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Gemidos e sussurros: sites de sons eróticos desafiam a 'ditadura da visão'

Alexander Krivitskiy/Unsplash
Imagem: Alexander Krivitskiy/Unsplash

Felipe Maia

Colaboração para o TAB, de Bilbao (Espanha)

08/11/2020 04h01

A maioria conhece como voyeurismo. Sigmund Freud chamava de "schaulust". O prazer em olhar — ou "escopofilia", para os psicólogos — foi descrito em 1905. O termo caberia perfeitamente no mundo hiperconectado de hoje, em que telas abundam e cenas pornográficas ou simples nudes são commodities baratas. Mas, ao menos nos campos da arte e da ciência, a ditadura da visão vem sendo bastante questionada. Sexo verbal é o estilo de muitos, e sons podem excitar tanto quanto.

Neste universo sônico cabem elementos sutis — como a moldura de um quadro pendurado na parede de um museu. É o caso das técnicas especiais de sonorização de cenas de sexo na série "Normal People" ou do uso da áudio-descrição anunciada pela produtora pornô Sexy Hot. Sem lançar mão de imagens e dando espaço à imaginação, entra nessa onda tudo que é voltado ao que se ouve em matéria de excitação, desejo e sexualidade.

A plataforma WET (Weird Erotic Tension) navega entre arte e som, sound design e experimentos sonoros. O projeto nasceu como parte de "Sex is Pure", de 2018, um dos primeiros sites russos a abordar temas ligados a sexo. "Minha descrição favorita para o WET é 'pesquisa sonora de sexualidade', e isso significa que estou buscando explorações e representações não convencionais, diversas e interessantes sobre o tema", explica Sasha Zakharenko, artista fundador da WET que mora em Berlim.

Disponível como uma página no SoundCloud, o repositório de sons de Zakharenko reúne obras de artistas de diversos países. Na faixa "Female Presenting Anxiety", uma sibilante voz feminina articula com profundidade as sílabas de um texto sobre peles, namoradas e sexo oral. Em "Sweat Drape", respirações entrecortadas, ruídos ásperos e glitches digitais criam uma paisagem sonora tétrica — algo distante dos gemidos que fariam a trilha sonora típica de um filme pornô.

"A ideia é mudar paradigmas de como a sexualidade é percebida e expandir seu significado. Quanto mais obscuro e estranho for o som, melhor", diz Zakharenko. "A relação com a sexualidade pode ser muito abstrata, e eu estou interessado na subjetividade dessa questão."

Menos abstrato, mas igualmente subjetivo é o projeto Orgasm Sound Library, a Biblioteca Sonora do Orgasmo. A plataforma é exatamente o que diz o nome: um grande acervo online e gratuito de trechos de áudio registrando o ápice sexual. Nas vozes de mulheres de todo o mundo, gravações anônimas registram gritos, gemidos e sussurros organizados segundo etiquetas como #Deep, #Clitoris e #Explosive.

"A biblioteca é uma forma de reivindicar o prazer e mostrar dados sobre a sexualidade", explica Elsa Viegas, co-fundadora do projeto. A ideia surgiu logo que ela criou a empresa de sex toys Bijoux Indiscrets, junto da sócia Martha Aguiar. "Lançamos o primeiro vibrador e nesse momento fomos confrontadas por uma série de perguntas de mulheres sobre como se usava aquilo. Vimos que a pornografia tinha criado mitos sobre o sexo como, por exemplo, que para se ter prazer era preciso haver muito barulho", afirma Viegas. "Por isso pensamos em uma maneira de falar sobre esses temas."

Painel para escuta de orgasmos reais em sex shop das Bijoux Indiscrets, na Espanha - Divulgação - Divulgação
Painel para escuta de orgasmos reais em exposição da Orgasm Sound Library no espaço Ciento y Pico, em Madri
Imagem: Divulgação

Iniciado em 2016, o projeto logo teve projeção na Espanha, onde a empresa da dupla está sediada, e chegou a acumular meio milhão de visitas ao mês conforme ganhava visibilidade internacional. Hoje a biblioteca tem mais de dois mil orgasmos registrados em áudio. Cada um deles é acompanhado por uma representação gráfica em que as frequências sonoras do momento de gozo se transformam em círculos de diferentes tons, cores e formas.

"Quando criamos isso, pensei: 'mas quem vai mandar áudio pra essa plataforma!?", lembra Viegas, que aprova todas as gravações junto de sua equipe antes de deixá-las disponíveis na biblioteca. Para ela, a sexualidade masculina está muito condicionada a agir de um modo ou de outro. "Acho que o som está vinculado a isso: ele é encarado como uma debilidade, uma coisa feminina."

Quatro anos após sua fundação, a Orgasm Sound Library segue ganhando públicos em uma outra tendência articulada entre som e prazer: a audio erotica. Essa categoria do registro sonoro tem ganhado espaço ao se enquadrar como um misto de podcast, ASMR, gravações íntimas e pequenos clipes de áudio.

Se a pandemia reduziu drasticamente a atividade em aplicativos de paquera, tipo Tinder e Bumble, ela também colaborou para o crescimento do mundo da audio erotica. Serviços como Quinn ("o Spotify da pornografia", segundo a fundadora Caroline Spiegel) e Dipsea (plataforma de audiocontos sensuais) viram o número de usuários crescer desde que o isolamento social mudou as relações interpessoais em todo o planeta.

"A pornografia deixa pouco espaço para a imaginação, e o áudio, ao contrário, dá mais espaço à imaginação", teoriza Viegas. "Quero acreditar que a audio erotica é uma forma de escapar e levar longe nossa mente, trazer algo bom para as pessoas."

A fronteira do som

De sua casa em São Paulo, o pesquisador brasileiro Leonardo Mariano Gomes teve de passar algumas noites em branco, nos últimos meses. Ele colaborou com a pesquisadora Angelina Aleksandrovich, de Londres, num projeto de interface de realidade virtual para experiências sexuais. O sistema envolve óculos de imersão em ambientes digitais, acessórios de resposta tátil, essências olfativas e, claro, fones de ouvido. Tudo fica conectado a uma espécie de mochila.

O projeto foi posto à prova em 140 voluntários. Em salas fechadas, os participantes vestiam o aparato e recebiam estímulos sensoriais da máquina segundo comandos de software ou de um parceiro. "Sempre que acontecia algo no espaço físico, havia uma resposta no espaço virtual", explica Leonardo. "Assim foi possível mapear em que parte do corpo a pessoa estava se tocando e isso dava respostas diferentes a ela, como por exemplo diferentes tipos de som."

Os resultados, publicados em agosto por Angelina e Leonardo em uma revista científica de robótica, mostraram que a audição foi o segundo fator mais importante para a excitação dos participantes durante o experimento, atrás apenas da visão. No caso dos experimentos de casais, a importância de ambos sentidos foi quase a mesma. Os participantes eram indivíduos do gênero masculino e feminino, em proporções quase idênticas.

Imagem sugerida pelos estímulos do experimento de Leonardo Gomes e Angelina Aleksandrovich de realidade virtual para experiências sexuais - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem sugerida por realidade virtual em experimentos sensoriais de Leonardo Gomes e Angelina Aleksandrovich
Imagem: Arquivo pessoal

"Esse projeto mostrou que há dependência entre os estímulos para causar excitação sexual", diz Gomes. "Por exemplo: sempre foi dado como certo que homem é mais 'visual' e mulher é mais 'auditiva', mas não é bem assim."

O pesquisador acredita que a evolução dos sex toys esteja em compasso com o binômio som e sexualidade. Em vez de apenas emular uma situação entre quatro paredes, a ideia é criar novas experiências. Por isso, dispositivos vestíveis como pulseiras, relógios e fones de ouvido têm recebido especial atenção da indústria dos brinquedos sexuais.

Projetos como a WET e a Orgasm Sound Library mostram que os experimentos de som e sexualidade estão na seara das artes, da sociologia ou mesmo da publicidade. Por isso mesmo, essa é uma tendência que deve ganhar espaço nos próximos anos. "No mundo dos sex toys, o que vai vir a seguir vai ser o paladar antes do olfato", diz Gomes. "Mas o som já é algo que está acontecendo."