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Vela para quem merece: cão de rua ganha velório e cremação no ABC paulista

Velório do cão Black no PET Memorial, em São Bernardo do Campo (SP) - Reinaldo Canato/UOL
Velório do cão Black no PET Memorial, em São Bernardo do Campo (SP)
Imagem: Reinaldo Canato/UOL

Mônica Manir

Colaboração para o TAB

10/11/2020 04h01

Para os amigos, Black era o cara. Companheiro, inteligente, sensível, brincalhão, destemido, carinhoso, todo-ouvidos. Aquele velório era o mínimo que podiam fazer pelo ser maiúsculo que ele foi.

Na capela 2 — nem franciscana, nem luxuosa —, quatro poltronas pretas, dois pedestais de granito escuro, uma mesa de apoio com café, água, copos de plástico, papel higiênico, controle do ar-condicionado, fósforos e incensos aguardavam a família de Black.

Rafael foi o primeiro a chegar. Estava sem máscara e parecia engolir o choro. Mal vislumbrou a pequena caixa branca de alças douradas, apertou os olhos com os dedos e caiu num pranto. Deitado de lado, o cão estava coberto com duas mantas, uma de TNT e outra de tecido plissado, decorado com seis flores artificiais e recoberto por um véu de tule.

Aline entrou minutos depois, acompanhada de Clotilde, e agiu como se não fosse a primeira vez. Levantou o véu e passou a acariciar o focinho levemente grisalho do companheiro. Amanda, com expressão doída, coçou o cocuruto dele. Felipe chegou mais pro final da cerimônia e se embicou no espaço de devoção que restava.

O cão era de todos, e não era de ninguém. Vivia na Cristóvão Jaques, uma ruela sem saída em São Bernardo do Campo, região do ABC paulista. Doze anos atrás, chegou como uma bola de pelo negra para morar com uma mãe e dois filhos. Na maior parte do tempo, ficava preso na laje da casa. Quando ganhou o térreo, não aceitou mais voltar para o andar de cima. A família mudou de bairro, e Black permaneceu na rua, que assumiu como sua. Esforços avulsos para botá-lo para dentro foram em vão.

"Ele dava um rolê pela casa, mas logo enfiava o nariz no portão, ficava olhando pra fora, deprimido, não queria comer", lembra Rafael Victor Ferreira, 24 anos, analista de TI. Black recebeu uma casinha na curva lá de baixo e aceitava de bom grado ração, carne e biscoitinhos caninos. Comida com capa de gordura não lhe apetecia. "Teve uma vez que ele esnobou uma costela, acredita?", recordou Rafael, o mais comovido da turma. Um dos presentes destacou os dentes perfeitos de Black, sem tártaro nem nada. Devia ser porque roía madeira, deduziram todos. Era um sem-raça-definida puro-sangue.

O velório corria com o pessoal exaltando as virtudes do falecido, entre um carinho e outro na orelha. Black reconhecia o barulho dos carros do pedaço, e logo atinava quando aparecia um estranho motorizado ou a pé. "Ele era o segurança da Cristóvão Jaques", sentencia o professor de educação física Felipe César de Souza, 26. A bióloga Amanda Alves de Moraes, 36, lembra a importância dele num período difícil, quando ela temia sair de casa. Ao seu lado, Black a encorajou passo a passo a voltar ao convívio dos humanos.

O cachorro cobriu a infância, adolescência, juventude, meia e maior idade da vizinhança de 15 casas. Felipe até achou melhor o pai dele não ter aparecido. "Ia ficar chateado." Mas, há cerca de dois meses, a saúde de ferro do cão deu sinais de falência. Um tumor se agigantava na barriga. A contadora Aline Silva, 25, ouviu do veterinário o diagnóstico de câncer de próstata e linfoma avançado. "Se tivessem deixado castrar o Black quando era jovem, a doença talvez não tivesse aparecido, mas fizeram um escândalo por causa disso por puro machismo", diz.

Com o aval da comunidade, ela achou por bem levá-lo já debilitado para a Chácara Cloric, abrigo localizado na mesma cidade, onde ele passaria seus últimos dias com mais de 120 cães e quase o mesmo tanto de gatos mantido pela amiga Clotilde Anjo de Souza, 74. No sábado, 24 de outubro, Black foi eutanasiado numa clínica. Aline então transferiu para ele o plano preventivo do PET Memorial destinado num primeiro momento para seu cão Moisés ou para sua gata, Lilith, ambos com 9 anos. "Queria dar um final digno ao Black e a oportunidade de as pessoas se despedirem dele", diz.

A contadora mostra outro velório no celular, o do fiel Buck, que faleceu aos 15 anos no dia 23 de agosto de 2019, dia do aniversário dela. Billy veio para a cerimônia, também no PET Memorial, e deu uma última lambida visual no amigo. Amanda até pensou em trazer Snoopy, com quem Black se dava, ou nem tanto. "Não vamos esquecer que o Black era territorialista", alertou Rafael, em nome da verdade. "Mas Snoopy é muito grande e achei melhor não", diz Amanda, meio na dúvida.

Depois de 40 minutos, tempo máximo permitido para o velório, um funcionário do operacional se posicionou discretamente do lado de fora, arauto do doloroso momento de tampar a urna funerária. Os amigos se juntaram em torno do cachorro. Alguns fecharam os olhos, Aline acomodou uma mão sobre a outra. Se fizeram oração, foi para dentro. "Tchau, Blackzinho", pronunciou um deles.

Os cinco saíram devagar, o caixão ainda aberto. Com um celular, um dos funcionários fez um vídeo curto a partir de uma cascata a caminho da capela, terminando no rosto de Black. O crematório mandaria na quinta-feira seguinte a gravação para Aline, sonorizada com uma melodia oriental.

Dois funcionários desceram com o caixão por uma via asfaltada, a tampa solta oscilando ao gingado dos passos, até uma sala com mesa metálica. Black ficaria numa câmara fria até a cremação, quatro dias depois.

Naquele sábado, 31 de outubro, antevéspera de Finados, caía uma garoa fina, clássica do período. Nenhuma alma na capela 1, nem nos jardins. Ninguém falou que Black viraria estrela. Não era o estilo. Mas talvez tenham questionado consigo por que os bons se vão tão cedo.

A bailarina de dança egípcia Giselle Kenj, dona da píton Shiva, que morreu em 2019 - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
A bailarina de dança egípcia Giselle Kenj, dona da píton Shiva, que morreu em 2019
Imagem: Arquivo pessoal

Urnas e São Francisco

Fundado há 20 anos, o PET Memorial é o primeiro crematório de animais de estimação da América do Sul. Orlando Alessi, veterinário e diretor comercial do PET Memorial, afirma que de março a junho de 2020 houve um aumento de 28% nas cremações e 36% nos velórios, em relação ao mesmo período de 2019. Quase 900 cremações e 130 velórios são feitos mensalmente.

Cinco pessoas, como os cinco parceiros de Black, são o comum na cerimônia, embora em tempos de Covid-19 se dê preferência a cerimônias online. É uma audiência muito inferior às 350 pessoas que se revezaram na capela 1 quando do velório do leão Ariel, em 2011.

O felino não é o único bicho extracurricular nessa lista. Afora cães e gatos, e os também populares tartarugas, coelhos, hamsters, porquinhos-da-índia, papagaios e calopsitas, o PET Memorial já cremou um galo de nome Pavarotti e uma píton de 2,80 metros, que tinha 15 anos.

Giselle Kenj, bailarina de dança egípcia, conta que Shiva, a píton de sexo masculino em questão, foi adotada por ela depois da morte de um amigo. O animal parou de respirar em seus braços, em dezembro de 2019. Ela aspergiu as cinzas no mar. "Não sei se existe uma entidade das cobras, mas na hora agradeci pelos momentos intensos e maravilhosos que vivemos", diz.

Cada município ou estado possui uma legislação para regrar as condições de abertura e funcionamento de cemitérios de pets. Rio de Janeiro, em 2016, e Florianópolis, em 2017, autorizaram o enterro de animais de estimação da família em cemitérios públicos e privados, desde que a morte não tenha sido causada por zoonoses. Em São Paulo, a prática foi proibida em 2013. O prefeito Fernando Haddad alegava, entre outros motivos, que a proposta estava em desacordo com uma resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente.

Em 2017, diante da morte de Joe, um pastor-de-shetland de 10 anos, o administrador Mauro Miranda acabou por escolher, pela internet, um cemitério para pets entre Atibaia e Mairiporã (SP), trecho pelo qual passava com certa frequência quando ia pedalar. A remoção foi feita pela equipe do cemitério. Joe foi acomodado numa cova com a caminha e o cobertor, e Miranda colocou uma pedra no terreno para reconhecer o lugar, já que não ofereciam placas de identificação. Passado um ano, no entanto, padeceu de tristeza ao descobrir que no local fora feito um aterramento. Nem sombra restou. "Na minha cabeça, ele voltou para a natureza, mas o que eu tinha de memória parece que foi embora", diz. "O conselho que eu dou é para que as pessoas procurem lugares que vão permanecer."