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Com polarização, quadrinhos de direita se consolidam como nicho no Brasil

A HQ "O Doutrinador", criação de Luciano Cunha, foi adaptada para uma série de TV e para o cinema em 2018 - Divulgação
A HQ "O Doutrinador", criação de Luciano Cunha, foi adaptada para uma série de TV e para o cinema em 2018 Imagem: Divulgação

Marcos Fantini

Colaboração para o TAB

07/05/2020 04h00

Enquanto pesquisadores e gestores públicos se debruçam sobre medidas de contingenciamento da crise provocada pelo novo coronavírus, teorias da conspiração são difundidas pela sociedade civil e ecoam entre parlamentares, causando, inclusive, contendas diplomáticas. Em coro uníssono a este discurso, um "vigilante" promete revelar toda a verdade sobre a crise. O quadrinho "Vírus Vermelho" será a próxima aventura do personagem "O Doutrinador", criação de Luciano Cunha. Segundo o autor, a pandemia veio como uma ótima oportunidade para envolver seu herói brasileiro em uma história sobre "intenções chinesas de governança global".

Criado após a erupção política de 2013, "O Doutrinador" surgiu em webcomics — quadrinhos lançados diretamente para a internet. Trata-se de um personagem mascarado, ex-soldado da ditadura militar, empenhado na caça de políticos e empresários corruptos, tendo como alvos icônicos a ex-presidente Dilma Rousseff e o senador Renan Calheiros (MDB).

O sucesso do personagem e das publicações veio ao longo de cinco anos. Além do lançamento de sua primeira edição, encadernada pela editora RedBox, o quadrinho também foi adaptado para a TV pelo canal Space e para o cinema em 2018, com filme lançado também no Japão e Coreia do Sul. A produção contou com R$ 1 milhão, captado com aprovação da Lei Rouanet.

Comic Gate

"O Doutrinador" não é a única empreitada do gênero no Brasil. No fim de 2019, foi anunciada no site de financiamento coletivo Catarse a campanha para a publicação da HQ "Destro - O martelo da direita". Diretamente influenciada pelo sucesso de "O Doutrinador", a HQ compartilha as mesmas referências dos comic books de heróis norte-americanos — como "Justiceiro", o vigilante traumatizado pela guerra, e o notório detetive misógino Rorschach, de "Watchmen". Criação de Ed Campos e do desenhista Michel Gomes, a história de Destro se passa na distópica São Paulo de 2045, governada pelo comunismo global, onde brasileiros se veem obrigados a caçar ratos para se alimentar. No enredo, a nota de real foi substituída pelo "real rubro", com a figura de Che Guevara estampada nas cédulas. Assim como a criação de Cunha, Destro é um vigilante obstinado a lutar por liberdade, derrubando o governo ditatorial de seu universo.

A campanha de financiamento coletivo para a HQ atingiu R$ 48 mil — valor quase cinco vezes maior que o pedido na rede. Segundo a dupla de criadores, o sucesso não veio por acaso. Eles acreditam que os fãs de quadrinhos se sentem desamparados pelo que chamam de "guinada progressista" de empresas como Marvel Comics e DC Comics, principais editoras de HQs do mundo. "As novas histórias são péssimas, baseadas numa agenda política progressista clara. Por isso, elas não encontram respaldo nos antigos fãs e não cativam novos leitores", opina Campos.

A visão de Ed Campos e Michel Gomes encontra apoiadores também fora do Brasil. Em 2016, uma foto publicada nas redes sociais por uma das roteiristas da Marvel mostrava uma equipe composta integralmente por mulheres. Fãs norte-americanos de quadrinhos se revoltaram, afirmando que as produtoras estariam sendo cooptadas por pautas progressistas e perdendo seu foco em verdadeiras boas histórias. O episódio evoluiu: desenhistas e críticos se juntaram ao movimento de guinada conservadora, o que ficou conhecido como #comicgate.

Para Rogério de Campos, diretor da Editora Veneta e autor dos livros "Super-Homem e o romantismo de aço" (Ugra, 2018) e "Uma História dos quadrinhos para uso das novas gerações" (Sesc, 2020), a fixação dos consumidores brasileiros pelas produções heroicas dos Estados Unidos não é nenhuma novidade. "Dada a hegemonia dos quadrinhos dos EUA nas bancas daqui, é natural que, desde sempre, as tentativas de se entrar nesse mercado obedeçam ao modelo norte-americano. A história dos gibis brasileiros está cheia de heróis verde-e-amarelo ou detetives particulares chamados Dick ou Peter", diz o autor.

A HQ "Destro - O martelo da Direita", criação de Ed Campos e Michel Gomes - Divulgação
A HQ "Destro - O martelo da Direita", criação de Ed Campos e Michel Gomes
Imagem: Divulgação

Segundo ele, a história das produções tem como ponto importante a administração Reagan nos Estados Unidos (1981-1989), quando forças conservadoras norte-americanas passaram a agir de maneira sistemática para cortar verbas e tirar espaço de artistas de esquerda, passando a incentivar produções que pintassem um retrato positivo do país e defendendo o "American way of life".

Essa fórmula já foi apontada como fascista por escritores como Marshall McLuhan e Umberto Eco, além dos quadrinistas Will Eisner, Robert Crumb e Alan Moore — criador de "Watchmen". No Brasil, a polarização nos quadrinhos também é observada no setor público. Em 2019, o prefeito da cidade do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, ordenou o recolhimento do quadrinho "Vingadores - A Cruzada das Crianças", da Bienal do Livro. A história continha uma cena de beijo entre dois homens.

Quadrinhos na política

Heróis têm sido referenciados por políticos do Brasil há algum tempo. O ex-juiz e agora ex-ministro da Justiça Sergio Moro afirmou, em entrevista, ter o personagem Batman como uma de suas influências. HQs também foram selecionadas como modalidade de incentivo pelo Ministério da Cultura em 2019, no polêmico (e já cancelado) edital anunciado pelo ex-ministro Roberto Alvim, no discurso em que Alvim parafraseou Joseph Goebbels, membro do partido nazista alemão.

O caráter justiceiro e vigilante dos quadrinhos de herói também é admirado por criminosos no Brasil. Um dos casos mais notórios é o da milícia "Liga da Justiça", fundada em 1995 na zona oeste do Rio de Janeiro. O grupo homenageava o time de heróis mais populares da editora DC Comics — e tinha em seu "avatar" o escudo do Batman.

"Sem mimimi"

Não faltam exemplos de como o público conservador no Brasil se mobiliza contrário às pautas progressistas no mercado de HQs. Na esteira da obra censurada na Bienal, o movimento Quadrinhos Sem Política fez barulho nas redes sociais, gerando reações negativas por parte de autores brasileiros.

Para o quadrinista Diego Gerlach, autor da HQ "Noia" (2017) — uma sátira dos quadrinhos de justiceiros — "o público conservador no Brasil se restringe quase exclusivamente ao segmento de heróis e não parece ter interesse na produção autoral nacional". Em "Noia", Cebolinha, o personagem de Mauricio de Sousa, atua como vigilante mercenário no combate de punks e outras figuras consideradas esquerdistas.

A HQ "Noia" (2017), de Diego Gerlach - Divulgação
A HQ "Noia" (2017), de Diego Gerlach
Imagem: Divulgação

Douglas Utscher, um dos fundadores da UGRA Press, editora e loja de quadrinhos autorais de São Paulo, concorda com a posição de Gerlach. Para ele, a nova safra de quadrinhos de direita se encontra em um meio de campo com leitores que não necessariamente consomem HQs, mas podem ser atraídos por temas conservadores. "Quadrinhos de direita tendem a fazer parte de um nicho. Eles dificilmente conversam com leitores que não sejam iniciados no tema", observa.

Tanto o mercado quanto as produções conservadoras no Brasil, apesar de não citarem o mercado dos EUA pós Comic Gate como referência, seguem caminhos similares. Se, no mercado internacional, o resultado da polarização resultou no êxodo de alguns autores do mainstream para publicações independentes, no Brasil o mercado independente conservador começa a se profissionalizar -- e títulos como o "Destro" conseguem projeção internacional. O quadrinho foi licenciado em mais de 16 países antes mesmo de seu lançamento, graças a acordos com a Arktos Media, editora conhecida por publicar autores da nova direita europeia.

Luciano Cunha, autor de "Doutrinador", anunciou o lançamento de sua própria editora, a Super Prumo -- que pretende ser a "casa das ideias dos títulos de direita no Brasil" -- o que o autor entende como resgate a um tipo de protagonista como aqueles heróis de antigamente. "Será uma editora de quadrinhos brasileiros com foco na variedade e excelência de tramas e personagens. Sem lacração, sem 'mimimi'. Apenas boas histórias que merecem ser contadas", promete.