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Festival Oi Futuro: ciência mostra que seu potencial precisa ser valorizado

Jaqueline Goes de Jesus, Stevens Rehen e Gabriela Agustini na mesa ?Ciência na linha de frente? - Oi Futuro/Reprodução
Jaqueline Goes de Jesus, Stevens Rehen e Gabriela Agustini na mesa ?Ciência na linha de frente? Imagem: Oi Futuro/Reprodução

Luiza Pollo

Colaboração para o TAB

25/07/2020 04h01

Em seu segundo e último dia de transmissão, o Festival Oi Futuro colocou a ciência no centro do debate. Investimento, valorização e diversidade nesse campo são essenciais para construirmos um futuro mais igualitário — fundamental, principalmente, para evitar que futuras pandemias tenham o mesmo impacto do que a do novo coronavírus. Essa foi a reflexão partilhada pelos participantes das mesas temáticas desta sexta-feira (24).

"2020 foi o ano que marcou a divisão do mundo. Nós existimos mais em bits do que átomos, e isso só aconteceu este ano", disse na mesa "Arte e a reinvenção da realidade" o curador artístico interdisciplinar Marcello Dantas. E, se o futuro parece ter chegado sem permitir que nos preparássemos para ele, ficou ainda mais claro que a adaptação será uma qualidade ainda mais valorizada daqui para frente.

Ciência como base

Você deve se lembrar bem da notícia de que um grupo de cientistas aqui do Brasil conseguiu sequenciar o genoma do novo coronavírus em 24h, antes mesmo da Itália, onde a pandemia já estava bem desenvolvida naquela época. Mas isso não ocorreu de uma hora para a outra. Sim, foi rápido, mas esse trabalho já dura quatro anos, contou a biomédica Jaqueline Goes de Jesus, uma das responsáveis pelo sequenciamento durante a mesa "Ciência na linha de frente".

"Isso foi fruto de um conhecimento de 2016 para cá. É uma tecnologia ainda nova no mercado, nós somos o grupo que trouxe para o Brasil e temos trabalhado incessantemente para atualizar os protocolos de sequenciamento. Cada vez que conseguimos aprimorar um protocolo, é um tempo a menos que se gasta no processo, e um tempo que se ganha à frente do vírus", disse ela. O investimento necessário para que isso acontecesse, portanto, não veio de uma hora para a outra.

Esse descompasso entre a capacidade da ciência e as ações do poder público para investir na área deu início à conversa entre a cientista e Stevens Rehen, neurocientista, professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e Instituto D'Or. "O conhecimento científico nem sempre se transforma em ação", disse Rehen.

"Algumas das lideranças mundiais resolveram substituir dados por opinião. Os números de casos e mortes que temos hoje no Brasil não são culpa da ciência, mas talvez da adoção de um conceito de felicidade muito individualizado", reflete o neurocientista. Para ele, a pandemia é algo que só se resolve com empatia e em conjunto. "A Terra é redonda, o mundo dá voltas e o vírus também. Não é possível a gente pensar em estratégias que não sejam globais." E isso se faz com colaboração em pesquisas, com divulgação científica e com preservação do meio ambiente, acredita Rehen.

Goes de Jesus também reforça o ponto da colaboração. "São três pilares: o da ciência, que trouxe avanços, o pilar de a população acreditar nessa ciência e, a partir daí, o pilar de repensar nossas relações com o meio ambiente, com essa casa que nos cerca e o que vamos passar para as gerações futuras", reflete a biomédica.

Rodrigo Terra, Daniela Klaiman e Silvana Bahia na mesa “Virtualmente real? Imersos em novas realidades” - Oi Futuro/Reprodução - Oi Futuro/Reprodução
Rodrigo Terra, Daniela Klaiman e Silvana Bahia na mesa “Virtualmente real? Imersos em novas realidades”
Imagem: Oi Futuro/Reprodução

Além do mundo físico

Na segunda mesa, "Virtualmente real? Imersos em novas realidades", a futurista Daniela Klaiman e Rodrigo Terra, professor da ESPM nas pós-graduações de Inovação e cofundador da ARVORE Experiências Imersivas, mostraram onde podemos chegar com investimento em ciência voltada a novas tecnologias.

Realidade virtual e aumentada já estão mudando a forma como experimentamos o mundo. "Fomos obrigados a avançar em termos de assimilar o uso de tecnologias imersivas, e de repente quem estava passando pela chamada transformação digital percebeu que não dá tempo de transformar nada, ela já está aqui", avaliou Terra. "E eu acredito que a gente ainda está no meio do caminho. Essa experiência de estar olhando para uma telinha daqui a pouco vai deixar de fazer sentido."

Se você ficou perdido, o que ele está falando é do mundo pós-tela. Terra e Klaiman avaliam que em breve as experiências virtuais estarão ainda mais inseridas no real, e vamos nos acostumar a incluir camadas de virtualidade no mundo físico com mais frequência — coisa que fazemos, ainda timidamente, ao usar um filtro que adiciona algo ao nosso rosto ou ao ambiente no Instagram, por exemplo.

E isso vai além digitalizar não só nossa comunicação, nosso trabalho e aprendizado, mas também nossas relações. "A realidade aumentada te dá superpoderes", reflete Klaiman. Assim como ela pode ajudar um estudante de medicina a conhecer melhor o corpo humano sem precisar de um cadáver ou um mecânico a estudar as partes de um carro remotamente, ela também pode ajudar a gerar empatia. "Você pode por exemplo pegar uma pessoa que nunca experimentou uma deficiência ou como é não ter determinada habilidade e fazê-la viver isso na pele", relata a futurista. Óculos de realidade virtual já estão sendo usados para isso e para outras situações, como fazer a chefia de uma empresa se imergir numa experiência virtual em que ela sofre preconceito ou machismo, por exemplo.

A ideia é usar esse potencial tecnológico para encontrar soluções criativas que nos aproximem. "Basicamente a gente está vivendo todos os episódios de 'Black Mirror' juntos no nosso dia a dia. A gente tem que lidar com a tecnologia de uma maneira responsável para não chegar aos episódios catastróficos", compara ela.

Chris Pinto, Paulo Rogério Nunes e Gabriela Agustini na mesa “A diversidade move a inovação. E quem move a diversidade?” - Oi Futuro/Reprodução - Oi Futuro/Reprodução
Chris Pinto, Paulo Rogério Nunes e Gabriela Agustini na mesa “A diversidade move a inovação. E quem move a diversidade?”
Imagem: Oi Futuro/Reprodução

Quem decide?

E para que isso seja possível, o futuro precisa ser pensado e construído por times diversos. "Quando a gente entende que a diversidade move a inovação e a inovação move a sustentabilidade de uma empresa, aquilo deixa de ser um problema só dos funcionários negros e passa a ser um problema de todos", disse na mesa "A diversidade move a inovação. E quem move a diversidade?" Chris Pinto, jornalista e fundadora do comitê AfroGooglers, em prol da igualdade racial no Google Brasil, onde trabalha.

Chris lembra que ela conseguiu "hackear o sistema" por dentro e conta que o comitê hoje tem mais de 100 pessoas — sendo que, no início, a empresa tinha apenas ela e mais um funcionário negro no país. Mas ressalta que isso não seria possível sem apoio da empresa, investimento e confiança.

Para mudanças abrangentes, Paulo Rogério Nunes, consultor em diversidade, destacou que empresas, poder público e universidades têm papel importante em diminuir a diferença de oportunidades entre brancos e negros no país.

"Com a tecnologia, a gente pode descentralizar a produção de conhecimento. Não são mais só as universidades dos Estados Unidos e da Europa que são determinantes", afirma Nunes. "Podemos pensar por exemplo na África — que já é a população mais jovem do planeta — como fazer com que essas pessoas possam contribuir. E como nossas quebradas, nossas periferias, vielas do Brasil podem servir de locais de produção de conhecimento e não só de consumo."

Marcello Dantas, Roberto Guimarães e Silvana Bahia na mesa “Arte e a reinvenção da realidade” - Oi Futuro/Reprodução - Oi Futuro/Reprodução
Marcello Dantas, Roberto Guimarães e Silvana Bahia na mesa “Arte e a reinvenção da realidade”
Imagem: Oi Futuro/Reprodução

Arte como caminho

Mas, claro, a pandemia acelerou e mudou processos não apenas no mundo do trabalho. A arte também foi afetada e já mudou muito nos últimos meses. Na mesa "Arte e a reinvenção da realidade", Roberto Guimarães e Marcello Dantas debateram quais caminhos ela está tomando durante a pandemia e o que podemos esperar das obras futuras.

"Eu tenho feito mais perguntas do que encontrado respostas", confessou Roberto Guimarães, gerente-executivo de cultura da Oi. "A Covid-19 nos colocou diante do óbvio: o ser humano precisa de ar para respirar. E tenho esperança de que pelo menos parte da população, se não toda, também veja a arte como um ar, como algo que nos seja essencial."

Ele questiona se, nesse momento, a estética dos gráficos e das planilhas nos basta, lembrando que a arte é uma forma de refúgio e liberdade em momentos difíceis. E, mesmo que a produção mude por conta das condições atuais, Dantas lembra que é ela que vai nos ajudar a imaginar novos caminhos para onde queremos ir. Isso significa repensar até mesmo a forma que consumimos a arte — por que não assistir a um filme às 8h da manhã? "Precisamos aproveitar essa oportunidade de pensar na dessincronização do tempo, por exemplo."

Apesar das muitas dúvidas, uma coisa parece ser certa: a arte continuará produzindo e nos dando esse 'respiro', como refletiu Guimarães."A incerteza é um dos potenciais mais transformadores que existem. E a arte sabe lidar com a incerteza. Parte da poética da arte é gerar dúvidas", concorda Dantas.