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Tipo BBB: confinamento de tiktokers em mansão mistura luxo e perrengues

TikTokers na PlayHouse, no Guarujá (SP) - Nicolle Cabral/UOL
TikTokers na PlayHouse, no Guarujá (SP)
Imagem: Nicolle Cabral/UOL

Nicolle Cabral

Colaboração para o TAB, do Guarujá (SP)

13/11/2020 12h01

Por vontade (e vantagem) própria, 25 jovens estrelas do TikTok ficaram confinadas por 10 dias numa casa de 2.800 m², localizada em um condomínio fechado no Guarujá, no litoral sul de São Paulo. A missão: produzir conteúdo na rede social mais popular de 2020, dividindo espaço com outros influencers para multiplicarem, juntos, os seguidores.

Inspirado pelos modelos de mansões coletivas de tiktokers em Los Angeles (EUA), que valem milhões de dólares e de seguidores, o youtuber e cantor Luis Mariz, 21, reuniu grandes fenômenos virais brasileiros da plataforma na praia. A PlayHouse é a primeira casa coletiva brasileira a reunir criadores de conteúdo que pensam, essencialmente, na dinâmica do TikTok.

Mariz conta que ficou preso nos Estados Unidos, no início de 2020, por causa da pandemia. Foi até a HypeHouse e gravou com alguns tiktokers. "Vi tudo muito de perto e pensei: 'Isso tem que acontecer no Brasil. Vou juntar a galera que eu admiro e colocar todo mundo em uma casa'", explica ele, em entrevista ao TAB, sem fazer qualquer alusão à inspiração inconsciente: Big Brother Brasil.

Uma das participantes deixou a casa, Ouvida pelo UOL Splash, disse que o organizador teria reunido os convidados e perguntado quem toparia participar de tretas e formações de casal para dar uma movimentada no enredo do confinamento.

@pablotoneti

help @luismariz @gianamello @laryycardoso

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Ponto de vista

A reportagem de TAB foi até o Guarujá na sexta-feira (6) descobrir se era possível estar mais por dentro do TikTok dividindo espaço com famosos da plataforma. Na data, 21 participantes seguiam no jogo — ops, na casa. Ao todo, os tiktokers remanescentes arrebanham 36,7 milhões de seguidores.

Esta jornalista que vos fala passou os últimos meses desbravando o feed infinito da plataforma, cheio de músicas com trechos chicletes, dancinhas, desafios de maquiagem, esquetes de comédia e points of view (POV) com Tom Felton como Draco Malfoy ou com Tom Holland de Homem-Aranha. Em resumo, minha vitrola mental se transformou em uma playlist do feed do TikTok.

Localizada entre as casas luxuosas do condomínio Acapulco, a mansão de número 596 não apresenta nenhum atrativo visual indicativo de que ali se concentrava um grupo de influencers com números exorbitantes de seguidores e fãs alucinados.

A fachada branca, adornada por arbustos, dá para uma piscina ladeada por espaço verde suficiente para abrigar um campo de futebol improvisado. Algumas roupas secavam no varal. As janelas dos quartos estavam entreabertas e a sala estava nua; praticamente não havia objetos de decoração além de grandes sofás.

O que realmente chamou atenção, além do espaço, foram os kits de ring lights. O acessório em forma de halo se tornou essencial para os tiktokers produzirem seus conteúdos, além de ajudarem na iluminação quando, à noite, a vontade de fazer um novo challenge vem à cabeça.

Os sete cômodos da casa foram ocupados por grupos mistos de quatro pessoas. Cada tiktoker escolhia sua beliche de acordo com a rotina do dia. Alguns quartos eram território de influencers notívagos; os outros eram usados pelos que preferiam acordar cedo. Para realizar a empreitada, os gastos também foram rateados. Cada participante investiu R$ 400 para custear o aluguel e a limpeza do espaço. A comida, contudo, foi patrocinada pelos restaurantes locais Tahitiri e pela Casa de Bolos — ostentadas nas redes sociais, claro. Alguns participantes abandonaram a mansão antes dos dez dias combinados alegando falta de afinidade com os colegas, ou que o "custo-benefício" não compensaria.

Os criadores escalados tinham direcionamentos de conteúdo bem variados, que iam de danças virais a pequenos roteiros ensaiados, passando por maquiagens assustadoras e points of view. Cada uma dessas "editorias" ganhou lugares preferidos dentro da casa. Enquanto uns buscavam pelo cenário ensolarado e arborizado ou ficavam à beira da piscina, outros aproveitavam os cômodos internos, mais silenciosos, para se concentrarem durante as encenações.

@niscuslas

pov: ele volta de viagem e faz uma surpresa pra namorada

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Nas contas individuais, a escolha das trends eram livres. Para o perfil da PlayHouse no TikTok, contudo, os jovens seguiam algumas instruções de Mariz para intercalar os conteúdos: "mais comédia, menos dança" e vice-versa.

A convergência sonora de hits — que equivale a rolar o feed do TikTok rapidamente e ouvir de forma geral o que viralizou — também era evidente. Pude ouvir um trecho de "For The Night" de Pop Smoke na área externa da casa e, ao dar cinco passos, assistir às coreografias de "Nem Guindaste", de Jottapê e Mila, ou "Meu Lado da História", de Choji — que, inclusive, viralizou na plataforma depois de uma Dance Challenge, criada por Martin Klayver Faustino Braga (19), um dos influencers da PlayHouse. A dança chegou a ser reproduzida por Anitta.

@nicolelouise

É BEM ASSIM, QUANDO DIZEM "me apresenta seus amigos"

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Como muitos dos astros da mansão, Martin conquistou mais de um milhão de seguidores em poucos meses com danças bem coreografadas e canções cativantes. Antes do evento na PlayHouse, o jovem mantinha uma rotina de gravação diária na porta de casa em Itajaí (SC), com os dançarinos da Millennium Cia. de Dança, criada pelo pai. A parceira de gravação que virou a favorita entre os fãs é Maria Paula Marques Damião, que também conta com um 1,5 milhão de seguidores. Desde pequenos, os dois dançam os ritmos hip-hop, funk e bregafunk.

Câmera lenta

"Acordamos de manhã, começamos a gravar à tarde e ficamos até as oito da noite. Não tem muito uma rotina, a gente vai fazendo o que surge", explica Paulo Toneti, 21, que conquistou 2,5 milhões de seguidores com esquetes de comédia. De fato, não existia um cronograma de gravações, mas todos estavam sempre preparados para, a qualquer momento, apoiar os celulares no suporte do anel de luz.

Para quem se arrisca nos passos sincronizados às batidas das canções, aprender as coreografias é algo quase instantâneo. A dupla ou o trio de tiktokers para na frente do celular e decora os passos de quem criou o Dance Challenge; em 10 minutos, no máximo, o vídeo está pronto. Já para quem precisa memorizar o texto para dublagens, o ritual é mais lento e pautado na repetição. Para os esquetes, o áudio do vídeo é colocado em looping até que os tiktokers consigam decorar a cena.

Cantar ou fazer o whoa no ar, ao longo do dia, já é parte do cotidiano de um tiktoker. "Às vezes, do nada, vejo que estou fazendo as coisas em slow", conta Renan Azevedo Pertile, que integra "a galera do slow" formada por Lucca da Silva Maciel (20), e Laryssa Vitoria Cardoso (17). Durante nossas conversas, inclusive, fui pega de surpresa por alguns slowmotions. Quando perguntei como funcionava a dinâmica deles dentro da casa, os lábios e o dedo indicador de Renan se moveram lentamente antes de disparar sobre a produção inquieta de vídeos.

Lucca saiu de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, para participar da PlayHouse; Renan e Laryssa já moravam no estado de São Paulo. Reunidos na mansão, produziram vídeos juntos e potencializaram a dança que os tornou famosos na plataforma. "Aqui [na PlayHouse] conseguimos explorar muito mais a criatividade. Compartilhamos ideias", pontuou Renan.

@martinklayver

Acerolaaaa ##OhNo ##fyp com ela @luccamaciel_ comentem se vc gosta dessa dupla ??

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Na hora do almoço, a trupe inteira se reuniu na pequena cozinha e nas mesas das áreas externas. Um cochilo nos quartos amontoados de beliches, edredons e roupas espalhadas — sim, é a exata visão de um cômodo cheio de adolescentes — era sempre bem-vindo.

Por não existirem regras de gravação, os adolescentes passavam o dia aproveitando o melhor que a mansão podia oferecer: a piscina, o tempo ensolarado do Guarujá e o espaço verde. Hits do TikTok, muita risada e completos desconhecidos se tornando grandes amigos era o clima geral da PlayHouse, mas nem sempre: as tais brigas que movimentaram o enredo aconteceram mesmo e repercutiram nas redes, como previsto. Até a tiktoker Laura Seraphim, 20, que não estava confinada, participou de uma das discussões com os participantes isolados no Guarujá por meio de uma live.

Viralizei, e agora?

"A gente não acredita, né?", relembra Nicole Louise Rodrigues Silva, 18, quando o primeiro vídeo cantando no chuveiro viralizou na plataforma. Hoje, a tiktoker — que também é cantora e atriz — é seguida por mais de 4 milhões de seguidores. "É tudo muito novo". Nicole foi emancipada aos 17 anos, saiu do Distrito Federal, onde nasceu, para morar em São Paulo e se dedicar à carreira artística.

Thattiane Gomes Ferreira, 23, também foi emancipada e criou a própria empresa, de personagens para festas, aos 17 anos. Depois de um tempo, o dinheiro da empresa foi minguando. "Quando minha família apontou o dedo na minha cara, comecei a ganhar muito com a internet e viralizei." Com vídeos de maquiagem, transições e dancinhas, Thatty reune mais de 6 milhões de seguidores.

A história bonita para contar não é compartilhada por todos. Adolescentes que viviam uma vida normal entre escola e faculdade construíram uma base de fãs com números astronômicos da noite para o dia. Apresentar essa realidade para a família quase nunca é simples.

"Minha mãe chorou quando larguei [o curso de Engenharia Civil] para me dedicar aos vídeos", conta Luciano do Valle, 23, o "garoto da caneca bonita" do TikTok. O jovem ficou famoso após fazer receitas fáceis de micro-ondas no aplicativo. "Viralizei em uma época que não era tão estourado assim. Era uma comunidade mais fechada mesmo. Eu tinha uns 40 mil seguidores e pensei: 'tem muita gente que gosta de mim, se eu focar nisso, acho que vira alguma coisa". O conflito veio por Luciano ter sido o único da família a entrar na faculdade e decidir abandoná-la.

Os pais de Gianna também não acreditaram na carreira da filha dentro da internet. "Me mudei para São Paulo e estou há uns 4 meses sem ver minha família. Mas agora a minha mãe se orgulha de mim e, sempre que pode, fala que trabalho com o TikTok." Confinamentos, tretas e percalços são do jogo.