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Rapidez no isolamento social ajudou Califórnia, diz médico de Stanford

Dean Winslow, médico e professor da Universidade de Stanford, nos EUA - Divulgação
Dean Winslow, médico e professor da Universidade de Stanford, nos EUA Imagem: Divulgação

Fernanda Ezabella

Colaboração para o TAB, de Los Angeles

14/04/2020 04h00

Enquanto Nova York registrava na sexta (10) 7.067 mortes por covid-19, a Califórnia contabilizava 395 mortes, sendo nove em San Francisco e 147 em Los Angeles.

A diferença entre os dois estados tem sido um enigma para os agentes de saúde nos Estados Unidos, mas a maioria concorda que medidas de distanciamento social tomadas bem cedo por cidades californianas ajudaram na contenção do novo vírus.

A densidade urbana bem menor também joga a favor da Califórnia, explica o médico Dean Winslow, professor da Universidade de Stanford e especialista em doenças infecciosas. "É preciso dar crédito às nossas autoridades que agiram rápido", disse ao TAB.

Em 2 de março, enquanto a prefeita de San Francisco pedia à população para se preparar, o prefeito de Nova York encorajava à população a seguir com a vida normal. Dia 16, o condado de Santa Clara, onde fica Stanford e parte do Vale do Silício pediu isolamento social, junto a outros cinco condados da região de San Francisco. Nova York só faria o mesmo oito dias depois.

Na entrevista a seguir, Winslow compara os dois estados e fala sobre a situação sob controle nos hospitais de San Francisco e Bay Area, além das drogas que acredita serem promissoras (spoiler alert: não é cloroquina). Entre as apostas está o remdesivir, antiviral concebido para tratar o ebola pela Gilead Sciences, empresa de biotecnologia a meros 10 km de Stanford.

Grupos de pesquisa da universidade têm conduzido diversas pesquisas e ensaios clínicos, entre eles um teste para avaliar a eficácia do remdesivir. Na sexta-feira, 3.200 pessoas foram testadas com anticorpos da covid-19 para determinar a proporção da população que se recuperou do vírus. É o primeiro estudo do tipo no país, e os resultados devem sair em uma semana.

10.mar.2020 - O navio de cruzeiro com mais de 3.500 pessoas a bordo e com 21 casos de coronavírus confirmados, que atracou em um porto da Califórnia, nos Estados Unidos - Li Jianguo/Xinhua - Li Jianguo/Xinhua
Navio de cruzeiro com mais de 3.500 pessoas a bordo e com 21 casos de covid-19 confirmados, que atracou em um porto da Califórnia
Imagem: Li Jianguo/Xinhua

Coronel aposentado da Força Aérea, tendo atuado como cirurgião nas guerras do Iraque e Afeganistão, o médico também comenta sobre o papel do Exército na crise nos EUA e sobre os paralelos da covid-19 com outra pandemia, a do HIV.

TAB: Como está o senhor e qual a situação no hospital da Universidade Stanford?
Dean Winslow:
O moral está bem bom aqui em Stanford, mas temos sorte de ter recursos e uma administração que nos apoia. Temos ótimos médicos, enfermeiros e terapeutas respiratórios. Devolvemos alguns ventiladores armazenados para o uso e por enquanto estamos dando conta dos pacientes. Minha mulher também é professora e nós dois atendemos. Eu estava na enfermaria e ela nos serviços de doenças infecciosas. Tenho um time de dois internos e um residente, e meus colegas médicos são muito bons. Ouvi dizer que os hospitais grandes da região de San Francisco estão em boas condições também.

TAB: Por que a Califórnia parece estar numa situação muito melhor que Nova York?
DW:
Existe uma série de fatores. Uma grande razão está na densidade da população que é muito maior em Manhattan e nas áreas que compõem a cidade de Nova York. As pessoas estão espremidas em regiões menores. É um fator físico. Outra razão são as recomendações de distanciamento social e reclusão que foram tomadas rapidamente pelas autoridades de condados da Califórnia e logo depois por todo o estado. Tenho orgulho dos nossos agentes de saúde no condado de Santa Clara. O governador também fez um ótimo trabalho.

TAB: Existe ainda chance de Los Angeles ou San Francisco virar uma Nova York?
DW: Se relaxarmos cedo demais as restrições de reclusão e distanciamento social, poderíamos sim, potencialmente, acabar numa situação similar. Mas nosso governador estendeu as restrições [até final de abril]. Então estou cautelosamente otimista que não vamos ter esse cenário.

Os números na Califórnia traduzem a realidade? Não há subnotificações?
DW: Não acredito que exista uma subnotificação deliberada. Aqui na Bay Area temos muita sorte por termos não apenas os testes da OMS, mas um número de laboratórios criou testes para os hospitais da região. Estamos ainda correndo com os testes, mas não acredito que haja um problema sério de subnotificações. Existe um número de pessoas com sintomas mínimos que não está sendo identificado e por isso, repito, as restrições por um prazo mais longo são tão importantes.

TAB: Como coronel aposentado da Força Aérea, qual o papel dos militares nessa crise?
DW: Há várias maneiras. Em primeiro lugar, a verdadeira linha de frente para qualquer tipo de desastre natural, incluindo uma pandemia viral, é a Guarda Nacional que atua em todos os estados e territórios. Na Califórnia, a guarda tem sido bem utilizada para entregar equipamento médico em instituições, buscar suprimentos dos estoques e também ajudar a realizar testes nos indivíduos. Há também gente na reserva com habilidades necessárias, mas temos que ser cautelosos em trazer pessoas que podem ter papéis importantes em seus trabalhos civis.

Equipe médica da Guarda Nacional da Califórnia se organiza para o combate à covid-19 - Wikimedia Commons - Wikimedia Commons
Equipe médica da Guarda Nacional da Califórnia se organiza para o combate à covid-19
Imagem: Wikimedia Commons

TAB: Uma coluna do jornal The New York Times pediu para que pacientes de covid-19 dos hospitais locais fossem transportados com ajuda dos militares para cidades com melhor condição de atendimento. Acredita que seria uma boa ideia?
DW:
Logisticamente pode ser algo muito difícil de fazer, mas certamente não impossível. Há várias maneiras de como o Exército pode ajudar -- um exemplo é o navio-hospital Comfort, que atracou na baía de Nova York e está cuidando de pacientes sem relação com a covid-19 para aliviar os hospitais. Certamente é possível fazer mais instalações do tipo, mas não são ideais do ponto de vista de controle de infecções. No momento, em alguns lugares, o problema não é falta de camas em hospitais, mesmo em Nova York. É falta de leitos de UTI, de ventiladores, de equipamento de proteção pessoal. Mas aqui na Califórnia, não está sendo um problema.

TAB: Entre as drogas sendo testadas no momento, com quais o senhor se sente mais animado?
DW:
Em termos de eficácia de qualquer droga, não temos ainda nenhuma evidência convincente de nenhum grande ensaio clínico randomizado bem organizado. Acredito que em duas ou três semanas vamos começar a ver resultados. O que me parece mais promissor é o remdesivir. Não sou tão fã da cloroquina e da hidroxicloroquina. Estou um pouco mais animado também com um agente biológico anti-inflamatório chamado tocilizumabe, que inibe a IL-6 [um marcador inflamatório], e outra droga que está em diversos ensaios clínicos, inclusive aqui em Stanford, chamada Lambda interferon.

TAB: Por que o entusiasmo com remdesivir e pouco com a cloroquina?
DW:
Da perspectiva de um ex-virologista de laboratório, estou um pouco mais otimista com o remdesivir porque ele de fato ataca diretamente proteínas virais envolvidas na replicação. Em contraste, nos testes laboratoriais como cultura de tecidos, a cloroquina e a hidroxicloroquina provavelmente alcalinizam estruturas intracitoplasmáticas que o vírus usa para se agregar. Não está claro se esses efeitos podem ser obtidos em organismos inteiros (pacientes) e em doses seguras. Além disso, os dados reportados até agora mostrando eficácia são anedóticos e provavelmente tendenciosos. Um pequeno estudo feito na China mostrou que cloroquina não teve efeito nem na resolução dos sintomas, nem na propagação viral. Não utilizamos cloroquina de maneira rotineira em Stanford.

TAB: Existem similaridades entre o HIV e a pandemia de covid-19?
DW: Há muitos paralelos. Terminei meus estudos sobre doenças infecciosas em 1981, quando os primeiros casos de Aids foram identificados. Só em 1984 descobrimos a causa da Aids, através do vírus HIV. Havia muito medo, principalmente no começo. Havia muito estigma, gente associando a um tipo de pessoa, e alguns agentes de saúde tinham medo de lidar com pacientes com Aids. Acho que existe um pouco disso agora. Mas, honestamente, acredito que nós aprendemos como sociedade, como país e como mundo a ajudar como podemos. Mesmo com o vírus SARS-CoV-2 [sigla que identifica o novo coronavírus] se espalhando mais rapidamente e sendo letal, acredito que haja menos temor do que lembro 40 anos atrás com os primeiros casos de Aids.

TAB: Ainda não existe vacina para HIV. Vamos conseguir ter uma para SARS-CoV-2?
DW: São vírus muito diferentes em estrutura e em como se replicam. O HIV passa por mutações muito mais rapidamente que o SARS-CoV-2. Talvez nunca tenhamos uma vacina para HIV por causa disso, mas há evidências preliminares de imunidade com covid-19. Já com HIV sabemos que, mesmo depois de infectado, você pode ser infectado de novo com uma cepa diferente.
São biologias bem diferentes, por isso sou otimista com uma vacina para SARS-CoV-2, talvez em 12 ou 14 meses. Realmente espero que a pandemia tenha diminuído bastante até lá, mas é importante desenvolver uma vacina. Muitas técnicas moleculares que aprendemos fazendo pesquisa de HIV, e que ainda fazemos, têm sido aplicadas ao coronavírus.

TAB: O que sabemos sobre imunização do novo coronavírus? Quem ficou doente e sarou não pega de novo?
DW: Não sabemos ainda. Um estudo publicado na China algumas semanas atrás mostrou que macacos rhesus, após uma infecção primária, não foram infectados novamente depois de 28 dias [ao terem o Sars-Cov-2 inserido diretamente em seus corpos]. Mas o vírus está por aí faz pouco tempo, na maioria dos lugares desde dezembro de 2019 ou janeiro de 2020. Então é cedo para saber.

TAB: Por que algumas pessoas têm sintomas leves e outras morrem ao serem infectadas?
DW: Acredito que o vírus seja basicamente o mesmo, e o motivo seja provavelmente conflitos genéticos de algumas pessoas, do mesmo jeito que acontece com influenza e outras bactérias e fungos. Às vezes são apenas defeitos gerais no sistema de imunidade, que vem com velhice e diabetes. Indivíduos mais jovens podem ser mais sensíveis ou mais resistentes ao vírus. É o tipo de coisa que tem sido estudada e não vamos saber por um tempo ainda.

TAB: Acredita que o mundo vai mudar depois dessa pandemia?
DW: Espero que as pessoas não se esqueçam. O que acontece repetidamente, não só nos EUA mas no mundo todo, é que quando uma epidemia some da memória, os fundos para saúde pública são cortados. Espero que países desenvolvidos como os EUA, que podem se permitir, invistam em suas estruturas de saúde pública e percebam que esse é um investimento estratégico.