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De 1960 à geração TikTok, jovens influenciam política global mesmo sem voto

A jovem ativista Greta Thunberg - Reprodução/Instagram Greta Thunberg
A jovem ativista Greta Thunberg Imagem: Reprodução/Instagram Greta Thunberg

Marilia Marasciulo

Colaboração para o TAB

01/11/2020 04h00

Em uma votação histórica e por ampla maioria, no domingo, dia 25 de outubro, os chilenos votaram a favor da criação de uma nova Constituição. A Carta, que será redigida por uma Assembleia Constituinte a ser eleita pela população em abril, vai substituir a atual, herança do regime militar de Augusto Pinochet.

Resultado de um acordo político para conter a onda de protestos contra a desigualdade social e por melhores serviços básicos, que tomaram conta das ruas da capital há um ano, o plebiscito, na verdade, é consequência de protestos que remontam a pelo menos 15 anos e foram encabeçados por jovens que sequer poderiam ter votado nele na época — um movimento que não se resume ao Chile e vem se repetindo mundo afora, com a juventude liderando mudanças políticas desde os anos 1960 nas ruas e, hoje, usando as redes sociais.

"Considero que os chilenos alcançaram uma sofisticação de subjetividade, pois quem derrubou a Constituição foi uma geração que não viveu o governo de Pinochet, mas que percebeu o drama coletivo provocado pela ausência de um Estado Social", diz ao TAB o historiador Vinicius Carvalho, cuja pesquisa de mestrado na Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina) se concentra na implantação do neoliberalismo no Chile. "Eles atingiram um grau elevado de consciência de classe, e tudo começou com estudantes contestando as medidas ultra-liberais implantadas na educação com a Constituição."

O ano era 2006 quando mais de meio milhão de estudantes secundaristas tomaram as ruas do Chile, no ato que ficou conhecido como a "Revolução dos Pinguins", por causa do tradicional uniforme escolar que usavam. Eles reivindicavam, entre diversos pontos, gratuidade no ensino e no transporte público, e uma reforma no sistema educacional herdado do regime militar.

Em 2011, uma nova onda de protestos estudantis tomou conta do país — essa reunindo secundaristas e universitários, incluindo também instituições de ensino pago. "Desde o início, os protestos foram liderados por jovens conectados com as novas pautas e por uma geração que vem passando o bastão de um movimento que está sempre se renovando", diz Carvalho.

60 anos de turbulência

O exemplo do Chile é só um dos mais recentes entre mobilizações encabeçadas por jovens que fazem política longe das urnas. Falar em ativismo jovem não é novidade, ainda que a principal virada para a participação juvenil nos movimentos sociais tenha vindo há pouco mais de 60 anos.

"Até o século 20, as revoluções eram promovidas por classes trabalhadoras, até porque a própria ideia de juventude é uma construção do século 20", explica Carvalho. Foi a partir dos anos 1960, com movimentos como o dos Direitos Civis e contra a Guerra do Vietnã, nos Estados Unidos, e Maio de 68, em Paris, que os jovens começaram a mostrar a sua força.

Na América do Norte, organizações como a SNCC (Student Nonviolent Coordinating Committee) e a SDC (Students for a Democratic Society), criadas em 1960, e o YIP (Youth International Party, cujos membros eram chamados de Yippies), fundado em 1967, promoveram desde "sit-ins" (ato de se recusar a se levantar enquanto situação que é alvo do protesto não for modificada) a atos de resistência não-violenta.

Um episódio marcante foi o da Convenção do Partido Democrata em Chicago de 1968, que acabou em uma batalha entre a polícia e manifestantes que ocupavam um parque, protestando contra a Guerra do Vietnã — líderes da SDC e do YIP foram posteriormente acusados de conspiração e incitação de violência, no julgamento histórico que virou o recém-lançado filme da Netflix, "Os 7 de Chicago", de Aaron Sorkin.

No mesmo ano, do outro lado do Atlântico, um protesto de estudantes contra a divisão de dormitórios entre homens e mulheres deu início a uma onda de manifestações no país inteiro por ampliação dos direitos civis, liberação sexual, contra as guerras e pedindo a renúncia do então presidente, Charles de Gaulle. Considerado conservador, de Gaulle acabou refugiado em uma base militar alemã, concedeu abono salarial e convocou novas eleições legislativas. É do movimento slogans como "Sejam realistas, exijam o impossível", "Parem o mundo, eu quero descer" e "É proibido proibir".

Nova fase dos Direitos Civis

Jovens começaram a participar do jogo político em protestos que derrubaram desde regimes militares a tarifas de ônibus. E, a partir de 2008, com o surgimento das redes sociais, o ativismo jovem passou outro ponto de virada, que chegou ao ápice este ano.

"Milhões de pessoas foram às ruas [nos Estados Unidos após o assassinato de George Floyd], e minha impressão é de que a maioria delas eram jovens", afirma o professor da UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles), Paul Von Blum, autor de "A Life at the Margins: Keeping the Political Vision" (Uma Vida nas Margens: Mantendo a Visão Política, em tradução livre, sem edição no Brasil), em que relembra seus 50 anos de ativismo político. "Acho que esse é o começo de uma nova fase do Movimento por Direitos Civis. Talvez seja um pouco cedo para concluir isso, mas acho que tudo aponta para essa direção", afirma o professor, que participou do movimento por Direitos Civis nos anos 1960 quando ainda era estudante na Universidade da Califórnia em Berkeley.

Na visão de Bruno Vieira, autor do livro "Ativismo Juvenil e Políticas Públicas" (2018, Editora Letramento), os jovens hoje veem uma vilipendiação de seus direitos. "Eles vivem uma precarização cada vez maior, causada pelo desmonte de direitos", diz ao TAB. "Quando temos reformas como a da Previdência, isso desmonta a possibilidade do jovem de hoje se aposentar lá na frente. São direitos básicos que estão em disputa."

Mas o jovens do século 21 ganharam uma nova ferramenta de combate: as contraditórias redes sociais. Cruciais para a Primavera Árabe de 2010 e então apontadas por especialistas como disseminadoras de discurso de ódio e ameaça à democracia — como conta "O Dilema das Redes", documentário da Netflix lançado no Brasil em setembro —, elas voltaram a chamar a atenção por seu papel na política este ano.

Nos Estados Unidos, um dos exemplos mais marcantes, além da organização dos protestos contra a violência policial após o assassinato de George Floyd, foi a sabotagem do lançamento da campanha pela reeleição do presidente norte-americano, Donald Trump. Em uma ação surpresa, adolescentes usuários do TikTok registraram centenas de milhares de ingressos para inflar a expectativa de público, deixando os organizadores da campanha confusos quando ninguém apareceu.

"Nos anos 1960, nós não tínhamos as redes sociais, e elas são recursos tremendos, ajudam a espalhar as ideias e a organizar protestos", diz Von Blum. "É um mundo totalmente diferente, mas acho que é um meio para o fim. Algumas pessoas acham que só ser ativo nas redes é cumprir as responsabilidades sociais e morais, mas não considero o suficiente. É preciso se organizar, ir às ruas, estar engajado civicamente."

"As redes sociais mudaram a configuração dos movimentos, mas são coisas concomitantes, não é possível pensar só no online, apesar do contexto de pandemia", diz Vieira. Ele considera importante perceber os espaços que os jovens ocupam hoje para compreender melhor esse novo jeito de fazer política.

Não é possível que a gente determine que a juventude está apática, o que vejo é uma antipatia ao jeito comum de fazer política.

Bruno Vieira, autor do livro "Ativismo Juvenil e Políticas Públicas"

Das redes para as ruas e para as urnas

Em uma pesquisa divulgada em fevereiro deste ano, a Ofcom, agência de regulação das comunicações britânica, identificou que as crianças do Reino Unido estão mais propensas a usar as redes para apoiar causas sociais, o que vem sendo chamado de "Efeito Greta Thunberg". Em 2019, 18% das crianças com idade entre 5 e 15 anos usaram as ferramentas para apoiar organizações ou movimentos online, contra 12% no ano anterior. E 10% do grupo de 12 a 15 anos assinou petições online.

Criado em 2018 pela adolescente sueca para protestar contra as alterações climáticas, o movimento Fridays for Future ganhou proporções globais: recebeu o prêmio Embaixadores de Consciência da Anistia Internacional em 2019 e, no mesmo ano, Thunberg foi considerada a personalidade do ano pela revista Time. "Os jovens costumam ouvir que são os líderes do amanhã. Estou muito feliz pela Greta Thunberg e pelos ativistas das Fridays for Future porque ignoraram esta mensagem", disse o secretário-geral da Anistia Internacional, Kumi Naidoo, na época. "Se esperassem até amanhã, não haveria futuro para nenhum de nós. Eles provaram que já são líderes e, agora, é hora de os adultos os seguirem."

"Tenho ficado muito feliz em ver tudo o que está acontecendo e que existe um espírito de ativismo se renovando entre as pessoas jovens", diz o professor da UCLA. O historiador Carvalho também considera positivo o crescente envolvimento da juventude nos movimentos sociais. "O ativismo não precisa ser necessariamente associado à eleição, a política se faz no dia a dia", opina.

E, embora demonstrem que não é preciso ter idade para votar para influenciar a política, os movimentos já têm tido efeitos também nas urnas: os números preliminares da disputa presidencial nos Estados Unidos apontam que a participação de jovens nas eleições deve ser recorde — pela primeira vez na história, a quantidade de votantes das gerações Z (entre 18 e 23 anos) e millennials (entre 24 e 39 anos) será equivalente à de boomers (56 a 74 anos).