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Homens relatam angústia com pressão estética e corpos idealizados nas redes

O jogador Cristiano Ronaldo, símbolo do conceito de spornossexual  - Divulgação
O jogador Cristiano Ronaldo, símbolo do conceito de spornossexual Imagem: Divulgação

André Cabette Fábio

Colaboração para o TAB

30/10/2020 04h00

O termo "imagem corporal" é usado para se referir a percepções, pensamentos e sentimentos que alguém tem sobre o próprio corpo. A imagem é influenciada pelo padrão valorizado pela sociedade, e pode ser positiva ou negativa, o que afeta a saúde mental.

Há muitas pesquisas que relacionam a insatisfação com o próprio corpo ao desenvolvimento de transtornos, como bulimia ou anorexia. Especialmente no caso de mulheres, estudos relacionam a exposição à mídia, inclusive às redes sociais, a uma maior insatisfação corporal. Há menos estudos que abordam especificamente o corpo masculino.

"Há uma pressão maior sobre as mulheres, porque a nossa sociedade patriarcal impõe tradicionalmente que o corpo feminino seja um objeto de desejo, de acordo com padrões de beleza. O homem é quem deseja esse objeto", afirma em entrevista ao TAB Jorge Miklos, sociólogo que coordena uma pesquisa a respeito da contribuição da mídia para a constituição das masculinidades no imaginário brasileiro na UNIP (Universidade Paulista).

Cinema, pornografia, esportes e o corpo masculino

Miklos avalia que, apesar de as mulheres ainda serem mais julgadas pelos seus corpos, o corpo masculino vem sendo mais objetificado desde a década de 1930.

"Em um primeiro momento, temos o protótipo do cowboy fortão, interpretado pelo John Wayne [a partir da década de 1930], depois se desenvolve para o Tarzan, que era interpretado por um atleta muito forte [Johnny Weissmuller, também na década de 1930]", diz.

Em um artigo publicado em 2016 na revista acadêmica Journal of Gender Studies, o pesquisador Jamie Hakim, da Universidade de East Anglia, no Reino Unido, diz que a objetificação do corpo masculino ganha impulso a partir da década de 1970. "Até então, privilegiava-se um modelo de homem que realizasse o trabalho intelectual, como tomador de decisões", escreve. Sob essa perspectiva, mulheres, pessoas LGBTI+ e também homens heterossexuais marginalizados eram associados ao trabalho braçal ou sexual, e, por isso, seriam mais julgados pelos seus corpos, um sinal de subalternidade.

Mas esse status quo mudou à medida que mais mulheres passaram a ganhar espaço no mercado, e o trabalho intelectual deixou de ser exclusividade de homens de sucesso. Com o status social ameaçado, homens passaram a assumir o desejo de serem desejados, no que seria um esforço para compensar pela perda de privilégios.

Segundo Hakim, um sinal dessa tendência seria a criação, em 1994, da palavra "metrossexual", que ganhou espaço na mídia e mesmo em alguns estudos acadêmicos. O termo foi lançado pelo jornalista e comentarista cultural britânico Mark Simpson, que escreveu que homens heterossexuais vinham assumindo cuidados de beleza normalmente associados a mulheres, como uso de cremes para a pele, penteados e roupas de moda.

Em 2014, o mesmo comentarista atualizou esse conceito, lançando o termo "spornosexual". Simpson diz que o maior acesso à pornografia na internet, e a possibilidade de se mostrar nas redes sociais estariam fazendo com que homens desejassem possuir, eles mesmos, corpos mais musculosos e magros, associados a atores pornô e esportistas.

"O esporte foi para a cama com o pornô, enquanto o Sr. [Giorgio] Armani tirava fotos. Mídias sociais, selfies e pornografia são os maiores vetores do desejo masculino de ser desejado. Eles querem ser desejados pelos seus próprios corpos, não pelo seu guarda-roupa", escreveu.

Em entrevista ao TAB, a doutora em comunicação e mídia e militante feminista Agnes Arruda afirma que as redes sociais aprofundam um fenômeno chamado "midiatização". "A sociedade contemporânea vive imbricada com a mídia. O que é produzido de um lado, é reproduzido do outro. Não sabemos mais se a mídia promove certos padrões à sociedade, ou se só os reproduz. É um cabo de força", afirma.

A pressão sobre os corpos masculinos nas redes

Publicado em setembro de 2020 no Journal of Consumer Affairs, a pesquisa "Instagram e imagem corporal: Motivação para se conformar ao 'Instabod' [corpo de Instagram, em uma tradução livre]" aborda especificamente a pressão sobre corpos de homens jovens nas redes.

Na avaliação dos pesquisadores, a atenção menor para as questões corporais masculinas pode ocorrer "devido ao estereótipo amplamente propagado de que preocupações físicas afetam apenas as mulheres, e de que homens têm pouco ou nenhum risco de sofrerem com complexos relacionados à sua imagem corporal".

"As redes exercem pressão sobre todos. Nelas está todo mundo feliz, muito bem, gostoso, malhando. Isso cria uma angústia, um sentimento de baixa autoestima por não ter o mesmo comportamento", diz Miklos.

O trabalho publicado no Journal of Consumer Affairs estudou especificamente usuários do Instagram que publicam e seguem imagens com hashtags promovendo exercícios físicos e um ideal de corpo musculoso e magro, como #fitness, #fitspiration e #fitfam. Eles mostraram as imagens a 25 jovens britânicos com idade entre 5 e 25 anos que seguem as hashtags, e pediram que eles as discutissem.
A pesquisa concluiu que parte dos usuários se "viciou" em "comentários elogiosos", o que fazia com que continuassem subindo fotos de seus corpos e de seus hábitos de exercícios para manter ou fortalecer sua imagem digital.

Um dos participantes, que tinha uma imagem negativa sobre seu próprio corpo, afirmou: "olhar para as fotos no Instagram dos meus atletas e atores favoritos, e mesmo amigos, fazia com que eu me sentisse um lixo porque, como um cara magrinho, eu não poderia competir".

Já aqueles que tinham uma visão positiva sobre os próprios corpos tendiam a ser mais críticos em relação à moda fitness. Um deles afirmou: "essas modas são uma desculpa para as pessoas tirarem a roupa e mostrarem seus corpos gostosos, estereotípicos, enquanto fingem que se importam com o fitness, para conseguir mais curtidas e seguidores. Algumas das fotos são quase pornografia (risos)".

Corpos fortes, magros e brancos

Publicada em abril de 2020 na revista acadêmica Cyberpsychology, Behavior, and Social Networking, a pesquisa "Retratos de imagem corporal no Instagram" buscou analisar que tipo de conteúdo ganha mais destaque entre as imagens de corpos masculinos.

Os pesquisadores coletaram 3.184 posts que foram ao ar entre março e maio de 2017, e que tinham hashtags ligadas a exercícios físicos, como "#Fit", "#Fitness", "#Academia" e "Treino".

Os posts promoviam uma associação entre o exercício físico e algum tipo de resultado. Não só o aspecto físico, mas a saúde tinha espaço. Em 32% dos casos, o resultado promovido era de se sentir melhor com o exercício. Ficar saudável era o resultado em 50% dos casos. E ficar mais atraente era o resultado promovido em 44% dos casos.

"A maior parte dos homens exibidos eram muito magros e musculosos, e apenas 6% deles possuíam níveis de gordura corporal altos. No entanto, mundialmente, 35% dos homens possuem níveis de gordura corporal altos, o que indica que o conteúdo do Instagram apresenta uma imagem enviesada da composição do corpo masculino, em linha com outros tipos de mídia", diz o estudo.

Apesar de a população negra no Instagram ser ligeiramente maior do que a branca, a maioria dos posts (55%) encontrados era de pessoas brancas.

Dentre os grupos étnicos analisados, latinos, ou seja, pessoas vindas de países da América Latina, tendiam a ter o menor número de curtidas. Por isso, a pesquisa concluiu que corpos masculinos musculosos, brancos e magros tendiam a ser mais recompensados com curtidas, obtendo mais visibilidade.

O potencial das redes de quebrar o padrão

Segundo o professor Miklos, a valorização de determinados tipos de corpos nas redes se dá em uma interação entre a ação dos usuários e os algoritmos. "O algoritmo não necessariamente cria o padrão, seu papel é descobrir o que as pessoas consideram válido, e reforçar esse conteúdo. Ele mapeia interesses e reproduz mais do mesmo", diz.

Por darem aos usuários o controle sobre o conteúdo que publicam, as redes trazem, também, a possibilidade de valorizar corpos não normativos. Na tese de doutorado "O peso e a mídia: uma autoetnografia da gordofobia sob o olhar da complexidade", a pesquisadora Agnes Arruda escreve que proliferam nas redes sociais grupos que tratam de corpos gordos e da gordofobia.

Miklos concorda que as redes dão espaço para a contra-hegemonia, "aquele que de alguma forma não está enquadrado no ideal de homem". Mas isso, em sua visão, representa uma guerra de narrativas entre a hegemônica e a não-hegemônica. "Da forma como eu vejo, vence quem ocupa o campo hegemônico", diz.