PUBLICIDADE

Topo

Para todos os corpos: com alfaiate digital, moda pode abolir o P-M-G

O designer Cairê Moreira (25) acredita no futuro da moda sem o padrão P-M-G - Foto: Ana Paula Grabois
O designer Cairê Moreira (25) acredita no futuro da moda sem o padrão P-M-G Imagem: Foto: Ana Paula Grabois

Ana Paula Grabois

Da agência Eder Content, colaboração para o TAB

17/03/2020 04h00

O futuro da moda, quem diria, poderá se assemelhar ao passado, com a volta dos alfaiates numa versão digital — subvertendo a lógica da serialização da produção de roupas e, principalmente, das tendências ditadas pelo mercado da moda que ganharam força com a modernidade e a industrialização.

Pense num processo digitalizado, em que as suas medidas e preferências irão guiar a produção de uma peça feita especialmente para você. O scanner corporal que permite essa revolução foi desenvolvido pelo paulistano Cairê Moreira (25), que é consultor em inovação de empresas de moda — e tornou-se rapidamente uma referência na indústria 4.0 do setor.

Com uma formação que mistura alguns anos no curso de Publicidade e Marketing, graduação em Animação em 3D e especialização em confecção 4.0, ele se considera um maker. "Juntei várias tecnologias e fiz funcionar o que eu queria", resume. "No futuro, ninguém vai se preocupar se está dentro ou não da moda. As pessoas vão consumir o que gostam e o que precisam", completa o criador da inovação.

Alfaiataria digital: como funciona?

Na prática, a partir das imagens escaneadas do corpo do cliente, a modelagem e o corte de cada peça de roupa são elaborados por computador. Feito isso, o molde é enviado para um costureiro no processo tradicional de confecção. Nesse processo quase todo digitalizado, o fornecedor tem a flexibilidade de enviar um ou dois metros do tecido desejado ao costureiro via Correios. Ou seja: a produção é individualizada de ponta a ponta, sem desperdício de material.

A ideia de usar um scanner para fazer peças personalizadas surgiu há cinco anos, a partir de um programa de games que escaneava roupas para os personagens de animação em 3D. Quando trabalhava com marketing digital e tinha uma cartela de clientes para e-commerce de moda, Moreira identificou duas necessidades muito fortes. "A primeira seria adequar a roupa ao corpo da pessoa; a segunda seria permitir a customização no processo de produção. Tentei vender a ideia para os meus clientes e eles recusaram, dizendo que era impossível", relata. O consultor seguiu por outro caminho: buscou informações para entender melhor o mercado de confecção e moda e cursou modelagem e costura no Senac para entender o processo de produção.

Será o fim do P-M-G?

Atualmente, Moreira trabalha em um projeto de customização de roupas para acabar com os tamanhos universais. O designer diz que quer criar a "roupa perfeita". "Nossa proposta é dar o fim ao P-M-G usando a tecnologia. Eu trabalho para pessoas e 51% da população do Brasil é obesa", observa. Segundo o designer, existe um nicho gigantesco não atendido — e é natural que os consumidores que sentem essas necessidades criem suas próprias empresas. "A inovação sempre surge de uma necessidade", resume.

Para saber como criar um padrão de modelagem menos rígido do que o atual, Moreira se apoia em dados obtidos pela Associação Brasil Plus Size com o scanner. "Ninguém parou para pensar. Como a maioria das marcar não cria para o público plus size, quase ninguém sabe como fazer roupa para esse corpo. Trocamos muito esse conhecimento do que funciona e do que não fica legal."

Moreira acredita que a construção desse futuro livre do padrão P-M-G será feita por muitos pequenos produtores — e só depois a concepção 4.0 será incorporada pelas grandes empresas do segmento. "A escala virá dos pequenos, milhares de pequenos criadores farão isso", aposta.

O designer também aponta que, em grandes indústrias, são milhões de reais investidos em máquinas. Para atualizar grandes fábricas de modo a tornar os produtos mais customizáveis, o custo seria altíssimo. "Fora isso, temos as pessoas que operam as máquinas, que precisariam receber treinamento especial, e elas nem sempre estão dispostas a mudar a forma de trabalhar. São milhares de problemas", diz Moreira. "Só que o segmento plus size tem um problema para resolver agora — e não quando a indústria conseguir se atualizar, daqui a 30 anos", conclui.