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Professores usam 'pedagogia TikTok' para prender atenção de alunos

Professor de biologia Thuann Medeiros usa o TikTok para ensinar - Arquivo pessoal
Professor de biologia Thuann Medeiros usa o TikTok para ensinar Imagem: Arquivo pessoal

Letícia Naísa

Do TAB

07/11/2020 04h01

Em março, Jade Hilario, 20, abriu uma aula online se achando. A professora de inglês e português tinha uma novidade: contou aos alunos de 10 anos que tinha feito um perfil no TikTok. "Falei 'fiz um TikTok pra vocês!'. Mostrei que estava explicando a matéria, eles estavam aprendendo sobre os animais, e perguntei: 'gostaram?'", contou Hilario ao TAB. Uma das crianças, como todas, honestíssima, respondeu: "Pra um primeiro TikTok, até que está bom."

Um pouco desconcertada, mas persistente, Hilario tem se dedicado mais a estudar a linguagem da rede social para atrair a atenção dos alunos. Ela mesma estudante, cursa Letras da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e transformou a experiência em sala de aula em objeto de estudo. Ela dá aula para alunos de 5 a 11 anos, em um colégio particular de Osasco (SP) e entre 17 e 20 e poucos anos, em um cursinho pré-vestibular. "Hoje, nenhum aluno tem paciência para assistir a uma aula em vídeo de 40 minutos. É difícil manter a concentração em uma sala por 50 minutos, imagina na frente de uma tela. Eles preferem coisas rápidas, isso é atrativo", afirma. "Também sou aluna e sei como é difícil estar presente na aula online", diz.

Como ela, outros jovens professores encontraram no TikTok um espaço nada ortodoxo — mas superpopular — para ensinar. Fruto de uma educação mais analógica, Laís de Stefano Ortunho, 27, estudou em colégio com lousa de giz e sempre quis ser professora. Quando voltou à sala de aula, desta vez para ensinar, sentiu necessidade de usar as redes sociais, que já eram um hobby e de uso pessoal, para passar conteúdo da disciplina. "Essa ideia é cada vez mais recorrente entre professores, porque os alunos estão conectados a todo momento", diz.

Professora de química, Ortunho faz vídeos curtinhos de experimentos. Entre frascos, pipetas e líquidos coloridos, demonstra a seus alunos do Ensino Médio como a química funciona na prática. "Não tive tempo de ir ao laboratório no colégio. Logo que as aulas começaram, entramos em isolamento social. Então fiz os vídeos com o que eu tinha em casa e pedia para eles reproduzirem e responderem a um questionário", conta.

Nova no corpo docente do Colégio Santa Catarina, na Mooca (zona leste de São Paulo), não teve tempo de criar um laço com os novos alunos. "O TikTok fez com que eles interagissem mais comigo e sentissem que me conhecem melhor", afirma. O feedback foi positivo. "Quando você entra no espaço do aluno, entende do que eles gostam e o que eles fazem no tempo livre. Eles confiam mais no professor."

No modo online, é mais difícil captar se o aluno está entendendo o conteúdo. Sendo química uma disciplina cheia de abstração, fica difícil compreender conceitos complicados. Por isso é que Ortunho se preocupa em falar a língua dos jovens. Além dos vídeos de experimentos, com narração e música de fundo simples, ela também usa linguagem de memes, por meio de dublagens, tipo de vídeo popular no TikTok, para passar a mensagem. Uma das primeiras postagens foi sobre o conceito de polaridade na química.

"Peguei uma musiquinha que estava em alta e fiz uma brincadeira como uma paquera entre a água querendo se aproximar do óleo, duas substâncias que não interagem." No vídeo, a professora canta "Princesinha", de Lucas Lucco: "Tá louca, é? Tá doida, é? Tá chapada?", canta um polo para o outro, indicando que não podem ficar juntos.

Em outro vídeo, a professora usou de trilha sonora a música "Jovem", de Julio Secchin, para exemplificar a primeira regra do rolê. "Os alunos têm muita dificuldade em estequiometria, muitos se esquecem de balancear a equação, que é a primeira coisa que tem de ser feita no exercício", explica a professora. "Um tom de humor ajuda na aprendizagem: é um complemento à aula, rápido e visual, fácil de ser absorvido."

Influenciadores

Além de tentar acertar o tom da brincadeira, outro desafio é ser sintético. Os vídeos de TikTok são muito curtos. Jogar conteúdo na plataforma muda o jeito de preparar a aula. "O trabalho em casa triplicou: preciso de roteiro de vídeo, tive que comprar um tripé e peço ajuda para o meu pai para gravar", diz jade Hilario, que agora se sente uma influenciadora. Para ela, não adianta fazer muxoxo para as redes sociais — o professor vai onde o aluno está.

Muito antes dos memes, professores de cursinhos pré-vestibular usavam tática similar em sala de aula. Não são poucos os vídeos que circulam na rede de aulas-show nível stand-up comedy, com piadas e músicas que grudam na cabeça para fixar conteúdo. "É quase a mesma dinâmica. São dois formatos que dialogam, porque é o tipo de coisa que eles consomem naturalmente na internet: vídeos curtos e divertidos", diz Hilario.

Professor de biologia do Colégio Positivo de Joinville (SC), Thuann Medeiros, 26, iniciou a carreira em cursinho há três anos. "Não tem como dar aula ali sem ter esse manejo. Quem é professor de cursinho, dá aula para o Ensino Médio como se fosse um cursinho", afirma. "Em todos os casos, quanto mais próximo da linguagem dos alunos, mais fácil é para o professor se aproximar."

O início da quarentena foi de difícil adaptação para Medeiros. "Quando você pega prática da sala de aula, você não monta slides elaborados, você domina a sala como um palco, porque você tem o conhecimento, e o aluno comanda para onde a aula vai, porque ele faz perguntas, interage. Mas no ensino remoto, eu preciso focar mais nos detalhes da apresentação do que em mim, porque o aluno está olhando para a tela, que é um meio dinâmico."

Usuário ferrenho de redes sociais, Medeiros já mantinha um perfil pessoal no TikTok, no Instagram e no Twitter. No YouTube, criou um canal em março para postar aulas curtas, onde começou a adaptar a linguagem "memética" para segurar a visualização dos alunos. "Gravo em casa e gravo sozinho, tenho equipamento, aí crio um roteiro, dou uma olhada no está popular e boto a cara na câmera", conta.

Surfando no viral que colocava Deus conversando com um Anjo, Medeiros criou um diálogo em que o Senhor criava os equinodermos (animais marinhos invertebrados) e lista suas características. Em outra tirada, explica o passo a passo da mitose com uma paródia de "Let it go", música tema da animação "Frozen", da Disney. Inspirado por vídeo de checagem (em que as pessoas vão dizendo o que têm ou não de uma lista), criou um vídeo que lista características de genes dominantes ou recessivos.

Fazendo a "Dança da Mãozinha", do Tchakabum, conta o que é possível aprender com aulas de genética. "Isso desperta a curiosidade. Genética, por exemplo, é um assunto denso, então fiz alguma coisa para chamar um pouco a atenção e para fazer eles rirem da nossa cara, né, é difícil acertar no TikTok", brinca.