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No mundo de pouco contato, Rita Wu quer unir sexo e saúde com um vibrador

Arquiteta, designer e pesquisadora, Rita Wu explora objetos e propondo novas possibilidades de relação entre corpo, espaço e tecnologia - Divulgação/Arte UOL
Arquiteta, designer e pesquisadora, Rita Wu explora objetos e propondo novas possibilidades de relação entre corpo, espaço e tecnologia
Imagem: Divulgação/Arte UOL

Tiago Dias

Do TAB

03/08/2020 04h01

Rita Wu sempre foi fascinada por tecnologia. "O que me encanta é a abertura de espectro", ela diz. E, neste caso, estamos falando da sexualidade.

Arquiteta, designer e pesquisadora, a paulista ganhou destaque no movimento maker explorando objetos e propondo novas possibilidades de relação entre corpo, espaço e tecnologia. Seus trabalhos já figuraram em muitas bienais e museus, mas um em particular virou sensação em Berlim e na Filadélfia, pouco antes da pandemia do novo coronavírus: um vibrador.

O objeto se parece com tantos outros que estouraram de vendas durante a quarentena, mas esse não é um dildo comum. É um Neurodildo, que articula duas tecnologias cada vez mais protagonistas do nosso futuro de possibilidades: a interface cérebro-computador e a inteligência artificial.

Assim, à distância, é possível que uma pessoa, apenas com o pensamento, possa controlar a velocidade e o movimento desse vibrador em outra pessoa. E receber, de volta, o quanto de prazer o parceiro está sentindo.

"Por mais que a gente controle a intensidade e a velocidade, um vibrador comum vai reagir da mesma forma em repetição. Não tem essa coisa do inesperado, que é o que temos quando nos relacionamos com uma pessoa", explica. "E não saber o que a pessoa vai te dar de estímulo é sempre muito interessante."

A possibilidade de uma relação sexual não presencial parece coisa saída de filmes de sci-fi, mas se encaixa perfeitamente nesse mundo pós-pandemia, onde o contato próximo está em xeque. "As tecnologias estão deixando o toque de lado e isso agora está sendo acelerado, porque significa contágio. Por mais que a gente saia desse momento de pandemia, é uma coisa que veio para ficar", ela observa.

Entre prazeres a distância e novas formas de relacionamento, esse vibrador, porém, tem um objetivo mais primário — e que impulsiona essa hacker a ir até as profundezas da tecnologia para resgatar. "Não é só sobre sexualidade e prazer. Quando a gente pensa sexualidade, estamos falando de saúde física e mental. Não está descolada da integridade, mente e corpo", enxerga.

Introdução à sexualidade

O projeto do Neurodildo, assim como tantos outros que saem da mente inquieta de Rita Wu, partiu de um interesse seu na própria sexualidade. Criada por um pai chinês e uma mãe que sonhava ser freira, o sexo não era um assunto muito comum para ela.

"Cresci sendo aquela pessoa que ia casar com o primeiro namorado e não ia ter muitas experiências. Até porque, o que é importante é a construção da família, um sonho quase que plantado nas nossas cabeças. Fui uma pessoa tardia nessa introdução, tinha um completo desconhecimento. Pensei que a tecnologia poderia me ajudar a entender melhor a minha própria sexualidade", conta.

Nessa busca, iniciou os trabalhos com a mediação de relacionamentos por tecnologias digitais, e percebeu que, mesmo com tanto avanço, ainda faltava o essencial. "A gente passa a falar dessa coisa da virtualidade, da digitalização, e o quanto que isso melhorou os nossos relacionamentos, mas as pessoas estão conversando cada vez menos. Muito da dor e dos desafetos acabam vindo dessa incomunicabilidade. É preciso colocar energia ao se relacionar com o outro."

Quando falamos sobre a relação com o nosso próprio corpo, é igual. É preciso colocar energia.

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Protótipo do Neurodildo: Vibrador ainda não está à venda, mas abre caminhos para novas possibilidades do contato a distância
Imagem: René Cardillo/Arte UOL

O corpo, esse grande sensor

O Neurodildo nasceu numa pesquisa com Leonardo M. Gomes, doutorando pela USP (Universidade de São Paulo) em Engenharia Elétrica, a partir de um estudo de próteses sensitivas desenvolvidas para um campo praticamente inexplorado: o mercado de sextoys para as pessoas com deficiência.

Como é uma tecnologia que não depende de movimento, o leque se abriu: por que não ajudar pessoas, no geral, a desenvolver sua própria sexualidade? Afinal, o mercado de brinquedos sexuais pode ser variado em formatos e desenhos, mas ainda é bastante conservador nas suas possibilidades e variações sensoriais. "Muitos são voltados para mulheres, mas não desenhados por elas. É ainda uma coisa muito do olhar masculino sobre o prazer da mulher", observa.

"Estamos falando de uma área como o clitóris, um concentrado de terminações nervosas. Os choques, se bem dados e bem localizados, são extremamente prazerosos. As pessoas esquecem que o nosso corpo funciona com o choque, o prazer do toque é um estímulo elétrico", diz.

Para a mágica acontecer, o Neurodildo funciona com três dispositivos, cada um com sensores e microprocessadores ligados sem fio. Até aí, a tecnologia já era conhecida com WeVibe, que permitia que uma pessoa controlasse à distância a velocidade do vibrador. A diferença é que não há um controle remoto e tudo é coordenado com a força da mente.

Um capacete neural, com dezesseis eletrodos, capta com precisão variações de ondas eletromagnéticas — impulsos que surgem quando a gente pensa, imagina ou recebe estímulos. Essas ondas são interpretadas por um software e traduzido em estímulos variados no vibrador, usado pela segunda pessoa.

O dildo, por sua vez, consegue traduzir em estímulos elétricos o prazer que o parceiro está sentindo e dar aquele "feedback" para quem está controlando o vibrador. O que muitas vezes não é dito no ao vivo agora é sentido, através de um bracelete. O prazer é mútuo — como deveria ser uma (boa) relação sexual presencial.

"Nosso corpo, esse grande sensor que é nossa interface com o mundo, entende todos esses estímulos de forma diferente. Então essa parte do feedback também estimula a pessoa que está recebendo. Porque, sem isso, não é uma relação", explica.

Quando o Neurodildo foi apresentado pela primeira vez no Terceiro Congresso Internacional "Love and Sex With Robots", em 2017, a imprensa britânica alertou que ele era a peça que faltava para o futuro prometido em muitos livros e estudos: sexo com robôs. Hoje, os androides, na verdade, são cabeças robotizadas fixadas em bonecos, mas se a mente consegue controlar um vibrador, ela pode controlar qualquer máquina.

Wu caminha nessa direção com o novo projeto, TouchYou, uma pele artificial que pode, assim como o bracelete do Neurodildo, receber estímulos dos mais diversos, com variação de temperatura e pressão. "Você sente quase como se a pessoa estivesse acariciando", observa. Um robô poderia estar revestido com essa pele — assim com um humano que não tem sensibilidade em alguma parte do corpo.

"Essas interfaces, como foram desenvolvidas, podem ser aplicadas para qualquer fim ou objetivo, em outros momentos e necessidades. Para pessoas portadoras de deficiência é um campo de estímulos vários, um ganho de qualidade de vida e uma independência incrível. Para quem é paraplégico, isso pode ser revolucionário", comemora.

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Imagem: Rodrigo Rosa

Sexo como política pública

Wu está envolvida em diversos grupos makers engajados em produzir equipamentos de proteção individual (EPIs), ventiladores pulmonares abertos e de baixo custo, mobiliários e outros dispositivos hospitalares. Por mais que o Neurodildo possa indicar, o campo da saúde é uma questão central para ela.

"Tudo que eu desenvolvo é pensando muito nessas questões. A gente tem o SUS, e ele é incrível, mas como melhorar? É unir prazer e saúde. Essas coisas estão superinterligadas", diz.

Outros vibradores já estão em sua mente. Um deles equipado com uma microcâmera e biossensores, para que a masturbação possa ser feita como um exame rotineiro. Assim, além de ter um orgasmo, a mulher poderia saber, através da inteligência artificial, a carga viral de HPV em seu corpo e ter imagem do colo do útero para saber se há alguma anormalidade. Um verdadeiro Papanicolau.

Num país onde a consulta ginecológica no SUS é demorada, e muitas vezes inacessível, muitos casos de câncer cervical, também conhecido como câncer do colo do útero, são descobertos tardiamente. É o quarto tipo de câncer mais comum entre as mulheres.

No fim, o vibrador desse futuro, vai além de dar prazer telemático. "É para dar independência e autonomia, mas também conhecimento do próprio corpo. Entrando nessa área de saúde, é muito mais fácil a gente conseguir mostrar a importância dessas coisas. E são coisas simples e básicas que poderiam estar colocadas aí como política pública", avalia.

Dá para substituir o toque?

Há muitas outras ausências impostas durante uma pandemia. Apesar de a quarentena parecer ter sido relativizada, o momento tem colocado o tesão e o prazer no centro das atenções.

Não à toa, há muitos relatos de quem perdeu o tesão, descobriu novas formas de ou se rendeu ao encontro por vídeo, que passou a integrar muitos aplicativos de paquera. Esse leque aberto pela tecnologia, ela aponta, veio para ficar.

"Essas coisas vão conviver cada vez mais entre pessoas que antes tinham um certo preconceito de fazer sexo virtual, trocar nudes, ligar câmera. Essa digitalização é extremamente interessante e consegue colocar a gente num certo contato com outras pessoas no momento de isolamento. Facilita as conexões e faz com que as pessoas e os relacionamentos fiquem mais abertos para outras formas de sentir, não só prazer sexual", observa.

O futuro antecipado pela pandemia parece incrível — mas, a mente que pensa tantas possibilidades acredita que nada substitui um hábito antigo. "Seja com um robô sexual ou um gadget, a gente até pode ter serotonina e dopamina iguais, mas não temos a mesma carga de ocitocina. Isso não vai substituir absolutamente a presença física."

Este material faz parte do especial de TAB sobre o Futuro do Sexo. Leia ou assista mais conteúdos inéditos a seguir:

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