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Do pânico à negação, como o cinema imaginou as pandemias

Cena do filme "Epidemia" - Reprodução
Cena do filme "Epidemia" Imagem: Reprodução

Tiago Dias

Do TAB, em São Paulo

28/04/2020 04h00

Pessoas que perdem a visão de uma hora para outra. Cidadãos que se tornam zumbis por causa de um vírus. Nações dizimadas por doenças ou por uma ameaça extraterrestre. O cinema imaginou muitas vezes a extinção da humanidade e projetou, na tela grande, variadas reações da população diante desse risco -- do pânico ao negacionismo.

Com as salas de cinema fechadas em todo o mundo, é possível agora assistir ao vivo -- pela TV, rede social ou a janela de casa -- como a humanidade lida com o avanço do coronavírus pelo mundo. E isso vai além da imaginação dos roteiristas de blockbusters: se a Covid-19 não se espalha e mata de forma tão violenta quantos os vírus em filmes como "Contágio" (2011) e "Epidemia" (1995), estamos assistindo, em primeira mão, a pandemia ameaçar a ordem social. Ainda assim, o interesse em filmes que imaginam o nosso dia do juízo final aumentou tão drasticamente quanto a disseminação da Sars-Cov-2 no mundo.

De acordo com o Google Trends, as pesquisas por "filmes sobre pandemias" em streaming começaram a subir em dezembro. Em março, os números dispararam, inclusive no Brasil, onde filmes citados entraram entre os mais assistidos na Netflix e no iTunes.

Seria um esforço nosso em se ver na tela e reconhecer pontos de convergência entre a ficção e a realidade? Ou uma maneira de lidar com o tédio da quarentena — algo pouco explorado no cinema, com exceção de filmes, como "O Buraco", do diretor Tsai-Ming Lang.

"O cinema — ainda mais o que costuma retratar isso — precisa ter mais velocidade, mais eventos, não tem muito tempo para as horas mortas e hoje, vivendo a quarentena, por mais que tenhamos o home office e tentemos nos ocupar, temos muitas horas mortas", observa o crítico de cinema Chico Fireman. "Os filmes passam por elas porque elas não são cinematograficamente vendáveis. Talvez o Béla Tarr falando de epidemias conseguisse retratar isso", diz, citando o cineasta húngaro, conhecido por filmes com planos longos e imagens abstratas.

O mundo escurece de vez em "Werckmeister Harmonies" (2000), de Béla Tarr - Divulgação - Divulgação
O mundo escurece de vez em "Werckmeister Harmonies" (2000), de Béla Tarr
Imagem: Divulgação

Durante sua quarentena, Fireman reviu "Contágio", longa de Steven Soderbergh, em que mostra didaticamente o avanço global de uma suposta nova gripe mortal. "Por mais que o vírus de lá seja mais violento, até pra ser mais cinematográfico, todo o processo é muito parecido: surge na Ásia, se espalha com as pessoas indo para vários lugares do mundo, as restrições, as mortes, a busca por uma vacina. Fiquei impressionado", diz Fireman. "Para um filme que tem também interesse em fazer dinheiro, eu acho que ele até respeita bastante o lado científico. Bate em vários pontos com o que estamos vivendo hoje, porque é um filme em que o diretor quis um tom mais realista."

Para alcançar esse realismo que tem tirado o sono de quem assistiu ao filme durante a quarentena, o roteirista Scott Z. Burns conviveu diretamente com profissionais do Centro de Controle à Doenças americano, membros da OMS e epidemiologistas.

Matt Damon ignora as orientações para evitar aglomerações em cena do filme "Contágio" - Divulgação - Divulgação
Matt Damon ignora as orientações para evitar aglomerações em cena do filme "Contágio"
Imagem: Divulgação

Explosões na pandemia

Fato: a ação da OMS, as medidas de isolamento, a resistência da população em acatar as orientações e os meandros de todo um sistema aparecem em "Contágio" e em partes em "Epidemia", de Wolfgang Petersen — que escolhe um ritmo de ação para falar sobre um vírus fictício do tipo Ebola, que mata as pessoas em menos de dois dias, e é espalhado de forma bastante efetiva em uma sessão de cinema.

Por isso mesmo, ainda que falando sobre um inimigo silencioso e invisível, "Epidemia" apresenta um número chocante de explosões. Uma delas acontece quando uma família tenta furar o isolamento imposto na cidade na cidade fictícia de Cedar Creek, na Califórnia. Spoiler: a família acaba queimada viva ao ser interpelada pelo exército.

Dentro do espectro maniqueísta, quando o certo e o errado são facilmente compreendidos, o personagem de Dustin Hoffman, um virologista militar, parece encontrar eco hoje na figura do médico chinês Wenliang — um dos primeiros a identificar a existência do novo coronavírus. No filme, o protagonista é desacreditado ao alertar o exército do risco de surto. Na vida real, Wenliang também passou por isso. Ele chegou a ser investigado pela polícia chinesa por "espalhar boatos" e teve de se retratar. Acabou morto pela doença que ajudou a divulgar.

No filme — com um exército claramente do mal —, a saída escolhida pelo presidente dos Estados Unidos para que o vírus na pequena cidade californiana não se espalhasse pelo país foi dura: explodir a cidade e seus habitantes.

Para Fireman, o contexto político aparece nesses filmes de uma maneira "mais caricata e clichê". "'Flu', que está na Netflix, tem um personagem americano que é influente lá na Coreia do Sul e quer matar os infectados, mas o super presidente coreano, de bom coração, não deixa", observa. "Se bem que a realidade está meio caricata nesse aspecto, então talvez seja uma boa tradução, até."

Os espectros sociais e políticos diante de uma catástrofe ou pandemia se saem melhores quando lidos pela chave da fantasia. "Os filmes de zumbi, que não deixam de ser sobre epidemias, conseguem ter mais subtextos políticos do que os filmes mais realistas. Eles conseguem ser mais complexos em retratar alienação, comportamento de manada, fascismo e idolatria — que sempre acompanham estes eventos envolvendo epidemias — e que temos visto em larga escala hoje, no Brasil."

Cena de "O Despertar dos Mortos" (1978): Nem os zumbis resistem ao shopping aberto - Divulgação - Divulgação
Cena de "O Despertar dos Mortos" (1978): nem os zumbis resistem ao shopping aberto
Imagem: Divulgação

Para escrever o livro "Guerra Mundial Z: Uma história oral da guerra dos zumbis", adaptado aos cinemas em 2013, com Brad Pitt no elenco, Max Brooks disse ter estudado a fundo doenças como a peste negra e a gripe. Com o avanço da Covid-19, muitos encontraram na sua obra paralelos com o mundo real, mas ele descarta a fama de profeta. "Sou apenas um cara que olha a história. E a história segue padrões muito previsíveis. Esse é o padrão; eu apenas o 'zumbifiquei'", afirmou Brooks, em entrevista ao USA Today.

A história criada por ele começa com um paciente zero na China, que desencadeia um surto viral que se espalha para os EUA durante um ano eleitoral. Publicado em formato de relatos das "testemunhas", o livro aborda mudanças nos aspectos religiosos, geopolíticos e ambientais após o mundo ser tomado por zumbis.

"Estamos diante de uma combinação de incompetência, covardia e mentiras flagrantes", disse Brooks. "A narrativa [dos governos] é: 'Nós fomos apanhados completamente despreparados' — o que não é verdade. Os planos diretores estão bem aqui na minha estante, incluindo um plano mestre para pandemias, que não só foi desenvolvido por nosso próprio governo, mas que é de livre acesso. Deveria ser lido pelos nossos cidadãos."

Cena do filme "Ensaio Sobre a Cegueira" (2008), de Fernando Meirelles, rodada no Elevado Costa e Silva, mais conhecido como Minhocão - Divulgação - Divulgação
Cena do filme "Ensaio Sobre a Cegueira" (2008), de Fernando Meirelles, filmada em São Paulo
Imagem: Divulgação

Cenas de uma distopia

As imagens das cidades vazias, com cartões-postais às moscas e vias desertas, impressionam por até então serem vistas apenas na ficção, como o caso da série "Walking Dead" e o filme "Ensaio sobre a Cegueira", um dos poucos a colocar a crise social e existencial como foco da história.

O diretor Kleber Mendonça Filho usou uma cena do filme "Bacurau", co-dirigido por Juliano Dornelles, para falar sobre esse momento nas redes sociais. Apesar de ser uma ficção sobre uma comunidade sertaneja, perseguida por um grupo de estrangeiros, o tom apocalíptico parece ter se aproximado da realidade, em especial quando a população da cidade se tranca dentro de casa no momento em que a ameaça — no caso, um político da região — chega de surpresa. "As imagens do passado no cinema estão se igualando a coisas que têm acontecido hoje, que são notícias. Para mim, isso é a grande questão", observa. "Isso vai das ruas vazias à reabertura do shopping Blumenau, que é uma imagem que já foi da ficção científica, como em 'Madrugada dos Mortos' e na cena da reabertura da praia em 'Tubarão'", diz Mendonça Filho.

Na última quarta-feira (22), um dos maiores shoppings da cidade do Vale do Itajaí abriu as portas, após o funcionamento de centros comerciais ser autorizado pelo governo. Vídeos mostram aglomeração de pessoas, que foram recebidas com músicas e palmas dos funcionários.

Já na ficção de Steven Spielberg, após ataques de um enorme e sedento tubarão-branco, o prefeito da fictícia cidade abre as praias com medo da fuga dos turistas e de como isso afetaria a economia. "Ele diz que está tudo certo, de uma maneira bem brasileira. E, é claro, não dá certo: as pessoas morrem", lembra o cineasta.

Andre Pinto enviou esse. Cinema X Realidade em 2020. Economia vem primeiro.

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Não é apenas Blumenau, mas a cada dia que passa há cada vez mais cidades traçando planos para reabrir o comércio. Como a prefeita de Las Vegas, Carolyn Goodman, que defendeu a abertura da cidade, inclusive de cassinos. "Isso não é a China. Aqui é Las Vegas, Nevada", disse.

"O que a gente está vendo são atitudes típicas da literatura e do cinema, da distopia. Cada vez a gente vê mais imagens muito familiares, muito conhecidas da ficção, acontecendo agora", observa o cineasta.