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Covid-19: como historiadores vão contar o que foi a pandemia

A forma de pesquisar e documentar fatos históricos muda, e muito, com a tecnologia - Roman Kraft/Unsplash
A forma de pesquisar e documentar fatos históricos muda, e muito, com a tecnologia Imagem: Roman Kraft/Unsplash

Por Juliana Sayuri

Colaboração para o TAB, de Toyohashi (Japão)

12/05/2020 04h00

"Este é um momento histórico, senhoras e senhores". É difícil não pensar nesta frase diante da pandemia de Covid-19. O acontecimento, afinal, parou o mundo e marcou a virada do século 20 para o 21, como propôs a historiadora Lilia Schwarcz, em recente entrevista ao UOL.

Entretanto, a impressão de estar vivenciando um fato importante, "que estará nos livros de história de amanhã", já instiga historiadores hoje.

Acadêmicos estão documentando o que está acontecendo mundo afora, da perspectiva mais objetiva (números de organizações e observatórios internacionais) à subjetiva (diários e memórias de quarentenas). Há diversos projetos em andamento na Europa: na Alemanha, o Coronarchiv; na Espanha, o Barcelona desde casa; na França, o Génération covid e Vivre au temps du confinement; em Luxemburgo, o CovidMemory.Lu. Nos Estados Unidos, a Aha (Associação Americana de Historiadores) e a Aphnys (associação nova-iorquina) publicaram manifestos convocando acadêmicos para documentar a crise "em tempo real".

A Stanton Foundation lançou concurso internacional de melhor iniciativa para responder ao novo coronavírus e o projeto americano Made by us e a IFPH (Federação Internacional de História Pública) passaram a mapear iniciativas. "A pandemia global, em um mundo mais interligado do que nunca, nos apresenta um momento histórico. É um momento ruim, certamente, mas ainda assim é 'nosso'. Nós sabemos que nossas experiências do dia a dia, artefatos e memórias se tornarão fontes primárias para futuras gerações entenderem o que foi esse momento", diz a nota.

No Brasil, o núcleo Reviravoltas do Simbólico, da Ufscar (Universidade Federal de São Carlos), está colhendo depoimentos no levantamento "Como vai sua quarentena?". O projeto "História em quarentena", de diversas universidades, vem realizando lives semanais sobre história e a atual pandemia.

Como era ontem

Por muito tempo, se imaginou o historiador como alguém que só vai analisar um acontecimento décadas depois, revirando arquivos empoeirados. Era a ideia de distanciamento temporal para poder analisar o que é um capítulo ou uma nota de rodapé da história.

"Muitos imaginam que a história está 'pronta' e que o papel do historiador é apenas 'contá-la', mas a história é uma construção", pondera a historiadora Caroline Silveira Bauer, professora da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e autora de "Como será o passado?" (Paco, 2017). Por construção, Bauer quer dizer que é uma análise de um passado — próximo ou distante — que depende de quem escreve, do contexto que escreve e das fontes consultadas. "Historiadores não são os únicos autores dessas narrativas: há políticas de negacionismo promovidas por governantes e produtos culturais, como filmes e livros, que contribuem na formação de uma memória social, para citar exemplos de espaços em que se operam essas escolhas do que se vai lembrar ou esquecer."

Por muito tempo, também, se buscou na história um tipo de "mestra da vida", que poderia ensinar sobre os erros do passado para não repeti-los no presente. Frequentemente consultados sobre o que foi a gripe espanhola, a epidemia do início do século 20, historiadores também podem contribuir para analisar o novo coronavírus, marco do século 21.

Para Fernando Nicolazzi, docente da UFRGS e integrante do Laboratório de Estudos sobre os Usos Políticos do Passado (Luppa), a história ajuda a encontrar sentido nisso tudo. "O conhecimento histórico pode mostrar não o que há de comum entre hoje e ontem, mas o que há de singular no hoje. No fundo, temos que buscar no agora as soluções, e não esperar que, no passado, encontremos as saídas para esta crise sem precedentes", diz. A busca de soluções ocorre, por exemplo, na realização desses levantamentos e documentações "no calor da hora".

Como é hoje

Jovens historiadores, dedicados a novas linhas teóricas, têm trabalhado ativamente para aproximar acadêmicos dessas discussões, valendo-se das ferramentas da internet. As áreas são denominadas história "do tempo presente", "pública", "oral" e "digital".

Tais áreas, diz o historiador Ricardo Santhiago, têm puxado intelectuais para tratar de questões urgentes. "Nas últimas duas décadas, historiadores têm participado da documentação e análise de tragédias ambientais e conflitos sociais, um engajamento que se acentua e chega a um grau inédito agora", diz o professor da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e co-organizador de "Que história pública queremos?" (Letra e Voz, 2018). Segundo ele, o boom de iniciativas é "fundamental para a compreensão contemporânea e futura da pandemia, não apenas como fato médico, com implicações econômicas, mas também como fato cultural".

Diante do arquivo imenso que está formando sobre a história da pandemia, a historiadora Viviane Borges, da Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina), diz que é preciso fazer "recortes". "Vários de nós já estamos pensando em perguntas mais direcionadas, filtrando e analisando materiais arquivados na nossa pasta pessoal 'Covid-19'. Mas penso que será necessário ampliar o debate sobre como armazenar e filtrar o que é importante em tempos de infodemia", diz.

Infodemia é o fenômeno de excesso de informação, a quantidade de informações (verdadeiras e falsas) circulando na internet desde o início da pandemia, conforme destacou a OMS no fim de abril. O filtro dos historiadores é a tradicional lente crítica para analisar a avalanche de fontes, diz Anita Lucchesi, do Centro de História Contemporânea e Digital da Universidade de Luxemburgo.

A quantidade de informações, atualmente, traz uma série de desafios. Por exemplo: distinguir o que é fake news, teoria conspiratórias e tuítes irrelevantes. Em outras palavras, o que vai para a "lata do lixo" da história e o que fica para futuras gerações. Para Lucchesi, historiadores vão precisar aprender novas técnicas, como textometria ou estatística e design para conseguir garimpar essa montanha de arquivos. "Escalar esse Evereste de dados implica combinar um trabalho mais 'artesanal' e, ao mesmo tempo, uma perspectiva de big data", diz.

Interdisciplinaridade é a tendência para os historiadores do futuro, incluindo desde as áreas da antropologia à ciência da informação, do design à engenharia de software. Aprender para entender o mínimo das 'caixas pretas da tecnologia' pode abrir portas para imaginar novas formas de investigação histórica.
Anita Lucchesi, historiadora

Como será amanhã

"Se hoje a lógica do 'quanto menor o dispositivo, maior o acervo' já nos assombra, o que acontecerá com todo o conteúdo gerado nas redes? Armazenada na nuvem, a quem pertence a narrativa de bilhões de pessoas e todo o volume de dados digitalizados? O trabalho do historiador que quiser fazer um balanço dos anos 2000 será tão ou mais complexo que o de um pesquisador que estuda a Idade Média, por exemplo?", questionou a jornalista Olívia Fraga, no UOL.

Se, em 2020, historiadores estão já reunindo milhares de materiais sobre a pandemia, como será que esta história será contada em 2040? Jovens historiadores, engajados nas áreas citadas, fazem suas apostas:

Ricardo Santhiago, Unifesp - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Ricardo Santhiago, Unifesp
Imagem: Arquivo pessoal

"Historiadores, arquivistas e documentalistas de hoje e de amanhã deverão driblar a desigualdade de acesso às tecnologias digitais, que se traduz em desigualdade de acesso à produção de registros sobre sua própria experiência — pobres, velhos e outros grupos marginalizados têm voz e não podem voltar a ser só 'estatística'. Ao mesmo tempo, historiadores do futuro terão muito a discutir sobre a importância da memória quando se depararem com o volume de registros que nós mesmos estamos nos engajando para produzir"

Caroline Silveira Bauer, UFRGS - Guilherme Santos/Sul21 - Guilherme Santos/Sul21
Caroline Silveira Bauer, UFRGS
Imagem: Guilherme Santos/Sul21

"Se eu fosse escrever a história da pandemia, levaria em consideração os problemas estruturais da sociedade, que violam uma série de direitos básicos, como o direito à alimentação, moradia digna e saúde; o descaso de setores políticos e da classe empresarial com certas vidas, que, para eles, não merecem ser vividas; e o ineditismo da situação que nos obriga a pensar em alternativas inéditas no pós-pandemia, em todas as esferas. Essa seria a narrativa que eu gostaria de ler"

Anita Lucchesi, Universidade de Luxemburgo - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Anita Lucchesi, Universidade de Luxemburgo
Imagem: Arquivo pessoal

"É mais fácil imaginar como essa história não poderá ser contada. O protagonismo das atividades online, hoje, torna difícil imaginar que uma história do Covid-19 possa ser narrada, exclusivamente, a partir dos arquivos analógicos. Compreender o cotidiano da pandemia vai exigir técnicas e ferramentas para investigar e apresentar dados digitais, para além das informações demográficas, de administrações oficiais, registros médicos, policiais e outras fontes"