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Artista mexicano Nahum Mantra usa hipnose para repensar a vida na Terra

O artista mexicano Nahum Mantra, diretor do Instituto Kosmica - Acervo Pessoal
O artista mexicano Nahum Mantra, diretor do Instituto Kosmica Imagem: Acervo Pessoal

Ana Paula Grabois

Da agência Eder Content, colaboração para o TAB

15/05/2020 04h00

À primeira vista parece não fazer sentido: o que um artista, hipnose, viagens ao espaço, imigrantes e cultura fazem na mesma frase? Performer, músico e desenhista, o artista mexicano Nahum Mantra, que esteve no Brasil em 2019, conta que a ideia de viajar para o espaço pode nos fazer refletir sobre a vida na Terra. "Isso tem a ver com imaginar um futuro", explica Mantra, que vive em Berlim e trabalha diretamente com as questões culturais que envolvem as viagens espaciais.

Diretor do Instituto Kosmica, o mexicano tem projetos tão diversificados quanto levar migrantes e refugiados de guerra ao espaço para dar-lhes a ideia de estarem em casa no planeta -- e promover viagens espaciais de mulheres à Lua ou Marte, para estimular a igualdade de gênero. Não são viagens reais: elas são realizadas a partir da hipnose, em sessões coletivas feitas por Mantra.

Kosmica Berlim 2017 - Instituto Kosmica - Instituto Kosmica
Kosmica Berlim 2017
Imagem: Instituto Kosmica

Segundo o artista, a desigualdade de gênero na área é tão grande que somente em outubro de 2019 foi realizada uma missão espacial da Nasa formada apenas por mulheres. "É o que inventamos de fazer, é uma maneira simbólica de dar uma mão e dizer 'você é bem-vindo aqui e em qualquer lugar que queira'", diz o artista, que prepara um livro sobre feminismo espacial e outro sobre colonização do espaço.

Em passagem pelo Rio de Janeiro para participar do Festival Futuros Possíveis, na Casa Firjan, Mantra conversou com o TAB sobre seu trabalho, a busca para conectar pessoas com a Terra, a questão ambiental e, ainda, o esforço para aproximar ciência, cultura e humanidades.

TAB: Você afirma que pensamos que estamos na Terra e que existe o que é fora da Terra, mas que devemos pensar que somos seres do universo. É uma forma de relativizar a ideia das fronteiras entre os países?

Nahum Mantra: O humano gosta de inventar fronteiras, limites e divisões. É o momento de deixar de pensar nessas divisões entre países, poderes, entre as pessoas. E no lugar, pensar na Terra, no universo. Sempre busco, em meu trabalho, fazer experiências que possam nos conectar com a Terra, com o universo e com os outros. Somos parte do universo, agora estamos no espaço. Gostamos de pensar o espaço como um espaço exterior. Para mim, é outra divisão que temos na nossa mente.

TAB: A questão migratória te move?

NM: Sou mexicano, venho de várias culturas, de um país colonizado, que maltratou os indígenas. Tenho um passaporte que não me deixa ser livre em meu planeta. Constantemente, há vistos e controles, mas eu sou daqui. Em meus genes, há informações de africanos, judeus, europeus, indígenas, todos estamos muito conectados — e creio que é importante sermos críticos, questionar. Temos que questionar tudo, o capitalismo, os países, os sistemas que vão levar a uma crise planetária, que ocasionaram pobreza, desigualdade. Isso é inacreditável. Gosto de buscar as formas de entender a existência, mas sempre sendo crítico.

TAB: Você desconstrói a ideia de fronteiras. Quais são os projetos e que tipo de discussão você traz?

NM: Fazemos Kosmica Journeys, que são viagens por meio de hipnose para os que sofrem com estas fronteiras, que são os migrantes e os refugiados. O problema que eles têm é qual é o lugar deles. Eles deixaram um lugar e vão a países onde é muito complicado o visto, os papéis, o trabalho. Vamos aos campos onde estão detidos em um limbo e dizemos o seguinte: 'olha, vamos fazer uma viagem espacial, vamos ao espaço, damos uma volta e voltamos à Terra'. A Terra é o nosso lugar, de todos. A mensagem é: não importa onde está, você está em casa e estamos juntos nesta luta. A casa é a Terra. Eles têm o direito de estar em qualquer parte de sua casa. É o que inventamos de fazer, é uma maneira simbólica de dar uma mão e dizer "você é bem-vindo aqui e em qualquer lugar que queira".

TAB: Onde vocês fizeram esse projeto?

NM: No México, na fronteira, há centros de detenção com pessoas da América Central que querem cruzar para os Estados Unidos — e que ficam sem dinheiro, sem transporte, em situações muito complicadas. Na Europa, em Berlim, estivemos em Tempelhofer, um aeroporto velho no centro da cidade. Ali, viviam os imigrantes, refugiados da Síria, do Afeganistão, do Iraque, da África. Milhares de famílias dentro do aeroporto, era uma loucura. Alguns foram deportados pela Alemanha. Outros voltaram. Trabalhamos especialmente com as crianças e os jovens. Era muito duro ver o olhar perdido dos pais. Eles têm uma família e não têm um lugar, não sabem qual é o seu futuro. Se voltam, regressam ao nada, depois da guerra, porque toda a sua cidade foi destruída. Utilizando a viagem espacial, podemos distanciar isso e pensar de outra forma.

TAB: Vocês também fizeram uma experiência em um avião em alta altitude sem a gravidade?

NM: É um avião especial, de treinamento de astronautas, e que voa numa altitude em que se perde a gravidade. Foi uma missão em que convidei vários artistas mexicanos, fizemos várias experiências e um vídeo. A peça se chama "Segurando ar".

TAB: O que é o Instituto Kosmica? Vocês trabalham com os profissionais do espaço?

NM: O Instituto Kosmica está focado nos aspectos culturais, artísticos e críticos sobre a nossa relação com o espaço, as atividades espaciais e como as atividades que fazemos no universo têm um impacto na Terra. Com o Kosmica, cruzamos as Humanidades com o setor espacial e a sociedade. Trabalhamos com astronautas, cientistas e artistas para gerar conversas com a sociedade. Na Kosmica, trabalhamos com mais de cem especialistas de todo o mundo, da antropologia, biologia, em foguetes. Fazemos programas, discussões. A Kosmica trabalha com a cultura.

TAB: Qual é a relação da ciência e da tecnologia com a cultura?

NM: Com a tecnologia fazemos coisas novas, mas a cultura é a mesma. Há que se buscar novas fórmulas culturais, também junto com a ciência, para que um dia ciência e cultura possam ajudar muito a Terra. Por exemplo, quando vemos as estrelas, vemos com um só olhar. Vemos as constelações e dizemos: "é Órion, é a Ursa Maior." Isso é um olhar. Cada cultura indígena, aborígene, tem sua própria maneira de olhar — mas estas vozes são silenciadas. Há uma dominância do ocidente de impor nosso entendimento do universo. É importante escutar outras formas de entendermos as estrelas, a natureza. Só teremos 30 anos de planeta se nada mudar. Estamos no Brasil e há índios que vivem relativamente em harmonia com seu entorno. Ao mesmo tempo, estamos vivendo uma crise ambiental.

A Amazônia está incendiando. Isso não é um problema do Brasil, é um problema do planeta. E a democracia que temos não funciona, porque esse é o oxigênio do meu planeta — e quem controla é um grupo político que o planeta não elegeu. Mas isso é uma outra conversa.

TAB: Há também uma reprodução de estruturas de poder dentro da ciência, seja a espacial ou outra?

NM: Sim, há um mecanismo de reprodução, de dominância e de controle de instituições. Atualmente, desenvolvemos o programa de Humanidades com a Universidade Internacional Espacial, onde estudam os líderes do espaço. São as Humanidades que um líder espacial tem que saber. São temas como diversidade, povos indígenas, a Terra. E muita fantasia, criatividade, imaginação, coisas que todos necessitamos.

TAB: E por que a hipnose?

NM: Acredito que a mente é a melhor realidade virtual que pode existir. Às vezes, precisamos de menos tecnologia para produzir resultados muito fortes. Vejo a hipnose como um teatro da mente. É uma história que só acontece na mente e é pessoal, íntima. Faço também como uma crítica ao fato de que só 12 homens brancos caminharam na Lua. E nenhuma mulher. No início, só fazíamos a hipnose da viagem à Lua com mulheres. Agora, para o festival, me pediram para fazer sobre Marte.