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Como é viver no maior clube naturista da América Latina

Da esq. para a dir.: Glacy Machado, Luiz Inácio Jaiger e Sabrina Teixeira, no Colina do Sol, em Taquara (RS) - Luciano Nagel/UOL
Da esq. para a dir.: Glacy Machado, Luiz Inácio Jaiger e Sabrina Teixeira, no Colina do Sol, em Taquara (RS)
Imagem: Luciano Nagel/UOL

Luciano Nagel

Colaboração para o TAB, de Taquara (RS)

07/01/2021 04h01

O interior de Taquara, cidade pacata na subida da serra gaúcha, guarda há 25 anos um clube de naturismo, um dos maiores da América Latina. Entre as araucárias frondosas e o campo verde, cerca de 200 sócios e moradores praticam, sem pudor, a nudez social. Crianças, jovens, adultos e idosos passeiam, nadam, se exercitam e vivem ali nus. Fazem compras pelados. Jogam futebol. Cozinham. E vivem ali muito bem.

De acordo com os administradores do clube, o valor da joia (inscrição) é de R$ 1.500, e existem três categorias de associados: sócio mensalista paga R$ 125 e pode usar a infraestrutura do clube; sócio residencial e associado patrimonial tem direito de concessão do terreno e construção de uma cabana.

A reportagem do TAB visitou a vila naturista Colinas do Sol antes das festas de final de ano e conferiu a rotina das famílias e frequentadores da reserva, que tem área verde de 50 hectares, cerca de 60 chalés em estilo rústico, camping, pousada, mini-mercado, restaurante, quadras esportivas e até praia artificial.

Algumas regras devem ser seguidas: proíbem-se comportamento sexual ostensivo, gestos obscenos, assédio ou propostas com conotação sexual. Usar roupas íntimas ou de banho em áreas comuns também não pode. Qualquer visitante é bem-vindo, mas é preciso primeiro marcar com antecipação a visita, por telefone ou e-mail, preencher um formulário de identificação e, claro, aceitar as normas. Ter familiares, amigos ou conhecidos que frequentam a associação favorece o hóspede. Na chegada, um funcionário do clube convida o visitante a assistir a um vídeo de curta duração sobre a ética e o regulamento interno da associação.

Perdendo o medo

Luiz Inácio Gaiger, 62, é professor de sociologia e presidente do clube Colina do Sol. Junto de sua companheira Sabrina Teixeira, 30, e da amiga Glacy Machado, 70, recebeu o TAB em sua cabana. Entrecortada pela cantoria dos sabiás, a conversa rolou no pátio a céu aberto. Despidos como vieram ao mundo, eles contaram suas primeiras experiências com a nudez social.

"Minha irmã mais nova foi quem me trouxe para cá. Ela já estava com essa onda de ser naturista e me deu um ultimato. Era seu aniversário e nós, os familiares, tínhamos de vir à Colina para a festa, mas não precisaríamos estar nus na ocasião", conta Gaiger.

Luiz foi à festa na companhia dos pais e da avó. No chalé, a mana fazia um churrasquinho, pelada, ao lado do namorado e de alguns amigos. "Foi a primeira vez que a vi nua na fase adulta, entende? Foi um primeiro choque, digamos assim, e meus pais, minha avó, engoliram a seco tudo aquilo, mas aproveitando a tal experiência'', lembra ele, aos risos. A cena, um tanto cômica, ocorreu em 1995, quando Luiz havia recém-chegado da Bélgica.

Placa no Colina do Sol, em Taquara (RS) - Sabrina Teixeira/UOL - Sabrina Teixeira/UOL
Placa no Colina do Sol, em Taquara (RS)
Imagem: Sabrina Teixeira/UOL

Depois do churrasco, a irmã de Luiz convidou a família toda para passar a noite na cabana, ao invés de retornar a Porto Alegre. A condição seria passear pelo condomínio nu, no dia seguinte. Era junho e a temperatura estava amena, tipo veranico gaúcho em pleno outono, o suficiente para se despir e tomar um sol à beira do lago sem passar frio. Entre todos, o único que aceitou a provocação foi ele. Depois de ficar horas entocado na cabana, Luiz pensou: "Azar... Tenho de ir à praia [de água doce], vou sem roupa porque sei que minha irmã está contando com isso e não quero passar esse papelão, de bermuda feito um idiota".

"Depois que tu quebras a parede, esse tal de muro invisível — de ficar nu perante os outros —, tu perdes o medo. Muita gente tem esse desejo contido e quando chega aqui, vai desfrutando aos poucos", diz o professor, que desde março de 2020 permanece em isolamento no Colina, ministrando aulas e atendendo aos alunos remotamente. Vez ou outra, o naturista deixou a cabana para resolver pepinos na capital, mas sempre retornando para seu "alvéolo", quase escondido em meio à mata.

Há naturistas que residem no clube desde sua fundação, nos anos 1990. Entre eles, médicos, enfermeiros, professores, artistas plásticos, aposentados e até mesmo militares — alguns vêm do exterior, como Argentina, Chile e Portugal.

A jornalista Sabrina Teixeira é atendida por Etacir Manske e Veronica Rodrigues, no mini-mercado do Colina do Sol, condomínio naturista em Taquara (RS) - Luciano Nagel/UOL - Luciano Nagel/UOL
A jornalista Sabrina Teixeira é atendida por Etacir Manske e Veronica Rodrigues, no mini-mercado do Colina do Sol
Imagem: Luciano Nagel/UOL

A servidora pública aposentada Glacy Machado conta que conheceu o clube naturista quando cursava pedagogia, em 1998. "Achei aquilo incrível. Será mesmo que existe um lugar assim no Brasil, onde eu possa ficar nua?", perguntava a si mesma. Glacy pensava que poderia praticar o naturismo somente em países europeus.

À época, Machado vivia com os pais. "Minha mãe era muito conservadora. Fomos vê-la nua depois de idosa, tendo de cuidar dela." Ela admite ter ficado impressionada quando colocou os pés no clube pela primeira vez. O convite foi feito por um colega do curso de pedagogia, e sem titubear, ela aceitou.

O artista plástico Justimiano Arnoud Neto, que mora no Colina do Sol, em Taquara (RS) - Luciano Nagel/UOL - Luciano Nagel/UOL
O artista plástico Justimiano Arnoud Neto, que mora no Colina do Sol, em Taquara (RS)
Imagem: Luciano Nagel/UOL

"Eu olhava no rosto as pessoas nuas, na prainha, não olhava para baixo (risos). Demorei um certo tempo para ficar sem roupa, porque tinha constrangimento com meu corpo. Via minha barriga e pensava: 'não vou tirar a roupa de jeito nenhum na frente de todos'." Ela contou ter pensado fazer uma lipoaspiração para modelar o corpo, mas a vontade ficou para trás. Glacy é sócia da instituição e aluga uma cabana ali — é possível alugar na modalidade day-use ou até arrendar os chalés (a maioria de 2 andares).

Para a associada, o mais difícil foi enfrentar o preconceito do lado externo do clube — família, amigos, ex-colegas de trabalho. A naturista lembra do dia em que revelou à mãe que frequentava um clube onde associados passavam o dia inteiro despidos. A reação da mãe foi imediata. "Onde foi que errei?", questionava, envergonhada. Glacy Machado conta que já perdeu amigos e contatos com familiares que não aceitaram seu estilo de vida.

Um dos típicos chalés do condomínio naturista Colina do Sol, em Taquara (RS) - Luciano Nagel/UOL - Luciano Nagel/UOL
Um dos típicos chalés do condomínio
Imagem: Luciano Nagel/UOL

Sem passar calor

Depois do café, foi a vez da jornalista Sabrina Teixeira levar a reportagem de TAB para conhecer as demais instalações do clube. Sabrina frequenta o Colina do Sol desde 2013 e admite não ter tido dificuldade de adotar a nudez cotidiana. "Da primeira vez, vim com mais duas amigas e o Luiz Inácio. Estávamos de canga e, aos poucos, durante a caminhada, fomos tirando, pois estava muito calor."

O casal de argentinos Eduardo Heuberger, 70, e Gladys Minassian, 63, no condomínio Colina do Sol - Luciano Nagel/UOL - Luciano Nagel/UOL
O casal de argentinos Eduardo Heuberger e Gladys Minassian
Imagem: Luciano Nagel/UOL

No meio do caminho, enquanto íamos conhecer as outras dependências do clube, Luiz se dispersou e foi jogar tênis de praia com os amigos. Glacy foi para sua cabana, do outro lado da prainha, preparar uns pastéis de maçã. Próximo às quadras de esportes encontramos o casal de argentinos Eduardo Heuberger, 70, e Gladys Minassian, 63. Os sócios passeavam tranquilamente em uma estreita rua para desfrutar o belo pôr do sol.

Eduardo explicou que aderiu ao naturismo quando visitou, há cerca de 30 anos, a praia do Pinho, no norte de Santa Catarina, considerada a primeira praia de naturismo do Brasil. Ficou encantado com a simplicidade das famílias que costumavam frequentar o balneário, despidos de roupas e rejeição.

"Havia famílias completas na praia. Eram pais, mães, filhos. As meninas jogando tênis de praia e jovens nus jogando vôlei, tomando banho de sol. Era algo em que não podíamos crer, pois na Argentina não era assim", lembrou Heuberger, que vive no clube desde 1995 (ele foi o primeiro sócio do Colina do Sol). Na avaliação de Eduardo e sua companheira Gladys, existe uma grande diferença entre nudismo e naturismo. "Nudismo é exibicionismo. Naturismo é uma filosofia de vida em harmonia com a natureza."

Glacy Machado nada na prainha do Colina do Sol, em Taquara (RS) - Luciano Nagel/UOL - Luciano Nagel/UOL
Glacy Machado nada na prainha
Imagem: Luciano Nagel/UOL

Outro seguidor que conheceu os encantos da Colina do Sol e chegou para ficar foi V.F.*, de 56 anos. O entrevistado é natural do município de Bento Gonçalves, na serra gaúcha, e frequenta o clube com seu companheiro há 3 anos. V.F. jogava tênis de praia com outros naturistas. Estavam todos nus.

Ele não vê malícia no ambiente em que convive. "Aqui no clube todos os sócios se respeitam, não há discriminação de sexo, cor de pele? A maldade não está na roupa que vestimos, e sim no ser humano. Nossa sociedade julga muito as pessoas pelas aparências", afirmou o supervisor de produção industrial, durante a pausa do jogo. Entre uma partida e outra, famílias com crianças assistiam a disputa sentadas em cadeiras de praia e alguns se revezavam nas raquetes. Ao longo de todo o dia, a reportagem de TAB manteve-se vestida (e passando calor).

* nome protegido a pedido do entrevistado