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Altinha no Rio: a história de um profissional de um esporte amador

Leonardo Carvalho, instrutor de altinha, dá aula do esporte na praia de São Conrado, no Rio, para a aluna Michelle Veríssimo. - Lucas Landau/UOL
Leonardo Carvalho, instrutor de altinha, dá aula do esporte na praia de São Conrado, no Rio, para a aluna Michelle Veríssimo.
Imagem: Lucas Landau/UOL

Elisa Soupin

Colaboração para o TAB, do Rio

10/01/2021 04h00

O sol estava quente quando Leonardo Carvalho chegou para trabalhar na praia de São Conrado, zona sul do Rio. Apesar do calor daquela terça-feira (5), a praia estava vazia. O mar por ali não costuma ser próprio para banho por receber galerias pluviais, e são poucos os que se aventuram a mergulhar. Mas, para ele, as condições do mar não fazem muita diferença: é na areia, ensinando altinha, que ele ganha a vida. Para quem não está familiarizado, o esporte consiste em, como o nome sugere, manter a bola no alto, sem deixar cair, pelo máximo de tempo. Diferente da embaixadinha, que é um tipo de movimento para não deixar a bola cair, a altinha é um esporte coletivo e de movimentos mais variados.

No dia em que a reportagem de TAB o acompanhou, a aluna é Michelle Veríssimo, mulher de Leonardo. Ele tem 28 e ela 27 anos, e os dois são moradores da Rocinha, favela que fica no mesmo bairro. O instrutor tem os cabelos platinados e as unhas pintadas de preto, e carrega, em uma mochila pequena, todo o equipamento de trabalho de que precisa: uma bola e quatro partes de cima de galões de água recortados, usados para demarcar na areia a área em que os exercícios serão feitos.

RIO DE JANEIRO, RJ, BRASIL, 09-12-2020, 15h30: O instrutor de altinha Leonardo Carvalho dá aula do esporte na praia de São Conrado, no Rio de Janeiro, para a aluna Michelle Veríssimo. - Lucas Landau/UOL - Lucas Landau/UOL
Leonardo Carvalho, em aula
Imagem: Lucas Landau/UOL

'A habilidade estava lá'

O treino começa por volta das 9h30. O instrutor ensina primeiro o movimento chapa -- principal fundamento da altinha. Uma, duas, três, dez repetições com o pé direito, mais dez com o esquerdo; Leonardo acompanha os movimentos e vai corrigindo imperfeições, elogiando as evoluções. O fundamento seguinte é a coxa; depois, o ombro ("ajeita a perna, que a perna faz toda a diferença no ombro"), depois testa ("mais devagar, sem pressa"), e assim segue. Debaixo do sol, a aluna vai se cansando e os 60 minutos de treino parecem tempo demais.

Há pouco mais de dois anos, Leonardo tomou uma decisão profissional difícil em nome da paixão pelo esporte: resolveu deixar o trabalho como garçom em bares e restaurantes da zona sul do Rio para tentar ganhar a vida com a altinha. Ele conta que sempre gostei de jogar. "Quando era criança, vinha à praia com minha mãe, via os caras jogando e queria também, só que, como eu era moleque, eles jogavam forte pra mim, para que eu derrubasse a bola mesmo, mas eu tinha facilidade, treinava muita embaixadinha em casa", lembra.

Por volta de 2012, mais velho, parou de jogar. "Abandonei. Comecei a trabalhar, dificultou muito. O trabalho no restaurante paga melhor que a média, que é o salário mínimo, porque tem a comissão, mas não tem vida. Tem dias que você chega 9h e sai 2h da manhã. Então eu praticamente parei de pegar praia", explica.

Em 2018, o convite de uma amiga o reaproximou do esporte da infância e adolescência. "Ela me conhecia, sabia que eu jogava bem e me chamou para jogar um campeonato aqui mesmo em São Conrado e ali eu tive uma dimensão do que a altinha tinha se tornado. Antes, era uma brincadeira de praia, um esquenta para o futebol, para esperar enquanto o pessoal ia chegando. Ali, eu vi que virou esporte, vi pessoas jogando muito, gente de outros estados, nesse dia fiquei emocionado e decidi: pronto, é isso que eu quero fazer", conta ao TAB. A habilidade estava lá, intacta.

Leonardo Carvalho durante sua aula - Lucas Landau/UOL - Lucas Landau/UOL
Leonardo Carvalho durante sua aula
Imagem: Lucas Landau/UOL

Treino particular a R$ 25

Leonardo não tem formação em Educação Física e a ideia de dar aulas veio de tanto receber pelo Instagram pedidos de dicas que ajudassem no jogo. "Uma galera de vários outros estados me escreve perguntando como melhorar esse ou aquele aspecto. Aí, quando vi que conseguia ajudar as pessoas mesmo de longe, achei que conseguia fazer aqui perto e fui falando com um amigo ou outro", diz ele. Foi dando certo. Os alunos chegam no boca-a-boca, e a aula, individual e personalizada, custa R$ 25 a hora.

"Não preciso cobrar mais. Acho errado cobrar muito caro por uma coisa que não é difícil de ensinar, e o aluno não faz só uma aula por semana. Acho que mais pessoas não praticam porque muita gente cobra caro demais e aí a galera prefere só jogar por lazer mesmo, e não aprender como esporte", afirma ele, obrigado pela profissão a lidar com as intempéries do tempo: se chove, não tem aula; no calor de meio-dia, também fica mais difícil. Verão é a melhor fase. Já a areia é ideal, porque em muitas manobras o jogador cai. "Fica muito mais confortável para jogar", explica ele, que garante, ainda, que não é preciso saber jogar bola para começar na altinha: dá para aprender do zero.

Com dois filhos para sustentar, nem sempre é fácil bancar a decisão da mudança de carreira e o apoio da esposa contou bastante, porque no começo o dinheiro era raro. "Sem notoriedade, não tem aluno. Então, quando resolvi mudar, o dinheiro que fiz com a altinha foram de prêmios em campeonatos, e aí fiquei dividido entre pegar alguma coisa em restaurante e dar aula. Foi uma transição meio árdua. Sem minha mulher para apoiar, eu teria continuado a trabalhar em restaurante, sem conseguir viver direito", diz. O apoio de Michelle, que é fotógrafa, vai além do financeiro. Ela entende a necessidade de dedicação e treino e cuida das crianças em dias de competição, que muitas vezes são longe e duram o dia inteiro.

A popularidade da prática em terras cariocas -- que no ano passado alçou a altinha ao status de patrimônio imaterial da cidade -- ainda não ajudou a transformar o jogo em um esporte federado. Leonardo explica que, na prática, isso complica a vida de quem joga. "Faz muita diferença, porque em cada lugar a regra do campeonato é de uma forma. O critério de avaliação depende de quem organiza o evento. Se houvesse uma federação, todas as competições teriam o mesmo padrão", diz ele.

Um dos fundamentos básicos da altinha, de acordo com o instrutor - Lucas Landau/UOL - Lucas Landau/UOL
Um dos fundamentos básicos da altinha, de acordo com o instrutor
Imagem: Lucas Landau/UOL

De hobby a esporte

Uma competição de altinha não é como uma prova de resistência do BBB -- onde os últimos a deixarem a bola cair ganham. Está mais para ginástica artística. "As equipes são compostas por 4 atletas, sendo no mínimo uma mulher. O time se apresenta para os jurados por cinco minutos e é avaliado em um ranking. Os critérios variam, mas costumam ser harmonia, agressividade, controle de bola, criatividade e dinâmica", explica ele. Quando há empate entre as equipes, a decisão vai para o mata-mata.

Apesar de toda a categorização e critérios, o não reconhecimento ainda relega a altinha a algo amador, embora haja técnica e fundamentos envolvidos. "Queria ver o esporte reconhecido, queria ver os jogadores vivendo de altinha como atletas", diz ao TAB.

A rotina de Leonardo com a altinha continua quando os treinos se encerram. Isso porque ter feito do hobbie um ganha-pão não o deixou menos ávido por jogar. "Sou muito fominha com altinha. Se tiver jogo e der para ir, eu vou. Hoje mesmo tem no Leme."