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Frio e calculista: como a série 'Peaky Blinders' virou ícone masculinista

Thomas Shelby, o protagonista de "Peaky Blinders", interpretado pelo ator Cillian Murphy - Divulgação
Thomas Shelby, o protagonista de 'Peaky Blinders', interpretado pelo ator Cillian Murphy Imagem: Divulgação

Marie Declercq

Do TAB, em São Paulo

04/10/2021 04h00

No ecossistema de conteúdos para o público masculino heterossexual na internet reina um homem. Nascido no final do século 19, tem olhos azul-piscina penetrantes, é corrupto, moralmente ambíguo, charmoso, ama a família, usa ternos bem cortados e já matou muita gente. Ele também não existe. Thomas Shelby, protagonista da série britânica "Peaky Blinders", transcendeu o vale ficcional e é usado como exemplo perfeito em termos de masculinidade e sucesso profissional.

No nicho do Instagram voltado para temas de empreendedorismo, relacionamentos e autoajuda para homens, outros personagens da cultura pop também dão as caras, como Don Corleone, Coringa, Don Draper e James Bond. Mas Thomas Shelby é unanimidade, quase como um amigo imaginário. Quando uma foto do personagem é publicada nestes perfis, o engajamento cresce.

O carisma do protagonista, que na série lidera uma gangue, contribuiu para que a internet replique fotos de Shelby fumando um cigarro intensamente, ameaçando alguém ou tomando uísque com um ar melancólico, sempre com dicas sobre como ignorar sentimentos.

O ídolo deles

Thomas Shelby circula num espaço digital formado por canais de YouTube, fóruns e perfis no Instagram frequentados majoritariamente por homens. Influenciadores desse nicho produzem análises de linguagem corporal, dicas de relacionamento, conquistas amorosas e de desenvolvimento, além de abordarem política e religião.

Nem todos os conteúdos produzidos nesse universo são agressivos e misóginos, mas não é raro ver algum perfil moderado interagindo com contas mais virulentas, que reproduzem conceitos típicos de grupos radicalizados como os incels, que hoje rejeitam esse termo, e os MGTOW — em tradução livre, "Homens seguindo seu próprio caminho", grupos virtuais que seguem a filosofia de que os homens devem rejeitar a obrigação de formar família e manter relacionamentos amorosos com mulheres.

Thomas Shelby parece a figura masculina ideal para todas essas tribos, especialmente no perfil "Homem de Valor", seguido por 2 milhões de usuários. Nos posts, Shelby aparece ao menos cinco vezes por semana ilustrando conselhos como "Engole o choro e levanta a cabeça. As pessoas estão pouco se fodendo para seus sentimentos."

Responsável pelo perfil, Thiago Costa, 38, confirma a popularidade do personagem. "Alguns que reclamam que é um criminoso, mas são bem poucos. No geral o pessoal gosta, e me identifico muito com a personalidade dele: estrategista, um cara que acredita e valoriza a família", explica o influenciador, que criou "Homem de Valor" em 2014. Segundo ele, a página se propõe a ensinar valores sobre relacionamentos, trabalho, família e finanças que deveriam estar presentes na formação de todo homem.

"Criei o perfil para ser uma inspiração para homens sem boas referências, ou para jovens criados por mães ou avós.(...) Vemos tantas mulheres se empoderando e a nova geração de homens ficou para trás. Temos que estar à altura dessas mulheres", afirma.

Apesar do público em sua maioria masculino, Costa garante que "Homem de Valor" também atrai mulheres. Ele rejeita qualquer alinhamento com perfis mais radicalizados. "A comunicação é masculina, mas não é machista", afirma. "Não vejo a mulher como se estivéssemos em competição ou disputa. É um complemento, o homem precisa de uma companheira para ser completo."

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Thomas Shelby, personagem principal de "Peaky Blinders" se tornou uma espécie de amigo e guru imaginário de perfis voltados para homens
Imagem: Reprodução

"Todo gangster é um empreendedor"

"Homem de Valor" ilustra a simbiose entre os perfis que abordam masculinidade e os que dão dicas de sucesso profissional e empreendedorismo. Costa oferece cursos de marketing digital e mantém outra conta, "DNA Empreendedor", que usa fotos de bilionários como Elon Musk, Steve Jobs e Jeff Bezos para ilustrar conselhos aos seguidores.

Com a piora da economia brasileira, ele diz ter observado um aumento expressivo de seguidores. "O público masculino é um pouco carente de comunidade. O homem não gosta de expor seus problemas, e às vezes a resposta vem nessas páginas", explica. É aí que Shelby se encaixa como inspiração. "Ele passa por uma grande transformação na série, pois almejou mais, teve ambição, estratégia. Existe uma filosofia ali".

"Antigamente era melhor"

Felippe Chaves, 41, criou o perfil de Instagram "Fúria e Tradição", em que defende o resgate de valores masculinos que, em sua visão, andam prejudicados. Alguns dos temas mais criticados pela conta são pautas defendidas pelo movimento feminista, como direitos reprodutivos, igualdade salarial e divisão do trabalho doméstico.

"Um dos grandes problemas da sociedade de hoje é que temos um paradigma social dominante do sexo feminino. Sempre colocamos a mulher como exemplo positivo a ser seguido", alega. "Minha página é um tentativa de resgatar esses valores do homem, da diferença biológica do homem, e dessa experiência antropológica masculina."

Ainda que o perfil não faça menção direta a isso, seu criador transita pelo universo bolsonarista em rodas de conversa, podcasts e colaborações com figuras como o delegado Paulo Bilynskyj. Defensor de armas, especialmente para defender a propriedade privada, e do resgate da "masculinidade tradicional", o delegado ganhou notoriedade após sofrer uma tentativa de homicídio pela então namorada, que em seguida cometeu suicídio.

Após a publicação da errata de que a investigação policial foi concluída, o delegado entrou em contato com o TAB dizendo ser alvo de "fake news" pelo veículo. De acordo com Bilynskyj, ao dizer que o caso estava sendo investigado, o texto da reportagem deu a entender que o agente público teria algum tipo de responsabilidade no caso de que foi vítima. "O caso não está sob investigação. Ele já tinha sido concluído, de forma que não havia qualquer responsabilização contra mim", afirmou.

Nos Stories do Instagram, Chaves mostra o porte físico robusto e o rosto embrulhado em uma barba negra ao responder dúvidas dos mais de 200 mil seguidores com base em sua crença em valores tradicionais e católicos sobre problemas em relacionamentos, com famílias e no trabalho. No perfil, mais ideologicamente explícito que os demais, não é difícil encontrar conceitos típicos de fóruns de conteúdo misógino. Um deles é a crença na hipergamia, a noção de que mulheres tenderiam a procurar homens com atributos sociais e físicos superiores aos seus.

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Com o conteúdo mais agressivo, a página 'Fúria de Tradição' quer ensinar os verdadeiros valores da masculinidade
Imagem: Reprodução/Instagram

Chaves afirma se afastar de MGTOWs e grupos semelhantes por acreditar que o homem "alfa" é o que forma uma família e não rejeita completamente as mulheres, como defendem alguns destes grupos. Sua esposa gerencia um perfil chamado "Simples e Bela", com ensinamentos sobre a feminilidade ideal. Grande parte das fotos de mulheres usadas como "exemplo" nos posts são saídas de bancos de imagens ou de ilustrações dos anos 1950 e 1960.

Mesmo acreditando no conceito de "cidadão de bem", Chaves considera possível encontrar bons exemplos de masculinidade em criminosos ficcionais, como Don Corleone e o próprio Shelby. Fã de "Peaky Blinders'", diz se focar mais nas características "amorais e antropológicas" do protagonista.

Questionado se alguma figura brasileira poderia aparecer em sua página, Chaves pensou alguns segundos antes de dar uma resposta. "Acho que seria o Capitão Nascimento".

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Imagem: Reprodução/Instagram

Além do meme

Para Beatriz Blanco, doutoranda em Ciências da Comunicação e integrante do Cultpop (Laboratório de Pesquisa em Cultura Pop, Comunicação e Tecnologias da Unisinos), o apego a personagens fictícios nesse universo reflete um "otimismo cruel" no qual personagens se tornam exemplos inatingíveis, gerando um ciclo de autoflagelação.

"O resgate feroz dessas figuras fictícias que simbolizam tomada de poder, agressividade e outras características relacionadas à masculinidade serve para falar que se o cara falhou em alguma dessas coisas, ele é fraco", explica.

De acordo com a acadêmica, o sucesso desses gângsteres e de outros anti-heróis da cultura pop vem de uma falsa sensação de que eles estariam salvando ou resgatando algo que nunca deixou de existir — ou nem sequer está em risco.

"Embora a figura tradicional de masculinidade esteja sendo um pouco mais desafiada, não é como se as estruturas de poder entre gêneros estejam ameaçadas. Mulheres negras continuam sendo o segmento mais prejudicado da população, as minorias continuam sendo discriminadas. O máximo que pode acontecer é o cara levar uma chamada de atenção no trabalho em casos de assédio", rebate. "O grande truque desses perfis é pegar uma coisa extremamente tradicional e vender como contracultura, como se quem gostasse desses personagens fosse pária do sistema". E o que seria o sistema? "Pode ser a família que não dá apoio, a namorada que gerou frustração, tudo pode se tornar o 'sistema'".

Errata: o texto foi atualizado
Ao contrário do que foi informado na versão anterior desta matéria, a investigação policial da tentativa de homicídio do delegado Paulo Bilynskyj foi encerrada em julho de 2021. O trecho foi retirado e foi inserida uma declaração do agente público esclarecendo que não teve qualquer responsabilização no caso.