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Streamers abrem a câmera para trabalhar e estudar em transmissões no Twitch

Monge Han, que transmite seu trabalho pelo Twitch - Arquivo Pessoa/Reprodução
Monge Han, que transmite seu trabalho pelo Twitch
Imagem: Arquivo Pessoa/Reprodução

Natália Eiras

Colaboração para o TAB, de Lisboa

02/10/2021 04h01

O trabalho remoto pode não ser fácil ou prazeroso para todo mundo. Ter que se dedicar aos afazeres profissionais ou estudar durante o distanciamento social tem sido solitário e, em alguns casos, pouco produtivo. Muita gente reclama. Eric Han reclama menos.

De segunda a quinta-feira, por volta das 14h, o artista, quadrinista e animador curitibano de 30 anos abre a sua câmera para trabalhar. Conhecido como Monge Han no Twitch, cujo canal tem mais de 10 mil inscritos, ele faz uma transmissão ao vivo onde se dedica a criar artes visuais para suas redes sociais ou para tocar freelas. Certos dias ele compartilha a tela para que sua audiência acompanhe os avanços dos trabalhos, mas, em outros, tudo o que a comunidade vê é seu rosto com uma expressão concentrada.

Doutoranda em estudos literários na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), Clara Matheus, 29, se comprometeu a trabalhar na tese de segunda a sexta-feira, das 14h às 16h — ao vivo, em seu canal do Twitch, onde tem 4,7 mil inscritos. Ela compartilhava o escritório apenas com o namorado, mas, desde fevereiro, também tem sua comunidade como companheira.

Amanda Flor, 22, é estudante de design e freelancer em Florianópolis (SC), mas também é streamer, conhecida como "Starry Peach". Com mais de 29 mil inscritos no Twitch, terminou seu TCC (trabalho de conclusão de curso) sobre tipografia sendo observada e assistida pela audiência. Atualmente faz streaming enquanto lê livros e termina trabalhos para seus contratantes.

O que os três streamers (criadores de conteúdo que se dedicam às transmissões ao vivo) têm feito é tendência em plataformas como o Twitch e TikTok. São as lives de produtividade e foco, cujo interesse tem crescido desde o início de 2021. Em vez de jogar jogos online ou falar sobre assuntos aleatórios, os criadores abrem suas câmeras para estudar sob o olhar atento da audiência. Não há interação. Estão todos, juntos, online, concentrados em seus afazeres.

Amanda Flor, 22, ou 'Starry Peach', terminou seu TCC sobre tipografia 'online', transmitindo na plataforma Twitch - Arquivo pessoal/Reprodução - Arquivo pessoal/Reprodução
Amanda Flor, 22, ou 'Starry Peach', terminou seu TCC sobre tipografia 'online', transmitindo na plataforma Twitch
Imagem: Arquivo pessoal/Reprodução

Tomatinho da produtividade

A dinâmica de uma live de produtividade é semelhante a de um dia de trabalho. No horário marcado, as pessoas começam a entrar no chat, dizem "boa tarde" e, em alguns casos, enumeram os afazeres do dia. Pode ser terminar um fichamento, escrever um artigo ou finalizar uma tarefa que precisa ser entregue o quanto antes. Quando o streamer entra na live, fala amenidades e incentiva a comunidade a interagir. Mas, a partir de um certo momento, ele coloca um cronômetro para rodar na tela.

Grande parte dos streamers de foco são adeptos da técnica Pomodoro, criada em 1988 pelo italiano Francisco Cirillo. No livro "A Técnica Pomodoro", o autor ensina o método de gestão de tempo que pessoas com tendência à procrastinação podem aplicar a diversas atividades que exigem foco. Nele, você usa um cronômetro para dividir seu tempo de produtividade em "sprints", que podem ser de 25 ou 30 minutos. Nesse período, o criador foca em suas atividades e motiva a comunidade a fazer o mesmo. O chat fica aberto, mas há administradores para minimizar as interações.

Após os sprints, os tempos de descanso, por sua vez, podem ser de 5 a 8 minutos. Nesses intervalos, os streamers falam com seus seguidores. Monge Han, por exemplo, faz o momento da fofoca. O público preenche um formulário com uma história que gostaria de compartilhar com a comunidade e o criador as lê durante o descanso.

"Essa ideia veio da saudade que a gente tinha de virar a cadeira pro lado e trocar uma ideia com o colega de baia", conta o criador, em entrevista por telefone. Clara Matheus já deu dicas profissionais e fala sobre seus métodos de estudo, explicando as técnicas que usa para fazer fichamento, por exemplo. Sem falar das indicações de material de papelaria. "Tenho uma caneta marca-texto apagável que é um sucesso de pedidos. Sempre que mostro, todo mundo quer saber qual a marca", fala, rindo. Quando o cronômetro toca, no entanto, acaba o papinho e é hora de voltar aos afazeres.

O fato de provarem na frente das câmeras o traquejo no controle do tempo é um atrativo da audiência, uma vez que há muita gente que sente que não tem produzido tanto. A sensação não se restringe ao público. A baixa produtividade foi um dos incentivos para que os próprios streamers começassem a fazer esse tipo de live. Monge Han sentia que, após um tempo em confinamento, já não rendia como antes. "Estava ficando sobrecarregado, porque queria fazer lives à noite mas não estava dando conta dos trabalhos durante o dia. Então juntei os dois em fevereiro deste ano", fala. Foi o jeito de balancear a vida fora da plataforma de streaming com seu trabalho com a comunidade.

Clara Matheus, 29, que compartilha o trabalho em sua tese de doudorado em lives pelo Twitch - Arquivo pessoa/Reprodução - Arquivo pessoa/Reprodução
Clara Matheus, 29, que compartilha o trabalho em sua tese de doudorado em lives pelo Twitch
Imagem: Arquivo pessoa/Reprodução

Hoje em dia, ele tem mantido a boa produtividade e as lives de foco se tornaram o principal conteúdo de seu canal. "Não sei se estaria produzindo tão bem se não fossem elas."

Com diagnóstico de dislexia, Amanda Flor tinha dificuldade de se concentrar. Quis criar esse compromisso com a comunidade, porque eu tenho que trabalhar, é uma forma de eu me cobrar a produzir. Assim como ela motiva a audiência, o público também a incentiva a não interromper seu fluxo de produção.

Já Clara Matheus tem um prazo extenso para entregar a tese do doutorado, marcado apenas para maio de 2023. "Mas não quero deixar para a última hora, por isso decidi criar as metas de trabalho. Como já teria que fazer a tese, resolvi ganhar um dinheirinho com isso", diz.

A dupla monetização do tempo de trabalho também é um incentivo. Nenhum deles tem o Twitch como principal fonte de renda, mas os ganhos na plataforma são um complemento para pagar as contas no fim do mês. Enquanto trabalham ou conversam com o público, a comunidade pode mandar bites, espécie de presentinhos. A cada 100 deles, o criador ganha US$ 1. Caso uma pessoa faça uma assinatura paga do canal, o streamer leva de 30% a 80% do valor da mensalidade, que é R$ 7,90, a depender do contrato que estabelecer com a plataforma. "Hoje em dia é pouco, mas já é algo. Antigamente, ganhava-se muito mais", afirma Clara, que aderiu, em agosto, ao Apagão dos Streamers, movimento que os criadores fizeram para protestar contra a diminuição na remuneração repassada pelo Twitch.

Companheiros de trabalho

O psicólogo Yuri Busin, especializado em neurociência do comportamento, diz que há uma diferença entre se sentir sozinho e solidão. "O segundo sentimento é algo que existe mesmo quando você está em um estádio de futebol cheio. O primeiro é algo da falta de socialização", fala o especialista. O trabalho remoto pode reforçar a sensação de estar sozinho. "E somos animais sociais. A falta de estar falando com alguém, a companhia, foi o que mais nos abateu durante o isolamento social."

Tendo em vista que a técnica Pomodoro não necessita de uma pessoa para gerenciar seu tempo, o papel dos streamers vai além do cronômetro e também é uma espécie de conforto emocional para quem tem que produzir sozinho, dentro de casa. "É uma companhia para trabalhar, estudar", diz Amanda. A streamer acredita que o confinamento foi crucial para o surgimento e crescimento do interesse pelas lives de produtividade. "Enquanto o mundo parece estar acabando lá fora, ajuda bastante ter alguém para não se sentir sozinho, com quem você pode conversar e esquecer um pouco dessa ideia."

"Está difícil viver no país. É difícil se concentrar, principalmente quando se está sozinho", complementa Eric Han. Os streamers seriam, assim, como colegas de baia ou de biblioteca de quem não está dentro de um escritório. "A live preenche esse vazio."

É claro que há quem estranhe esse tipo de conteúdo. Quando Amanda Flor abriu sua primeira live de produtividade, muita gente caiu ali sem entender nada. "Eu tinha que ficar explicando no chat", fala a streamer. Clara Matheus nem mesmo consegue explicar direito o que tem feito em suas transmissões para seus colegas de doutorado, apesar de nenhum deles a julgar por isso. "Preciso confessar que eu mesma acho esquisito", diz a doutoranda. "Uma parte de mim quer entender porque isso estava acontecendo. Quem são essas pessoas? Eu sei que gosto, que me faz bem fazer as lives, mas por quê? Também estranhei muito."

Para Busin, com o retorno parcial dos trabalhadores aos escritórios, a prática não deve perder força. "As pessoas têm usado esse conteúdo muito bem, mas, evidentemente, é uma ferramenta, mas não uma substituta da socialização."

Errata: o texto foi atualizado
A primeira versão deste texto afirmava que o valor da assinatura no Twitch era de US$ 7,90, e esse valor era repassado integralmente ao streamer. Na realidade, a plataforma repassa 30% a 80% desse valor, em reais. O trecho foi alterado.