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Dominadoras fazem videochamadas para escravos sexuais a distância

Mistress Charlotte, dominadora profissional, se exibe para a webcam - Arquivo pessoal/Arte UOL
Mistress Charlotte, dominadora profissional, se exibe para a webcam
Imagem: Arquivo pessoal/Arte UOL

Marie Declercq

Do TAB

03/08/2020 04h02

A tela mostra uma mulher de batom vermelho e cabelos loiros e compridos que escorrem por sua roupa de látex preto. Sentada em um banquinho, ela mostra para a câmera um chicote de couro, com um ar entre ameaça e provocação. Não é possível ver quem está assistindo. Às vezes, um ou outro cliente exibe partes do corpo ou do rosto, mas quase sempre a mulher interage com uma tela preta. Oculto ou não, cada cliente está atento à tela por motivos muito parecidos: receber ordens em uma sessão de dominação virtual com Mistress Charlotte.

O trabalho de uma dominatrix ou domme, a dominadora profissional, faz parte das práticas do BDSM. A sigla, que vem das iniciais de Bondage (amarração com cordas), Dominação, Submissão e Masoquismo, abriga práticas que vão de ter prazer em sentir ou infligir dor a exercer formas de privação total dos sentidos. É o que costumam chamar de sadomasoquismo. Em sua profissão, Charlotte atende homens que desejam ser humilhados, chicoteados ou ter seu prazer físico controlado por terceiros. Aqui, quem está no comando é a domme, seja ao vivo ou por uma tela de computador.

Ao mudar nossas rotinas, o distanciamento social imposto pela pandemia da Covid-19 também colocou nossos desejos à prova. Embora alguns admitam não respeitar a quarentena e dar suas escapadas para transar, boa parte da população permanece recolhida em casa, de onde pode recorrer à internet para satisfazer suas pulsões.

A pandemia também afetou categorias que dependem quase inteiramente do contato físico, como os trabalhadores sexuais. No caso de Mistress Charlotte, dominadora profissional há cinco anos, as sessões virtuais feitas pelo Skype ou por sites de webcam são uma solução temporária para continuar atendendo. "Tenho um estúdio na Vila Mariana que está fechado no momento, mas muitos caras me pedem o atendimento presencial. Prefiro esperar", afirma. Além dos serviços de dominação, Charlotte também ministra cursos para mulheres interessadas em serem dominadoras. Com a pandemia, todos são feitos a distância.

Rainha Rayssa Garcia, também dominatrix profissional, diz que as ferramentas virtuais já faziam parte de sua profissão, mas se tornaram essenciais com a pandemia e o distanciamento social. "Desde que me tornei dominadora, tinha o hábito de usar a internet para fazer coisas como vender fotos, calcinhas e coisas do tipo, mas não tinha essa força que ganhou agora", conta.

São, Seguro e Consensual

As sessões virtuais variam de 15 minutos a 3 horas, dependendo da quantia que o cliente está disposto a gastar para receber a atenção da dominatrix. Os fetiches traduzidos para o mundo virtual são os mais diversos, da humilhação verbal à podolatria (fetiche por pés), passando por narrativas mais complexas como as fantasias de infidelidade (o popular fetiche de corno, também chamado de cuckolding) e a inversão (quando o homem assume papéis social e sexualmente considerados femininos).

Mesmo quando a sessão é virtual, Charlotte tem uma conversa prévia com o cliente para combinar o que vai ser feito, e como. Mesmo sem poder infligir dor com as próprias mãos, as dommes virtuais seguem à risca os três pilares do BDSM: são, seguro e consensual. Ou seja, tudo precisa ser discutido e combinado de forma responsável, com limites bem definidos e mecanismos de segurança, para que brechas não tornem abusiva a prática.

Charlotte já realizava sessões virtuais antes da pandemia, mas agora o número dobrou, enquanto Rayssa afirma que suas sessões por essa modalidade triplicaram na quarentena. As dommes também publicam vídeos, fotografias e fazem sessões no Câmera Privê, um dos maiores sites de webcam erótico do Brasil.

Impossibilitadas de usar chicotes e apetrechos, as dominadoras focam na dominação psicológica e em joguinhos mentais para conquistar a fidelidade e a entrega emocional dos escravos que pagam pelas sessões. "Falo uma coisa bem simples: 'Se vocês mentem e não obedecem minhas ordens, estão sacaneando a vocês mesmos'", explica Rayssa.

"Práticas relacionadas à dor ficam um pouco mais restritas", explica Charlotte. "A dominação é mais psicológica, fazendo o submisso usar coisas que tem em casa. Ele pode fazer torturas genitais em si mesmo, ou nos mamilos. A gente tem que usar a criatividade."

Nessas circunstâncias, como avaliar se o cliente está satisfeito, ou se houve entrega em uma sessão virtual? Tanto para Garcia quanto para Charlotte, o critério é o mesmo: isso se confirma quando os clientes marcam outras sessões.

"Fala, corninho"

Além do crescimento das sessões virtuais, as duas dommes também dedicam alguns minutos por dia para dar ordens e interagir com seus escravos sexuais pelo WhatsApp. Essas mensagens podem chegar a qualquer momento, seja um xingamento ou uma ordem para o submisso tirar uma foto sem camisa.

Conversa de Whatsapp entre Mistress Charlotte e um dos seus escravos sexuais  - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Conversa de Whatsapp entre Mistress Charlotte e um dos seus escravos sexuais
Imagem: Arquivo Pessoal

"Tenho pelo menos 30 submissos com quem converso diariamente. São os que realmente têm contato comigo, que sempre estão ali, que me mandam mensagens", conta Charlotte. "Como não tenho mais as sessões presenciais diárias, fico online depois da meia-noite e mantenho contato com sete a oito submissos."

Muitos dos clientes de Rayssa são casados, mas nem isso os impede de encontrar um tempo para interagir com sua "rainha" pelo Skype ou pagar por conteúdos personalizados. "Eles me avisam quando estão sozinhos, às vezes dão uma escapadinha na hora do almoço e me ligam do banheiro", conta.

Castidade controlada, mesmo longe

O contato físico é essencial para muita gente, mas no BDSM há quem defenda que a ausência de contato intensifica ainda mais a relação entre a dominadora e seu escravo sexual. Rodrigo* é cliente de Mistress Charlotte há anos e considera a dominação virtual, especialmente o controle da castidade, o ápice das práticas, por exigir dos envolvidos um comprometimento intelectual e psicológico maior do que o costumeiro.

"A busca da dominação virtual é mais elaborada, exige mais integração. Nesse tipo de relação, quem está se sujeitando pode ser sacaneado de várias formas pela dominadora", explica Rodrigo*. "Pode ser obrigado a usar calcinha, ter um consolo de borracha, se submeter a situações humilhantes, imitar um cachorrinho. Mas para mim o principal é a parte da castidade, é o filé mignon."

Mistress Charlotte (esquerda) e Rainha Rayssa Garcia (centro) fazem videochamadas para escravos sexuais - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Mistress Charlotte (esquerda) e Rainha Rayssa Garcia (centro) fazem videochamadas para escravos sexuais
Imagem: Arquivo Pessoal

Oferecido por Charlotte, o controle de castidade é um programa no qual o cliente adquire um acessório que impede relações sexuais e masturbação. Esse apetrecho de castidade é trancado com uma chave ou com uma senha numérica, à qual só a dominatrix tem acesso. Com envio constante de fotos e nas sessões virtuais, o escravo prova que continua casto e que só poderá se satisfazer quando Charlotte permitir. É a prática mais efetiva para relações virtuais, pois o desejo aumenta com a privação e a postergação do prazer, em conjunto com a sensação de ter alguém controlando suas necessidades básicas. "Ajudo o submisso a encontrar o modelo adequado. Existem cadeados com senha numérica, que posso controlar a distância e determinar quando o escravo pode tirar. São várias regrinhas a serem seguidas de longe. Esse programa pode durar de um dia até um mês inteiro, depende da disposição do cliente", explica.

"A graça é ser impedido de ter relações sexuais", explica Rodrigo. "Seu pau está trancado em uma prisão, de uma cela. Você abre mão de tudo isso, de transar e de sentir tesão, para uma mulher controlar você o tempo inteiro e encontrar maneiras de ferrar com sua vida. Ela é uma cúmplice do mal.". Alguns modelos, segundo ele, permitem que os apetrechos sejam usados até mesmo fora de casa, no trabalho. Por questões de segurança, os modelos mais sofisticados têm um lacre de segurança, que pode ser rompido pelo usuário em emergências.

"É uma grande responsabilidade", afirma a dominadora.

Procura por streaming sexual aumentou

De acordo com o Câmera Privê, houve um aumento considerável de novos modelos e clientes no site desde o começo da pandemia, ainda que nem todo o movimento esteja relacionado com dommes.

"Acredito que as pessoas estejam buscando mais a interação virtual, e o site se apresenta como uma possibilidade de entretenimento nesse contexto, já que somos por definição uma plataforma para interação virtual", explica ao TAB Verônica Freitas, responsável pela comunicação da plataforma. "Tivemos um aumento de 13% logo em março, que em abril passou para 16%, e agora estamos na faixa de 29%, em comparação a janeiro e fevereiro. Temos tido picos diários de quase 3 milhões de acessos", diz.

Para Charlotte e Rayssa, o aumento considerável de clientes também indica que mais homens estão se abrindo para fantasias que antes não ousavam cogitar, como um papel submisso em práticas de dominação sexual.

"É uma fantasia, um fetiche normal, e é sadio a pessoa colocar esses desejos para fora. Fazer isso faz bem. Espero que cada vez mais isso deixe de ser um tabu, que as pessoas compreendam que tudo é feito por pessoas adultas, que conversaram e chegam a um acordo", diz Charlotte. "Quando comecei no BDSM eu não sabia nada de nada, achava que tinha um problema, e esse momento de descoberta acontece em todos os lados. Ao descobrir que outras pessoas também fazem aquilo, que existe uma ética ali, você começa a aprender e entender que não está sozinho."

Este material faz parte do especial de TAB sobre o Futuro do Sexo. Leia ou assista mais conteúdos inéditos a seguir:

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