'Não vou enterrar uma perna': os mortos insepultos de Brumadinho

"Tia, é a minha mãe?", perguntavam pelo WhatsApp Victor, 29, e Luiz Eduardo, 25, filhos de Lecilda Oliveira, analista de operações da Vale. Mais tarde, a tia dos rapazes, a professora Natália Oliveira, 49, responderia que não.
Naquele fim da tarde de terça-feira, 24 de agosto, um corpo inteiro havia sido localizado sob a lama, a 13 metros de profundidade, em Córrego do Feijão, bairro rural da cidade mineira de Brumadinho.
Quando algo assim acontece, o Corpo de Bombeiros de Minas Gerais faz duas ligações. O primeiro número discado é o do comando da corporação. O segundo conecta à comissão de familiares — irmãos, filhos, pais e mães dos mortos pela lama de rejeito da Vale, que lutam pelo direito de sepultar e se despedir dos seus de forma digna.
Natália foi uma das primeiras pessoas a saber que um corpo havia sido encontrado, mas a identificação só veio no dia seguinte, quando a equipe do IML constatou que a arcada dentária encontrada coincidia com as radiografias da mordida de Juliana Resende, analista operacional da mineradora, morta aos 33 anos.
A professora não se sentiu frustrada. Foi até a funerária acompanhar Josiana Resende, 34, a irmã da vítima recém-identificada, na escolha de um caixão branco. Também cedeu o jazigo preparado para receber o corpo de Lecilda. O número 124, área C do Cemitério Parque das Rosas, em Brumadinho, é agora destino dos que desejam homenagear a filha de Geraldo e Ambrosina Resende.
Homenagens marcaram as cerimônias de despedida de Juliana. Natália ajudou a família a encontrar uma escultura de balões de gás hélio no formato de um terço azul e branco. O rosário ganhou o céu nublado de Brumadinho, ao som dos aplausos dos familiares e amigos. Dentro do caixão carregado por bombeiros militares, rosas enviadas por Natália foram colocadas junto ao corpo de Juliana por Ricardo de Araújo, médico-legista que conduziu o processo de identificação da jovem.
"As pessoas acham que quem sepulta está finalizando o ciclo. Eu acho que é o oposto: a família da Juliana está começando agora a viver o luto", diz Natália.
A associação de familiares
Na manhã do dia 14 de setembro de 2021, TAB acompanhou Natália à sala de reunião de número três do Aurora Tênis Clube, local transformado em posto de atendimento da mineradora. No espaço climatizado e bem iluminado, é fácil identificar os bombeiros, que vestem um fardamento laranja muito vibrante, e os funcionários da Vale, uniformizados.
Representantes do Ministério Público participam do encontro. Lado a lado, ao redor da mesa comprida, os familiares de vítimas ainda não sepultadas usam uma camiseta branca coberta por fotografias, na frente e atrás. Perto da gola, os dizeres "Dói demais o jeito que vocês se foram". Na manga, a sigla Avabrum, associação dos familiares de vítimas e atingidos pelo rompimento da barragem Mina do Córrego do Feijão.
O encontro acontece quinzenalmente, sempre às terças-feiras. Antes da pandemia, a frequência era ainda maior, semanal. O objetivo, de acordo com a professora, é entender em que pé estão as buscas e quais são os próximos passos da operação. Participam dos encontros 13 famílias. Dessas, nove ainda aguardam a localização. As outras quatro escolheram não sepultar o segmento corpóreo já localizado: a expectativa é encontrar o restante do corpo.
A dona de casa Arlete Gonçala, 58, por exemplo, vive à espera para sepultar seu filho, Vagner Nascimento da Silva. "Eu não vou enterrar uma perna, uma perna para mim não é corpo", diz.
Dona Arlete, como é conhecida, conta à reportagem que, em meio à tragédia, construiu uma grande amizade com Natália e outros familiares. "Ela tem uma sensatez no falar, é muito bom tê-la na reunião."
O laço entre aqueles que vivem esse luto torto se tornou tão estreito que eles dizem sentir a dor um do outro. Segundo Natália, esse é o motivo pelo qual Josiana segue frequentando as reuniões, mesmo após o encontro da sua "joia", nome dado às vítimas da tragédia. "Você cria uma conexão muito forte com as pessoas que entendem sua dor. É mais fácil com eles [os familiares da comissão dos não encontrados] caminhando ao meu lado."
'Ninguém evaporou'
A reunião não tem muitas formalidades — estreiteza que é resultado de um convívio de dois anos e sete meses. Natália conhece todos os presentes pelo nome. Em volta daquela mesa já chorou, riu e brigou, mas sabe que o objetivo maior é encontrar todas as joias.
Agora, o clima é amistoso: fala-se sobre a localização de Juliana Resende na sala. Na ocasião, o comando do Corpo de Bombeiros se compromete a seguir com as buscas. A professora tem esperança: "são quase infinitas as possibilidades. Olharam um terço da área, ainda faltam dois terços".
Enquanto isso não acontece, Natália segue frequentando as reuniões, visitando a área da mina e realizando atos em homenagem às vítimas, a cada dia 25. No próximo sábado haverá um.
A ausência da irmã mais velha é percebida em todo lugar — elas passavam muito tempo juntas, frequentavam a mesma cabeleireira e faziam compras no mesmo supermercado. A educadora revive a morte de Lecilda todos os dias porque ainda não pôde se despedir de forma digna.
Natália espera que o que aconteceu em Brumadinho mude a mineração no país e que o governo de Minas Gerais faça um uso justo dos recursos destinados ao estado. "É um dinheiro pago com o sangue dos nossos."
ID: {{comments.info.id}}
URL: {{comments.info.url}}
Ocorreu um erro ao carregar os comentários.
Por favor, tente novamente mais tarde.
{{comments.total}} Comentário
{{comments.total}} Comentários
Seja o primeiro a comentar
Essa discussão está encerrada
Não é possivel enviar novos comentários.
Essa área é exclusiva para você, assinante, ler e comentar.
Só assinantes do UOL podem comentar
Ainda não é assinante? Assine já.
Se você já é assinante do UOL, faça seu login.
O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Reserve um tempo para ler as Regras de Uso para comentários.