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O que houve com a dublagem de 'Guerreiras Mágicas de Rayearth'? Fãs reagem

Anime "Guerreiras Mágicas de Rayearth" - Reprodução
Anime 'Guerreiras Mágicas de Rayearth'
Imagem: Reprodução

Victor Bianchin

Colaboração para o TAB

28/10/2020 04h01

No começo de outubro, quando a Amazon Prime Video colocou no ar, sem aviso prévio, o primeiro arco do anime "Guerreiras Mágicas de Rayearth", a reação dos fãs foi de surpresa. Não apenas a animação japonesa estava de volta como os episódios estavam dublados na versão produzida pelo estúdio Gota Mágica, na década de 1990.

A surpresa, porém, logo virou decepção: o anime está sendo exibido com uma qualidade baixa de vídeo e a dublagem tem partes faltando. Isso levou sites de fãs a especularem abertamente que o áudio da versão da Amazon foi baixado de uma versão pirata de Rayearth disponível na internet.

"Tenho um acervo com áudios e episódios gravados por outros fãs e sei muito bem de onde vem cada um. No mínimo, uma master oficial deveria ter a mesma qualidade de áudio ou superior", afirma ao TAB Maquenzi Graça, designer que cuida da fanpage "Guerreiras Mágicas de Rayearth" no Facebook, uma das que mais protestam contra a versão exibida pelo serviço da Amazon.

As evidências para o argumento de "baixado da internet" não são conclusivas, mas são muitas. A dublagem é inegavelmente a da Gota Mágica - a própria narração, feita pelo ator global Jonas Mello, locutor oficial do estúdio, anuncia "adaptação: Gota Mágica". A abertura e o encerramento do anime têm qualidade inferior em relação ao miolo. De acordo com os fãs, isso acontece porque, na exibição original, em 1996, essas partes não eram exibidas. "Eles pegaram uma master novinha para a abertura e o encerramento e colocaram um vídeo velho no meio", afirma Graça.

A dublagem do Prime também não tem um pedaço da original, as locuções feitas no começo de cada episódio relembrando o que ocorreu no capítulo anterior. Em vez disso, os vídeos do Prime possuem apenas a montagem com a trilha sonora de fundo, sem locução. No site que disponibiliza a série pirateada, os episódios aparecem da mesma forma.

A dona da marca "Guerreiras Mágicas de Rayearth" é a japonesa TMS Entertainment. Ela atua não apenas como licenciante, mas também diretamente como distribuidora para alguns territórios, inclusive o Brasil. A versão da Amazon Prime foi negociada diretamente com a TMS.

Procurada várias vezes por TAB sobre a origem da dublagem, a Amazon se limitou a dizer: "não temos essa informação". A TMS afirma que os arquivos digitais de áudio foram feitos a partir das fitas devolvidas quando os contratos com as antigas distribuidoras de Rayearth no Brasil venceram. Esse é um procedimento padrão: quem encomenda as dublagens para os estúdios são as distribuidoras, mas as fitas e arquivos de dublagem são revertidos para as licenciantes quando o contrato de distribuição se encerra.
O problema é que, no caso de Rayearth, a TMS não sabe especificar exatamente de onde vieram os arquivos de áudio. Isso nos leva a outra parte da história: a complexa relação entre animes e dublagem no Brasil.

Dublagem vencida

"Não nos procuraram. Mas teriam que ter feito isso para acertarmos os direitos", afirma o dublador e diretor Mário Lúcio de Freitas, dono do estúdio de dublagem Gota Mágica. Ele reconhece os episódios e diz que não estava sabendo da exibição do seriado no serviço. Ele pretende entrar em contato com a Amazon para entender como seu trabalho foi parar lá.

"A dublagem pertence sempre a quem a encomendou, mas o estúdio de gravação e os dubladores e diretores que participaram das gravações mantêm seus direitos autorais no caso de elas serem utilizadas posteriormente por outra distribuidora", afirma Freitas. "Nossos direitos autorais estão intactos."

De acordo com a lei 9.610/98, o artista intérprete tem "o direito exclusivo de, a título oneroso ou gratuito, autorizar ou proibir (...) a reprodução, a execução pública e a locação das suas interpretações ou execuções fixadas". O texto também diz: "A reutilização subsequente da fixação, no País ou no exterior, somente será lícita mediante autorização escrita dos titulares de bens intelectuais incluídos no programa, devida uma remuneração adicional para cada nova utilização".

A título de exemplo, vale citar o caso recente envolvendo a distribuidora Sato e o tokusatsu (série japonesa em live action) "Black Kamen Rider", que já havia passado nos anos 1990 pela TV Manchete. Em 2020, a Sato colocou a série no ar na Bandeirantes, mas o dublador Élcio Sodré, que emprestou a voz ao protagonista, conseguiu impedir judicialmente a exibição do programa em setembro, alegando que não foi pago pela nova exibição.

Desfazendo-se em gotas

A Gota Mágica foi fundada em 1993 e funcionou até 1998. Nesse período, o estúdio ficou marcado por adaptar vários animes. Foi na Gota que desenhos clássicos como "Cavaleiros do Zodíaco", "Dragon Ball" e "Sailor Moon Fly" e "Super Campeões" foram dublados originalmente para suas exibições no SBT e na TV Manchete.

Os 49 episódios de "Guerreiras Mágicas de Rayearth" foram exibidos no SBT com a dublagem da Gota Mágica de 1996 a 1998. Na época, quem distribuiu o anime para a emissora de Silvio Santos foi uma empresa americana chamada Alien International. Alguns anos depois, a Alien faliu e outra companhia dos EUA, a Cloverway Inc., adquiriu seu passivo. Em 2007, a Cloverway fechou as portas.

Ao longo desses anos, os fãs brasileiros acreditaram que a dublagem da Gota para Rayearth estava perdida, seja pelas fitas terem sido jogadas fora durante esse passa-repassa de direitos ou por terem sido esquecidas em algum depósito. Era especulação, claro, mas não seria a primeira vez que algo assim aconteceria.

"A dublagem original dos 'Cavaleiros do Zodíaco' foi perdida num incêndio na TV Manchete", conta o dublador e diretor Wendel Bezerra, famoso por dar voz ao personagem Goku em "Dragon Ball". Quando o Cartoon Network resolveu passar "Cavaleiros" em 2003, percebeu que seria impossível utilizar a dublagem original.

Por isso, contrataram o estúdio Álamo para refazer a adaptação e Bezerra para dirigir a empreitada. O estúdio conseguiu manter o elenco. "Alguns atores já haviam falecido e esses inevitavelmente foram trocados, mas 99% do elenco foi mantido", diz.
A dublagem disponível na Netflix é essa versão da Álamo. E, curiosamente, quem distribuiu esse anime para o Cartoon foi a Cloverway. Só que, como Cavaleiros é da Toei, e não da TMS, provavelmente as fitas da dublagem tiveram tratamento diferente e ficaram bem conservadas.

Mas, se nenhum incidente ocorreu e a Cloverway (ou a Alien) realmente devolveu as fitas de Rayearth à TMS, que fim elas levaram?

Comigo não morreu

A resposta é: ninguém sabe. Enquanto a Amazon alega ignorância, Sam Maseba, diretor de licenciamento da TMS, afirma que sua empresa não tem conhecimento de qual estudo ficou responsável pela dublagem brasileira em seus arquivos. Ele diz que a Alien "pode ou não pode" ter fornecido as informações sobre a dublagem quando devolveu o áudio para a TMS. "De qualquer forma, não está no nosso banco de dados", ele conta.

De acordo com a lei brasileira 12.091, de 2009, todo produto audiovisual dublado exibido no país precisa ter o crédito dos envolvidos na adaptação. Essas informações, no entanto, estão ausentes nos episódios de Guerreiras Mágicas de Rayearth no Amazon Prime. "A falta de crédito no Amazon Prime é simplesmente porque não recebemos os cartões de dublagem quando os passivos foram retornados para nós", afirma Maseba. No jargão da dublagem, "cartões" são as telas exibidas nos finais dos programas contendo o crédito dos profissionais envolvidos.

Essa falta de informações que deixa os fãs com tamanha suspeita. Em comparação a outros seriados antigos disponibilizados no Prime, a qualidade de vídeo e de áudio de Guerreiras Mágicas de Rayearth é visivelmente inferior. Enquanto nenhuma das partes envolvidas no contrato prestar mais esclarecimentos, os fãs vão continuar falando que o material foi "baixado da internet".