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'Cortam aqui para não faltar em BH': famílias de MG já vivem crise hídrica

A bordadeira Maria José Pereira, 45, que vive em Sarzedo (MG) e lida há meses com a falta d"água - Alexandre Rezende/UOL
A bordadeira Maria José Pereira, 45, que vive em Sarzedo (MG) e lida há meses com a falta d'água
Imagem: Alexandre Rezende/UOL

Leandro Aguiar

Colaboração para o TAB, de Sarzedo e Ribeirão das Neves (MG)

21/09/2021 07h59

Naquela terça-feira (14), fazia 29°C às 20h em Sarzedo (MG). A umidade relativa do ar, segundo o Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia), estava em 22%. Alerta laranja. Em circunstâncias assim, segundo o instituto, há "risco de incêndios florestais e à saúde". De ordinário, ocorre "ressecamento da pele, desconforto nos olhos, boca e nariz".

Na casa da bordadeira Maria José Pereira, 45, que fica no bairro Brasília, somavam-se a esses inconvenientes outros dois: Sarzedo é muito empoeirada, em função do grande fluxo de caminhões que puxam o minério de ferro extraído das montanhas que a cercam; além disso, já fazia cinco dias que a casa de Maria José estava sem água.

Foi com alívio que ela e várias vizinhas escutaram os barulhos da chegada do caminhão-pipa que vinha encher uma das caixas d'água que alimentam a cidade de 33 mil habitantes, na região metropolitana de Belo Horizonte.

Mas o alívio logo deu lugar ao senso de urgência, como sempre: uma vez abastecida a caixa, a água escoaria primeiro para as casas nas regiões mais baixas. Elas corriam o risco de passar a seco mais uma noite. Maria José e suas vizinhas correram em direção ao caminhão, com baldes e vasilhas à mão, e pediram ao motorista que os enchesse antes. Acostumado à cena, o homem ouviu as mulheres.

Maria José contou seu aperto à reportagem do TAB no sábado (18), data em que acumulava nova pilha de louça e roupa sujas. Ela mora com o marido, dois filhos e duas netas, e se vira com a água que estoca em garrafas pet e num tambor de 200 litros que mantém para eventualidades, além de contar com a solidariedade de parentes e amigos que vivem em regiões onde o abastecimento hídrico não falha tanto.

Graças a eles, consegue dar banhos diários de caneca em sua neta de 6 anos e não chegou, na semana passada, ao extremo de ficar sem água para passar o café e cozinhar.

Uma das vizinhas que a auxilia é Rosiney de Oliveira Martins, cantineira escolar de 57 anos. Como tem uma caixa d'água extra em casa, costuma passar menos dificuldade quando o abastecimento falha e acaba doando água aos mais necessitados. "Aqui não era para as pessoas passarem sem água, não. Anos atrás, as mulheres lavavam a roupa nos córregos daqui, mas hoje essa água não presta pra nada. Está tudo poluído."

Rosiney de Oliveira Martins em frente a caixa dágua no bairro Santo Antônio, em Sarzedo (MG), que sofre com a falta d'água - Alexandre Rezende/UOL - Alexandre Rezende/UOL
Rosiney de Oliveira Martins, em frente a caixa dágua no bairro Santo Antônio, em Sarzedo (MG), que sofre com a falta d'água
Imagem: Alexandre Rezende/UOL

Poluição e sede

O problema da falta de água não é novidade em Sarzedo, mas, segundo os moradores, vem piorando nos últimos dois anos, a ponto de os cortes periódicos de abastecimento se incorporarem à rotina. Em uma semana normal, a água para de correr na manhã de sábado, voltando só no final do domingo. É o que conta Daiana Silveira Queiroz, 37, que mora a três quarteirões de Maria José. "Quando tem água, temos que correr para fazer tudo: lavar vasilha, encher os tambores, limpar a casa. Quando está sem água, só fazemos o básico: banho e almoço."

Nos municípios vizinhos a Belo Horizonte, a crise hídrica já começou a ser sentida. Se antes era comum que a água faltasse sistematicamente nos fins de semana, nos últimos dois meses os episódios de escassez passaram a se estender por três, cinco e até sete dias.

"Quando saem denúncias no rádio, na televisão e nos jornais sobre a falta de água, acontece de ela voltar rapidamente, já no dia seguinte", afirma Maria José. "Imagino que a Copasa [Companhia de Saneamento de Minas Gerais] esteja fechando o nosso abastecimento, mesmo, para economizar. Se ligo lá e eles me atendem, o que aliás é raro, dizem 'tá tendo um probleminha, já estamos resolvendo', mas nunca resolvem."

A Copasa contesta. "Até o momento, não há previsão de racionamento na região metropolitana de Belo Horizonte", assegura a empresa, que afirma que o volume armazenado nos reservatórios que abastecem a Grande BH está "em torno de 72%, o que garante a estabilidade no fornecimento de água". Ainda segundo a empresa, "desabastecimentos pontuais em algumas regiões são necessários para possibilitar a execução de alguma manutenção corretiva ou preventiva, corriqueiras para o funcionamento do sistema".

Daiana Silveira Queiroz e o filho Davi, moradores de Sarzedo (MG). O racionamento de água é constante entre os moradores da localidade - Alexandre Rezende/UOL - Alexandre Rezende/UOL
Daiana Silveira Queiroz e o filho Davi, moradores de Sarzedo (MG)
Imagem: Alexandre Rezende/UOL

Água doada pelos vizinhos

Em setembro, os "desabastecimentos pontuais" de que fala a Copasa foram registrados em pelo menos 16 dos 34 municípios da Grande BH (o dado é confirmado pela própria companhia). Uma das localidades onde o problema é recorrente é Ribeirão das Neves. Lá, vivem mais de 338 mil pessoas.

A diarista Ana Paula dos Santos, 39, é uma delas. Ela mora com o marido e os quatro filhos adolescentes no bairro Vale das Acácias, em uma zona semi-rural da cidade. O terreno da família é amplo, tem horta e muitas plantas ornamentais, e é guardado por um cão de estimação.

Acostumada à rotina de escassez, Ana Paula espalha pela casa galões cheios de água, que usa para regar as plantas e fazer a limpeza doméstica. Quando termina o expediente na casa dos patrões, que vivem em BH, aproveita para tomar banho antes de pegar o ônibus de volta, reservando o que houver de água na caixa de sua casa para o banho do restante da família.

Embora o desabastecimento hídrico se prolongue em Ribeirão das Neves há mais de quatro anos, Ana Paula cobra providências da Copasa. "Ligo pra lá 24 horas por dia", diz, "e é mentira essa história de manutenção no bairro, esse esforço deles não existe".

Nas áreas nobres de BH, onde moram os patrões de Ana Paula, é raro que falte água por mais do que algumas horas, e, quando é o caso, a Copasa sempre avisa os moradores com a devida antecedência. Em Neves, o bem essencial fica às vezes até sete dias sem dar as caras.

Para Ana Paula, há uma explicação para isso. "Eles fecham aqui para não faltar em BH, por discriminação contra a gente. Estão racionando água: escolhem para quem vão dar, e para quem vai faltar."

Embora a água em sua casa nunca abunde, a situação de seus vizinhos é ainda pior. É comum que seus filhos peregrinem pelas ruas mais próximas, doando garrafas pets cheias aos demais moradores, motivo pelo qual são muito apreciados pela vizinhança. "Não vou deixar que falte para eles, né?", diz Santos.

O caminhão-pipa chegando a Sarzedo (MG), que sofre com a falta d'água há meses - Alexandre Rezende/UOL - Alexandre Rezende/UOL
O caminhão-pipa chegando a Sarzedo (MG)
Imagem: Alexandre Rezende/UOL
Caminhão-pipa chega a Sarzedo (MG): abastecimento irregular de água preocupa moradores há meses - Alexandre Rezende/UOL - Alexandre Rezende/UOL
Imagem: Alexandre Rezende/UOL

Uma de suas vizinhas, a estudante Rafaela Maria Leite, 26, se faz todo dia a mesma pergunta: por que nos bairros chiques de BH não tem esse problema?
Mãe de duas filhas, uma de 11 e outra de 4 anos, ela e o marido encontraram soluções paliativas para lidar com a falta d'água. Pratos e talheres, em sua casa, só descartáveis: assim, não é preciso lavá-los. Para beber e cozinhar, utilizam água mineral comprada na venda do bairro por cerca de R$ 15 (garrafa com 20 litros). A roupa suja é lavada na casa da mãe, que mora em Venda Nova, bairro de BH. E, para a filhinha, compraram lenços umedecidos, o que reduz os efeitos da secura do ar.

"A gente já está sentindo na pele os efeitos do racionamento. Desde que fosse bem organizado e comunicado à população — tal dia vai faltar, certo dia volta —, a gente já se preparava melhor. Não sei por que a Copasa não avisa. Talvez por irresponsabilidade pura, mesmo", reclama.

No dia do caminhão-pipa em Sarzedo, Ribeirão das Neves recebia água encanada, mas seu aspecto era branco, e tinha um carregado cheiro de cloro. "Não dava para beber e nem pra cozinhar", lamenta Rafaela.