer como ser humano, o ensino fundamental representa uma mudança de foco na vida escolar. "A nomenclatura já muda. Não se fala mais em educação, mas em ensino", observa Ghanem, defensor de um currículo que extrapole a preparação para o mercado de trabalho.

Para Alcoforado, até faz sentido que as atribuições da vida real sejam ensinadas na escola, mas ele percebe que os millennials são o público que mais precisa dessas lições. A geração que nasceu entre meados das décadas de 1980 e 1990 em países como os Estados Unidos ou o Brasil, de costumes ocidentais, foi a primeira a crescer em um mundo sem uma ideia definida de fases da vida. Ou seja, sem a marcação obrigatória de rituais de passagem: emprego formal, independência financeira, casamento aos 20 e poucos anos, compra do primeiro apartamento, filhos. Como consequência, perde-se o momento de aprender a se virar em cada uma dessas situações.

Segundo o IBGE, em 1970 a idade média dos homens ao casar era de 27 anos, e das mulheres, 23. Quase 50 anos depois, em 2018, passou a ser de 30 e 28 anos para homens e mulheres, respectivamente.

Além de terem nascido em uma época com rituais de passagem esfacelados, "os millennials foram criados num modelo de que tinham que fazer um curso primeiro, para tudo. Se tem um celular na mesa, o millennial vai dizer: eu encontrei um MBA que me ajuda a usar melhor esse aparelho", brinca Alcoforado. "A geração Z, que nasceu com o celular no bolso, acredita que ninguém sabe mais do que o Google ou um youtuber."

Mimados ou despreparados?

De acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente, a vida adulta começa aos 18 anos no Brasil, idade que marca o fim da adolescência. Boa parte do Ocidente vai na mesma linha, com essa transição marcada legalmente entre os 18 e 21. Mas, na percepção de especialistas, isso vem mudando do ponto de vista comportamental. Um estudo publicado na revista científica Lancet Child & Adolescent Health em 2018 conclui que a adolescência espichou, e atualmente vai dos 10 aos 24 anos.

"O período de transição da infância para a idade adulta ocupa, mais do que nunca, uma porção maior da vida, em uma época na qual forças sociais sem precedentes, incluindo o marketing e as mídias digitais, estão afetando a saúde e o bem-estar nessa idade", escrevem os pesquisadores, que citam também os rituais de passagem cada vez mais raros.

"Essa é uma geração que não está preparada para decidir", afirma Alcoforado. "Com toda essa independência e autonomia, os adultos estão perdidos numa série de documentos que não sabem ler, contratos que não sabem assinar e em burocracias. Isso traz um peso psíquico muito grande."

Para ajudar a navegar essa época de ansiedades, Alcoforado e Ghanem se posicionam a favor dos cursos de adulting. Para o professor da USP, é preciso que esses temas sejam incorporados à educação durante toda a vida na escola, para que aquilo que hoje se chama de ensino tenha uma conotação mais ampla e seja entendido como educação. "Aspectos da criatividade artística, práticas corporais, relacionamentos interpessoais, sexualidade, vida econômica, relacionamentos intrafamiliares precisam ser contemplados na experiência escolar. Particularmente, acho que isso seja uma necessidade urgente."