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Transportadora nega a enviar livros por causa de 'conteúdo não permitido'

"A Louca do Sagrado Coração" de Moebius e Alejandro Jodorowsky publicada pela Editora Veneta - Reprodução
"A Louca do Sagrado Coração" de Moebius e Alejandro Jodorowsky publicada pela Editora Veneta Imagem: Reprodução

Marie Declercq

Do TAB

15/01/2020 19h20Atualizada em 20/01/2020 12h17

Em 2019,a editora Veneta publicou o livro "A Louca do Sagrado Coração", uma famosa colaboração do artista francês Moebius (pseudônimo de Jean Giraud) com o chileno Alejandro Jodorowsky, encontrado nas principais livrarias do Brasil sem maiores problemas.

A história em quadrinhos em questão é considerada um clássico dos dois artistas desde os anos 1990 e mistura temas como erotismo, misticismo, religião e filosofia com boas doses de humor para contar a jornada do personagem Alain Mangel, um professor universitário francês que vai se aventurar nas selvas amazônicas.

Cumprindo o acordo padrão com a editora francesa responsável pela venda dos direitos do livro, a Veneta empacotou cinco exemplares da versão brasileira da HQ e contratou os serviços da transportadora DHL Express para enviá-los à França. Porém, na terça-feira (14), para a surpresa da editora Letícia Castro, a remessa foi devolvida. O motivo, segundo a atendente da DHL Express, é que o "conteúdo enviado não é permitido para transporte". A internet veio abaixo.

A editora da Veneta disse que os exemplares foram empacotados em plástico-bolha e colocados dentro de uma caixa pela própria funcionária da editora e entregues à transportadora sem expor a capa do livro (cujo desenho é de uma mulher mostrando os seios), o que sugere a abertura do conteúdo pela transportadora para analisar o que estava sendo enviado.

Essa não é a primeira vez que a empresa recusa o envio de conteúdos eróticos do Brasil para outros países. Em março de 2019, a DHL se negou a enviar um pacote contendo exemplares da revista SeLecT, publicada pela Editora Três, para a feira ARCOMadrid. Questionada sobre o caso, a transportadora confirmou a devolução da carga por considerar o material "impróprio (artigo Indecente ou Obsceno)".

Segundo Castro, a Veneta já havia contratado a transportadora para remessa de outros livros, mas essa foi a primeira vez que o envio de livros foi negado por conta do conteúdo. "Já tivemos um problema com uma gráfica que se negou a publicar um livro do Robert Crumb, em 2013. Acabou que tivemos de procurar outra para imprimir os livros, mas com a DHL foi a primeira vez", diz.

A Veneta publicou na tarde de quarta-feira (15) um post narrando o caso com a DHL Express. "A nova censura vem armada de algoritmos, esquemas monopolísticos e muito dinheiro", comentou a editora na publicação.

No site oficial da DHL Express, há uma lista (em inglês) de conteúdos vetados pela transportadora para retirada e envio. Itens como dinheiro, armas de fogo e drogas são proibidos, assim como o envio de "pornografia". No entanto, há não qualquer especificação da empresa sobre o que poderia ser qualificado como pornografia.

Em nota enviada por email, a DHL Express explicou que tem o direito assegurado de inspecionar "as remessas transportadas com o objetivo de garantir a segurança e cumprimento de normativas aduaneiras e outros requerimentos legais". Essa norma está prevista no item 4 dos Termos e Condições de Transporte, disponibilizado no site da empresa.

Quanto ao caso da editora Veneta, a empresa alemã afirma ter reanalisado o retorno da remessa. "No caso da remessa enviada pela Editora Veneta, ao reanalisar o caso, avaliando maiores detalhes do envio, como país de origem e destino, o roteamento por onde o envio passará até a entrega final, informamos que a remessa não se enquadra na categoria de produto restrito para transporte. Esclarecimento já realizado com a Editora, será transportado até o destino final," disse a nota.

A editora da Veneta confirmou que a transportadora entrou em contato para oferecer a remessa sem custos à França, mas dispensou o serviço.