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Futurista profissional, Roger Spitz propõe um amanhã mais pragmático

O futurista Roger Spitz - Divulgação
O futurista Roger Spitz Imagem: Divulgação

Lidia Zuin

Colaboração para o TAB

09/05/2020 04h00

Roger Spitz passou 20 anos cuidando de aquisições e fusões em grandes bancos de investimento, trabalho que o levava a viajar o mundo. Não chega a surpreender, portanto, que o sul-africano já tivesse um olho no peixe e outro no gato -- seu jeito de pensar buscava antever o futuro e as próximas tendências, o que o levou para o campo do futurismo.

Hoje morando em São Francisco, na Califórnia, Spitz comanda a empresa Techistential -- uma fusão de seus dois focos, tecnologia e existencialismo. Depois de frequentar aulas de futurismo como a Singularity University e o Institute for the Future, de Palo Alto, ele usa hoje a ficção científica como ferramenta para pensar o futuro em um contexto cada vez mais definido pelo acrônimo "vuca": sigla para volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade, em português.

Em entrevista ao TAB, Spitz fala de suas visões sobre o futuro pós-pandemia, inclusive com um olhar específico para o Brasil -- país com o qual mantém relações próximas, tanto profissional quanto pessoalmente.

TAB: Você está escrevendo um livro de futurismo, porém mais propositivo e estratégico. Pode explicar o que pretende abordar?

Roger Spitz: Antes mesmo da crise pandêmica atual, já andava pensando, preocupado, se as pessoas entendiam o impacto da velocidade com que a disrupção que está acontecendo. O que acontece quando as tecnologias exponenciais convergem, transformando cada um dos setores da economia? Qual deve ser a minha formação para quando indústrias e profissões estabelecidas desaparecerem? Como criar nossos filhos e quais alternativas surgem a partir do atual sistema de educação baseado em conhecimento, em que ainda se insiste? Quais as consequências de uma vida prolongada, quando o paradigma 'escola-trabalho-aposentadoria' se desintegram, agora que alcançar os 100 anos é normal? Quais são as questões existenciais que surgem e como achar propósito nesse mundo VUCA? Meu foco é entender como essas disrupções criam novas oportunidades para uma mentalidade preparada e focada no crescimento. Quero oferecer um guia em como viver no "modo beta", como se fosse numa start-up, e assim conquistarmos e mantermos relevância. Meu objetivo, portanto, é proporcionar um kit de ferramentas prático para navegar e se preparar para esse mundo.

TAB: Uma das coisas que as empresas brasileiras têm enfrentado é a impossibilidade de lidar com essas duas forças aparentemente opostas: nem sempre há tempo e recursos para planejar a longo prazo enquanto se lida com as instabilidades imediatas. Como você enxerga isso?

RS: Trabalho com parceiros em todo o mundo e posso afirmar que esse é um desafio global. Porém, tomadas de decisão de longo e curto prazo precisam acontecer hoje, porque disrupções e oportunidades fazem parte desse presente VUCA. Para tal, criei um modelo que chamei de "AAA", que diz respeito à Antifragilidade, ser Antecipatório e ter Agilidade Adaptável. Ao criar uma perspectiva de Antifragilidade, as empresas podem tirar proveito da desordem, criar oportunidades através de inovação, abraçar a aventura e o risco, desenvolver ecossistemas que são fluidos e evoluem descentralizados enquanto cometem erros pequenos e frequentes, porém capazes de gerar aprendizado. É o oposto do que ocorre em empresas mais rígidas e centralizadas, que quebram diante de choques. No caso de ser Antecipatório, é preciso um modelo para ser visionário, para aprender como decodificar os sinais constantes e visualizar direções a serem exploradas no longo prazo. Por fim, a Agilidade Adaptável entende que a mágica está na perseverança de se imaginar futuros impossíveis com audácia, e agilidade de realizá-los a longo prazo, ao mesmo tempo em que se lida com as questões do dia a dia. A mentalidade de curto prazo é um dos maiores perigos da civilização, por isso precisamos rever nossa relação com o fracasso e a experimentação.

TAB: Você acha importante que pequenos negócios, mesmo durante momento de crise, invistam em inovação?

RS: Sim, e há pelo menos dois motivos para isso. Primeiro, mesmo se não estivéssemos vivendo uma grande crise como a atual, a velocidade das mudanças transforma a indústria e as dinâmicas de competição. Então, a disrupção pode parecer lenta, mas é um engano. Não importa se sua empresa é grande ou pequena, você precisa inovar continuamente, ao mesmo tempo em que decodifica os sinais que começam a moldar o futuro. Não é porque você é pequeno que você é menos vulnerável. Em segundo lugar, e talvez isso seja o mais importante, estão as potenciais oportunidades perdidas. Muitas empresas começaram muito pequenas e em tempos de crise: WhatsApp, Uber, Slack e Venmo, em 2009, Instagram em 2010. Mesmo se seu negócio for pequeno, existe a chance de identificar esses "buracos".

TAB: Você propõe que a ficção científica seja usada como uma ferramenta de negócios. Como?

RS: Até certo ponto, foi a ficção científica que inspirou pessoas como Elon Musk (Tesla, SpaceX), Jeff Bezos (Blue Origin) e outros para além do Vale do Silício ou dos Estados Unidos, como é o caso da China. É muito impressionante ver o quanto a ficção científica pode inspirar tecnologias reais, mudando o eixo de "ficção" científica para "fato" científico. Há muitos exemplos disso. "Minority Report" (2002) teve Alex McDowell como designer. Mais de cem patentes foram registradas a partir de ideias demonstradas no filme, como é o caso dos carros autônomos, tecnologias vestíveis, vídeos 3D, realidade virtual e biométrica. De qualquer modo, a ficção científica não deveria ser usada para "previsões" em si. Na verdade, como futuristas, nós não lidamos como previsões -- como já disse Alvin Toffler, nenhum futurista sério usa ferramentas de previsão. Então, por que as empresas usam ficção científica? Porque a imaginação é uma ferramenta essencial que pode superar a análise, assim como a ideação proporciona um ponto de vista diferente e que ajuda a inventar novas possibilidades e produtos.

TAB: Além de ser casado com uma brasileira, você também reconhece o país como um dos principais públicos interessados em futurismo. Como você vê nossas perspectivas de futuro?

RS: Sim, tenho conexões pessoais muito fortes com o Brasil, é um país que adoro. Nos últimos vinte anos, devo ter ido ao Brasil mais de 25 vezes, o que me possibilita tirar algumas conclusões e inspirações para o país, nesse momento obscuro que atravessamos. Levando em conta que o Brasil tem mais de 200 milhões de habitantes, é uma nação com escala para alcançar os próximos estágios de liderança mundial, inclusive nas áreas de inovação e tecnologia (aproveitando que a inteligência artificial requer escala e dados para se desenvolver). Gosto também de estabelecer um paralelo com Israel no que diz respeito ao termo "Balagan", que significa um estado efetivo de caos, mas que ainda assim carrega oportunidades. Atualmente, Israel usa esse termo para definir uma mentalidade para crianças, empresários e inovadores, de modo a serem capazes de reinventar a si mesmos em um modelo no qual o "impossível" pode provocar disrupção. É esse tipo de mentalidade que eu gostaria de ver os brasileiros adotando mais, em especial na área da educação. Agora, quando levamos em conta um momento de extrema instabilidade social, política e econômica, exacerbada também pela pandemia, essa mesma fase caótica pode fazer com que líderes inovem, uma vez que o status quo é impossível, então vejo que haverá grandes mudanças daqui para frente. E isso é um chamamento para que o Brasil junte força e inspiração para começar um movimento de renovação, somando forças e inovando nas áreas em que vocês já são potência.

TAB: Como você acredita que a pandemia pode surtir efeito no ecossistema empresarial brasileiro?

RS: A Covid-19 pode, de fato, servir como um acelerador de algumas dessas iniciativas, mas na área da saúde e educação, o futuro do Brasil está literalmente nas mãos do que vocês decidirem. Para se manter sempre no auge, é necessário um alinhamento holístico dos ecossistemas, então é preciso investimento de longo prazo com apoio certo vindo das instituições, da academia e do governo. O Brasil precisa de uma estratégia de alinhamento multifacetada para escalonar, em um sistema abrangente de inovação. Muitas agências públicas precisariam desenvolver seus próprios modelos para inovar com soluções de educação baseadas em tecnologia.