PUBLICIDADE

Topo

Como a youtuber Si Liao se tornou professora pop de mandarim no Brasil

A chinesa Si Liao, criadora do canal Pula Muralha - Divulgação
A chinesa Si Liao, criadora do canal Pula Muralha Imagem: Divulgação

Juliana Sayuri

Colaboração para o TAB, de Toyohashi (Japão)

25/12/2020 04h01

Quando Si Liao era pequena, o mundo era pequeno. Nascida em uma cidade do interior da China, ela costumava caminhar perto de sua casa e imaginar o que existiria além-mar. "Do outro lado estaria o Japão. Na época, o mundo se resumia a China e Japão para mim", lembra Si, 33, ou melhor, Sisi, como é conhecida.

Na verdade, a cidade "do interior" era Yuè Yáng, que conta mais de 5 milhões de habitantes (é maior que Brasília, que tem 3 milhões). O "mar" era o lago Dòng Tíng Hú, um dos maiores da China — e, do outro lado dele, há mais China.

Se as lembranças da infância na província de Hunan ganham outra dimensão, as da juventude na província de Hubei não ficam para trás. Sisi se mudou para a metrópole de Wuhan para estudar Literatura e Língua Chinesa na Universidade de Hubei, a uma hora de trem-bala de sua cidade natal. Mal sabia ela que, ao longo da década de 2000, o ensino de mandarim se tornaria tendência internacional. Que, em 2011, a China ultrapassaria o Japão e se tornaria a segunda potência econômica do mundo. E que Wuhan, em 2020, se tornaria o primeiro epicentro de uma pandemia histórica, a atual, de Covid-19.

Sisi apostou: decidiu se especializar no ensino de mandarim para estrangeiros e emendou um mestrado em Linguística na universidade que, mediante o Instituto Confúcio, mantém uma parceria acadêmica com a Unesp (Universidade Estadual Paulista) — o instituto é o órgão no Brasil autorizado pelo governo da China a realizar os exames de proficiência de língua chinesa.

Wuhan foi onde tudo começou - Getty Images - Getty Images
Mulher em estação de Wuhan, onde tudo começou
Imagem: Getty Images

Foi assim que, aos 24, Sisi cruzou o mundo pela primeira vez, em fevereiro de 2011. "Foi a primeira vez que saí da China. Literalmente. Foi minha primeira viagem de avião, um percurso de mais de 30 horas de Wuhan para Pequim, depois Madri, até desembarcar no aeroporto de São Paulo", recorda ela, hoje instalada na Vila Mariana. A ideia era dar aulas de mandarim no instituto por dez meses. Já se passaram quase dez anos.

Sisi decidiu ficar por diversos motivos. Gostou do clima (mais ameno que o tempo temperadíssimo dos rincões da Ásia, com verões escaldantes e invernos congelantes) e dos brasileiros, de alunos de 15 a 60 anos a amigos que a levavam para passear no Parque Ibirapuera e a experimentar feijoada nos bares e frutas nas feiras — os feirantes, lembra, sempre a surpreendendo com expressões como "ô, minha filha" e "flor", que inicialmente ela estranhava por tomar ao pé da letra. Mas um brasileiro, em especial, lhe deu mais um motivo para ficar: o jornalista Lucas Brand, um de seus primeiros alunos, que já trabalhou no Estadão, nos portais R7 e G1 e no Manual do Mundo. "Virou amizade, virou amor", diz Sisi à reportagem do TAB, por Google Meet.

A chinesa Sisi Liao e seu marido, Lucas Brand, em Macau. Sisi é criadora do canal Pula Muralha, onde ensina mandarim e fala sobre a cultura chinesa - Divulgação - Divulgação
A chinesa Si Liao e seu marido, Lucas Brand, em Macau
Imagem: Divulgação

No fim de 2012, foi a vez de Lucas se aventurar na China. Ele se despediu das redações, conquistou uma bolsa e foi estudar chinês na Universidade de Hubei. Não muito tempo depois, ela voltou para concluir o mestrado e lá ficaram, ao longo de 2013. De volta ao Brasil, em 2014, eles fundaram o Pula Muralha, no YouTube, um canal de curiosidades sobre cultura chinesa e lições básicas de mandarim. Lucas, a princípio atrás das câmeras; Sisi, à frente, em quase todos os vídeos, apresentando-se assim: "chinesa da China mesmo".

Segundo Sisi, o aposto se impôs pois, de primeira, muitos questionavam se ela era chinesa de fato ou descendente nascida no Brasil — ela estudou português por quatro meses antes de se mudar para o Brasil, depois, junto a amigos brasileiros, continuou aprendendo no dia a dia e, vai por mim, ela manja dos paranauê da língua de Camões. Fez-se assim um bordão sino-brasileiro.

O mundo de Sisi se abriu mais uma vez. "Lucas me dizia: você está na internet, você pode ensinar chinês para o Brasil todo, para o mundo inteiro", conta ela, que na época estava dando aulas em uma escola de idiomas e iniciando outro mestrado, desta vez em Relações Internacionais.

De olho no mercado, eles decidiram catapultar o Pula Muralha, que passou de um canal no YouTube para uma startup "edtech", de ensino de mandarim online, com material didático próprio e mais de 40 mil inscritos no Clube de Chinês. O primeiro passo foi uma campanha de crowdfunding, em 2015, para produzir as Cartas Mágicas de Chinês, uma série de 60 ilustrações com ideogramas que, combinados, podem compor mais de 140 palavras. A ideia era angariar R$ 26.888; ao fim, a campanha saltou e totalizou R$ 44.731. A plataforma reúne videoaulas no YouTube, cursos online e aulas particulares.

Wuhan, weiji e chu xin

Lucas e Sisi se casaram em 2016, na China. Filha única, há tempos longe de casa, Sisi queria apresentar o Brasil a seus pais, que não tinham passaporte e nunca tinham cruzado as fronteiras da Ásia. "Eles diziam sempre: looonge, muito, muito longe". Ela insistiu e a família foi visitá-la em 2018.

Foram 35 dias de férias. Joviais, o pai, 59, e a mãe, 56, experimentaram quitutes tupiniquins (coxinha, o preferido), viajaram e viram pela primeira vez o que é o trabalho da filha. Como na China não há acesso ao YouTube, eles não conseguiam entender o que é ser youtuber e como é possível ensinar mandarim na internet. E viram o potencial de Sisi, que se tornou uma professora pop de mandarim no Brasil.

No YouTube, o Pula Muralha está na casa de 700 mil seguidores. Pré-pandemia, quando o vírus 2019-nCoV (que só depois seria batizado de Sars-Cov-2) ainda estava concentrado na Ásia, Sisi publicou vídeos compartilhando informações acerca de Wuhan — entre eles, um aborda fake news e preconceito contra amarelos mundo afora: #EuNãoSouUmVírus era a hashtag da época, uma resposta aos discursos xenofóbicos e às teses conspiratórias contra chineses. "Era inacreditável."

Mas o mundo dá voltas. Se entre fevereiro e março Sisi estava preocupada com a família e os amigos na China, agora são eles que estão preocupados com a pandemia no Brasil, que já ultrapassou a marca de 7 milhões de infectados e 180 mil mortos por Covid-19. Com lockdown rigoroso e testagens, o gigante asiático conseguiu controlar o surto a partir de abril — Wuhan inclusive se tornou um polo turístico.

Além de amigos e família, o que ela mais sente saudade de lá é da comida — "é bom demais, por isso tem tanta Chinatown por aí", diz. De outro lado, o melhor do Brasil é o brasileiro: como imigrante, ela diz que sente que o país sul-americano é mais acolhedor e aceita melhor as diferenças. "Carinho" é sua expressão favorita em português, que não existe em mandarim.

A chinesa Sisi Liao e seu marido, Lucas Brand. Sisi é criadora do canal de YouTube Pula Muralha, onde ensina mandarim e fala sobre a cultura chinesa - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

Quarentenada desde março, Sisi não vê a hora de voltar a sair. Em 2021, gostaria de voltar a viver na China por um tempo, para investir em novos projetos profissionais. "Mas depende da pandemia, né?", diz ela, sorrindo como quem deixa escapar um suspiro de otimismo diante de uma tempestade tenebrosa. "Sisi tem uma energia positiva que desde sempre me chamou muita atenção. Se ela fosse uma coisa, seria um sorriso", define Lucas.

"Weiji?" é a palavra preferida de Lucas em mandarim. Em tradução simples, quer dizer crise. "Mas em chinês é muito mais interessante: 'wei' significa 'perigo' e 'ji' significa 'oportunidade'. É uma palavra muito simbólica, que mostra como a gente pode se reconstruir em momentos de crise", justifica. Já Sisi prefere "chu xin", que significa motivo original. "Vem da expressão com que eu mais me identifico, algo como 'se você não esquecer seu motivo do início, vai caminhar longe'", diz. Às vezes, literalmente longe.