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Do 'manda nudes' ao OnlyFans, como cada geração encara a nudez

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Letícia Naísa

Do TAB

15/10/2020 04h00

Em um de seus esquetes no Instagram, Luciana Paes brinca com a mensagem "manda foto de agora", que pode surgir durante um flerte pelas redes sociais. Na cena, a atriz corre para limpar a casa e se arrumar para mandar uma foto produzida "de agora", como se fosse natural. A situação é engraçada porque é real. Qualquer pessoa em busca de amor ou sexo por vias virtuais pode se ver nesse contexto, mas o cenário se torna mais tragicômico quando o pedido é ainda mais intenso: "manda nudes?".

A reação a esse tipo de pergunta varia de acordo com a sua idade, assim como o que você entende por um nude. A exposição a diferentes corpos no ambiente virtual e o acesso à pornografia mudou a concepção de flerte e de nudez entre gerações.

"Um nude pode ser uma foto erótica que insinue algo em relação ao corpo, mas tem uma ampla possibilidade", afirma Paula Napolitano, psicóloga e terapeuta sexual. "Vai desde uma imagem de genitália até uma foto mais sensual". Para a especialista, a percepção muda a depender da experiência. "A relação com a exposição do corpo é diferente para cada pessoa. Hoje, faz parte do dia a dia, as roupas são mais decotadas do que antigamente, existe uma exposição maior a imagens de corpos", diz ao TAB.

"Tem uma aceitação maior de corpos na minha geração", afirma a estudante Ana Sofia*, 19. Em sua timeline, celebridades e colegas postam fotos usando pouca roupa com frequência. "Acho que um nude é qualquer coisa que pode ser sensualizada pelo outro", opina. Em seu flerte mais recente, pelo Instagram, recebeu uma foto de um cara totalmente nu depois de apenas três dias de conversa. "Foi muito rápido, ele chegou a mandar mostrando tudo", conta. "Mas foi de boa, a galera não pensa muito com a cabeça de cima", brinca. No jogo da sedução, ela mandou uma foto de volta, mais discreta. "Não gosto de receber foto de genitália, tem muito mais coisa que você pode explorar."

O nude estilo "foto de pinto" ou "foto de pepeca" ficou para trás. Hoje, o jogo vai muito além da pornografia explícita — mas varia entre entre homens e mulheres, na percepção geral delas. "Para o homem, importa mostrar o tamanho, né?", diz Nina*, 37, professora. "A mulher se preocupa em esconder a barriga, quer mandar um corpo bonito", afirma. Ana Sofia concorda: "Os caras não variam muito, não têm muita criatividade, mas a gente faz posições de capa de revista, tenta inovar, a gente performa mais."

Cria das redes sociais, a estudante faz parte de uma geração que construiu sua sexualidade na era dos aplicativos. O ápice dessa nova relação é o aplicativo OnlyFans, plataforma de conteúdo por assinatura. Apesar de ter nascido com o intuito de monetizar qualquer tipo de conteúdo, nudes e vídeos íntimos estão em alta por lá. "Os jovens não conhecem outra forma de exercer a sexualidade que não seja em paralelo às plataformas digitais, eles fizeram uma reinvenção da ideia de sexo e de nudes", explica Michel Alcoforado, antropólogo e colunista do TAB. "O nude tem um papel de ativação imagética do interesse do outro e, para isso, não precisa nem ser real."

Para os "millennials velhos" e a geração X, o que acontece no quarto e na cama não sai de dentro de casa. Se, antes, para ver um corpo nu era preciso comprar uma revista de forma discreta ou entrar na salinha secreta das locadoras de vídeo, hoje, diferentes corpos estão disponíveis 24 horas na tela do celular, sempre à mão — seja no aplicativo de paquera, no OnlyFans ou em sites pornôs. "Para essas gerações, a ideia de nudez é como um segredo", diz Alcoforado. Para Nina, o nude não é algo que tem que "vir fácil". "Hoje é tudo tão explícito. O meu corpo é uma das poucas coisas em que posso controlar o acesso", afirma.

Hoje, por outro lado, o nude faz parte da paquera e do processo de conhecer alguém e flertar. "As pessoas mais velhas associam nudez com a intimidade, faz parte de uma relação, é uma ferramenta para apimentar uma relação que já existe com alguém de confiança", diz Napolitano.

Aos 29, Jean* encara um nude de forma parecida à de Ana Sofia. "É uma foto de cunho sexual", diz. "Nem sempre precisa aparecer um genital, mas tem que ter um teor erótico, é uma foto voltada para isso, para o sexo", afirma. Bissexual, Jean observa uma diferença entre mandar e receber nudes de homens ou de mulheres. "Entre os homens, é uma coisa mais espontânea, menos preocupada", relata. Também bissexual, Ana Sofia confia muito mais suas fotos sensuais a outras mulheres do que aos homens. "Não acho que outra mina vai vazar minha nude", diz ao TAB. Entre as mulheres, a preocupação tem nome: pornografia de vingança (revenge porn).

Vazamentos

"Eu sou muito desconfiada, mandei nude uma vez e fiquei muito neurótica", diz Nina. "Fiquei com medo de acontecer comigo essas histórias que a gente escuta, de pornografia de vingança. Eu confiava na pessoa, era meu namorado, hoje é meu noivo, mas fiquei pirando que alguém podia roubar o celular dele, hackear a conta. A gente não tem segurança nenhuma na internet", opina.

O que Nina chama de segurança é uma moeda de dois lados. "Existe um risco social de confiança e um risco de infraestrutura", afirma Christian Perroni, coordenador da área de direito e tecnologia do ITS (Instituto de Tecnologia e Sociedade). "Você não necessariamente troca fotos com uma pessoa conhecida. As relações são muito baseadas em aplicativos, então você não sabe sempre quem está do outro lado", alerta Perroni. Além da imagem em si, o envio de uma foto carrega outros elementos de privacidade, os metadados. "É uma coisa que a gente não presta atenção, mas ali está, também, a localização, o tipo de celular que você tem, sua câmera."

Conhecer o receptor de uma mensagem tão cheia de intimidade é um critério cada vez mais importante quanto mais velho a gente fica. "Geralmente, mando para alguém que eu já conheça há algum tempo, tenha algum grau de confiança. Mesmo que não tenha conhecido ao vivo, você tem que saber se aquela pessoa é um ser humano razoável", diz Jean. E a regra é uma via de mão dupla: "Se uma pessoa me manda, eu posso mandar de volta, porque estamos quites", diz Ana Sofia. "O lance fica sério quando você troca nudes, significa que eu confio um pouco mais no outro e quero algo a mais também."

Durante o ensino médio, uma colega de Ana Sofia teve nudes vazadas para todos os colegas. "Tinha um aplicativo chamado Secret, em que dava para mandar arquivos anonimamente, então começaram a vazar nudes e prints dela. A menina ficou bem marcada, todo o mundo falava dela", lembra.

"Como ainda existe uma cultura machista, ainda existe o medo das mulheres de isso ser exposto. Quando a exposição cai nas redes, a mulher é sempre a culpada, é recriminada e julgada. O homem não, eles têm menos receio", diz Napolitano. "É quase positivo para um homem", afirma. Pela lei, expôr imagens íntimas é crime, assim como a invasão de um dispositivo.

Para amenizar os riscos, além de desenvolver uma relação de confiança com o receptor, mostrar o mínimo possível daquilo que possa identificar o autor do nude é um caminho. "O risco do nude é maior quando ele revela a sua identidade", diz Alcoforado. "Só que os jovens não querem a identidade revelada, essa questão não está posta, é apenas uma imagem fragmentada."

Entre os millennials, a questão da identidade é muito mais importante, segundo o antropólogo. "A valorização da estética é muito forte, isso é levado para o nude também", afirma. "Você não manda qualquer coisa, é quase uma produção cinematográfica, o contexto contribui para a mensagem e você precisa provar que aquele corpo é seu, o nude é quase um teste de veracidade."

2.abr.2013 - Entra em vigor a Lei Carolina Dieckmann (12.737), que condena crimes cometidos através de meios eletrônicos e da internet. A legislação foi sancionada pela presidente Dilma em dezembro de 2012, depois do vazamento naweb de mais de 30 fotos de Carolina Diecka atriz na abertura da SPFW, no prédio da Bienal - Zanone Fraissat /FOLHAPRESS - Zanone Fraissat /FOLHAPRESS
A Lei Carolina Dieckmann, de 2013, condena crimes cometidos através de meios eletrônicos e da internet
Imagem: Zanone Fraissat /FOLHAPRESS

Outro caminho de prevenção, é se proteger na hora de compartilhar uma imagem. "Ter uma foto no celular é arriscado. Alguém pode ter acesso, mas também há o risco na transmissão, você não sabe se alguém vai interceptar a mensagem", diz Perroni. No geral, os aplicativos que usam criptografia, como o WhatsApp, são seguros, mas a percepção de segurança varia conforme a chamada arquitetura da rede.

"O código que está por trás de uma rede social gera mais ou menos confiança", explica Perroni. "No Facebook, se mescla a vida pública e a privada; já no LinkedIn, você só mostra o que for público, por exemplo. Existe uma questão de velocidade de experimentação da rede. O TikTok e o Instagram são muito mais velozes na troca de informações", afirma. E, no caso do Instagram, também muito mais privado. No caso do OnlyFans, muito mais exposição.

Diga-me que aplicativo usas...

Nesse novo jogo da sedução, uma das regras é que as plataformas usadas para uma troca de fotos picantes determinam a construção da relação. "O novo 'transou na primeira noite' é mandar foto pelo aplicativo de namoro", brinca Alcoforado. "Se você só quer transar, é isso, você manda pelo aplicativo mesmo, mas se você quer construir uma relação que não termina naquela noite, você conversa pelo Instagram ou pelo WhatsApp e por aí vai."

Entre os Zs, quase todo o mundo usa o Instagram. "A gente prefere, porque a foto some. Pelo WhatsApp, fica tudo salvo, não é muito inteligente mandar nude por lá", diz Ana Sofia. "Ok que é tudo do Facebook, então o Facebook vai ter sua foto de qualquer jeito, mas é diferente."

Garota nua com celular - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto

"Cada plataforma te cobra um jogo de intimidade e de confiança diferente", diz Alcoforado. "Quando a gente se expõe num nude, dado que eu não sei se posso confiar no outro e se o outro pode confiar em mim? A plataforma carrega um código de conduta."

A percepção de segurança, diz Perroni, é mais forte no Instagram por causa de uma característica herdada do Snapchat. "Acontece porque a foto expira, gera uma sensação de que é uma coisa fugaz e momentânea, isso fica no inconsciente das pessoas", observa. Na prática, os aplicativos têm tanto elementos mais públicos quanto mais privados. Tudo depende da forma como o usuário configura.

"O importante disso é que não existem regras sobre mandar ou não mandar nudes", diz Napolitano. "Cada pessoa é única e tem que seguir o que sente vontade, com consentimento, e respeitando seus limites", conclui.

*Os nomes foram trocados a pedido dos entrevistados