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'A branquitude decide quando nos ouve ou não', diz o fotógrafo Roger Cipó

O fotógrafo Roger Cipó - Divulgação
O fotógrafo Roger Cipó Imagem: Divulgação

Giacomo Vicenzo

Colaboração para o TAB

10/10/2020 04h01

O fotógrafo Roger Cipó foi o oitavo e último entrevistado da terceira temporada do podcast "Fora da Curva", apresentado pela jornalista Monique Evelle. No bate-papo, Cipó reflete sobre ações afirmativas de empresas e o sentimento de exclusão sentido por profissionais negros, em diversas esferas do trabalho.

Tem espaço para todo mundo no futuro? Monique lembrou que pessoas negras muitas vezes são vistas pelo que chamou de "olhar da escassez", em que profissionais negros que se destacam passam a falsa ideia de que há lugar para todos.

Cipó pontuou que, apesar de os profissionais encontrarem caminhos distintos, o apoio da comunidade é essencial. "Ela também dá sentido para as trajetórias individuais, porque é ela que permite isso. É muito louco: por conta da escassez, e de sermos os únicos pretos ali, o mercado de trabalho nos isola. A gente meio que cai de paraquedas. Talvez seja essa a estratégia, isolar a gente", disse ele (ouça abaixo a partir de 15:10).

Cipó lembrou de um evento em que foi convidado e era o único do grupo que não conhecia nenhum dos outros participantes. Ele ressaltou o quanto a construção de redes é importante para a própria sobrevivência no mercado. "Essa história de isolar a gente mina nossas forças e não nos dá a possibilidade de criar redes, porque essas redes já estão estabelecidas. Então, sozinhos nesses lugares, não sobrevivemos. Se a gente sobreviver, vai ser muito difícil", comentou o fotógrafo (a partir de 16:40).

As ações afirmativas de algumas empresas, como a do Magazine Luiza, têm chamado a atenção. Mas será que abrir esses espaços é suficiente para a transformação do cenário de desigualdade racial? Roger concordou que é importante que as empresas entendam que é preciso contratar pessoas pretas, mas ainda há uma distância grande entre as ações e o combate ao racismo estrutural e até para a existência real desses indivíduos nesses espaços. Ele citou um trecho de "Racismo Estrutural", de Silvio Almeida, que afirma que "a representatividade, por si só, não importa".

"Representar apenas essa parte da população, sem que essa população de fato exista nesses espaços, não importa, porque não transforma. A gente ainda não conseguiu negociar a transformação em que a gente faça parte, mesmo", afirmou (ouça a partir de 20:25).

Para Cipó, ainda falta humanidade no olhar dessas organizações. "Elas absorvem de alguma forma, contratam, mas sequer olham para essas pessoas com humanidade. Sequer olham para a gente com a humanidade de entender que temos uma contribuição importante. A branquitude decide em qual momento nos ouve ou não", criticou (ouça a partir de 22:35).

Há uma negociação em meio à guerra? Os dados de violência contra negros ainda são alarmantes. "Nossas crianças negras ainda são tratadas como ameaça e por isso são alvejadas, por isso são encarceradas. É uma condição de guerra. Para o mercado de trabalho, não é diferente. A gente vive a mesma condição e a gente precisa ter consciência disso", disse ele (a partir de 25:18).

Roger Cipó estudou comunicação não-violenta, é fundador da "Olhar de um Cipó" nas redes sociais, projeto que documenta terreiros de candomblé, e é criador da Tindó, série de lives sobre afeto, relacionamento e sexo destinadas ao público negro.

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