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Envelhecer no cárcere: como é ver o tempo passar atrás das grades

Osmar da Silva, 69, passou quase 30 anos em reclusão - Edson Lopes Jr./UOL
Osmar da Silva, 69, passou quase 30 anos em reclusão Imagem: Edson Lopes Jr./UOL

Beatriz de Aquino e Diandra Guedes

Colaboração para o TAB, de São Paulo

23/10/2021 04h01

O corpo de Kric Cruz, 64, estremece com a lembrança de uma das noites mais terríveis de sua vida, ilustrada com sons altos e claros de gritos em agonia e corredores escuros, lotados de estudantes que aguardavam a vez de serem torturados.

É só nesse momento que o sorriso no rosto e o jeitão animado de Kric dão lugar a arrepios e expressões de quem guarda na pele, até hoje, os acontecimentos que viveu.

Kric tinha 14 anos de idade quando foi pego em um assalto e transferido do Deic (Departamento Estadual de Investigações Criminais), de madrugada, ao antigo Dops (Departamento de Ordem Política e Social) em São Paulo. Foram horas de choques e espancamentos que, segundo ele, serviam apenas como exemplo — e ameaça — aos jovens subversivos que lutavam contra a ditadura. "Nosso corpo era um corpo descartável", lamenta.

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Kric Cruz: em detenção desde os 14 anos, foi construindo um outro destino para si
Imagem: Beatriz de Aquino/UOL

Foi graças a uma transferência para o presídio do Hipódromo e um plano de fuga que Kric não morreu. Saiu carregado nos ombros de Chaminé, amigo seu até hoje, que gritava, em meio ao tumulto, "vou te levar, mano, vou te levar".

Dali, Kric foi parar no Rio de Janeiro, no alto de um morro onde sua perna foi tratada por senhoras que moravam por lá. Perdeu parte da visão, audição e sofre com dores até hoje.

Entre o tempo e a memória

Cinquenta anos depois, Kric se ajeita na cadeira do escritório do espaço cultural que fundou no número 407 da Vila Missionária, zona sul de São Paulo. É ali que o ex-detento conta sua história. "Nasci no cárcere", revela.

Kric, apelido para Claudio, é como o "homem na estrada" que Mano Brown canta. O cabelo crespo grisalho e as rugas na pele negra até denunciam a idade, mas não ofuscam uma personalidade extremamente inquieta.

O motivo da infância perdida nem ele sabe ao certo, já que foi criado em um RPM (Recolhimento Provisório de Menores) no bairro do Tatuapé. Kric acredita ter chegado lá por volta dos quatro anos de idade. Aos nove, cansado de tanto apanhar, decidiu fugir. "Quis me vingar de tudo que passei."

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Kric Cruz em seu espaço cultural: aulas e esperança
Imagem: Beatriz de Aquino/UOL

Depois da fuga do RPM, Kric foi para o antigo Instituto Disciplinar de Mogi Mirim, de onde conseguiu escapar com um bando de garotos. Em 1979, aos 23 anos, veio sua primeira condenação e foi nesse ano que colocou os pés, pela primeira vez, no Carandiru. "Ali era como se eu estivesse no meu habitat."

Apesar de nunca ter presenciado um estupro, Kric se lembra bem dos gritos de um dos jovens que chegou à cadeia e foi violentado. "Se ninguém descobrisse, ficava por isso mesmo. Mas se descobrissem quem era o estuprador, morria."

Ao longo dos anos que tirou de cadeia, Kric conseguiu algumas fugas e rodou por outros presídios de São Paulo, como Avaré I e II, Penitenciária do Estado, Araraquara, Venceslau, Franco da Rocha, até chegar ao Centro de Progressão Penal de Bauru, Mongaguá e São Vicente, último em que colocou os pés e do qual saiu em 2009 para nunca mais retornar. Foi no Carandiru que cumpriu 18 anos de sua pena, chegando a ser encarregado da faxina, cargo de quem, na época, tinha a capacidade não só de organizar o presídio, mas de controlar os detentos e acalmar as rebeliões.

Na cadeia, recebeu visita somente uma vez de sua mãe, com quem nunca mais falou ao ouvir que era lá mesmo que ele merecia estar. "Eu fazia as minhas visitas", revela, ao dizer que sempre conhecia a irmã ou mãe de algum colega — que passavam a ser suas esposas.

Quando olha para trás, Kric garante que nunca foi da malandragem, sempre foi no embalo. Em seu íntimo, desejava ter outro destino. Até que decidiu estudar. "Não conheci o lado de ter pai, celebrar aniversário, ter meu quarto... Então resolvi aprender a ler e saber por que eu estava naquilo."

Kric passou a devorar livros e contou com toda a ajuda de João, professor voluntário no Carandiru que, segundo Kric, o "adotou na hora". Foi graças à educação que Kric conseguiu ajudar a acalmar o presídio depois do massacre, em 1992. Na época, ele e outros tantos "encarregados", que tinham funções importantes por lá, foram transferidos para outros presídios. "Só que a cadeia ficou sem controle", segredou.

Como o clima era de morte no Carandiru, a solução foi trazer de volta os detentos transferidos para remediar a situação. Kric foi um deles, e voltou à Casa em 1996. "Fui com ideia de implementar cultura, mostrar que não tem só o crime lá dentro." Foi aí que nasceu o grupo de rap Comunidade Carcerária, que ele mantém com os companheiros de cela até hoje, e o documentário "O Prisioneiro da Grade de Ferro", dirigido por Paulo Sacramento e que contou com ajuda de Kric e vários outros detentos.

"A cultura teve um resultado muito forte, então a paz reinou por um bom tempo", afirma. Mas em meio a isso, os detentos começaram a se organizar para fundar o PCC. "Teve um grande assédio em cima de mim e dos meus parceiros para a gente se batizar, mas eu não queria." Para escapar da morte, Kric foi com tudo para cima da cultura e foi poupado.

Como o Carandiru fechou suas portas em 2002, foi transferido para Franco da Rocha e depois para Centros de Progressão de Pena. Em 2009, ganhou a liberdade e hoje, além do grupo Comunidade Carcerária, dá aulas de teatro e rap em seu espaço cultural, faz palestras, apoia movimentos contra o encarceramento e atua para tirar jovens do crime e das drogas.

"O cárcere muitas vezes destrói a pessoa, mas minha mente não deixei envelhecer."

Novos caminhos contra a amargura

Os olhos de Osmar Fiotkoski, 69, refletem um brilho de malícia de quem não perdeu o espírito da juventude. Em contraste com a expressão de menino, as rugas evidenciam a história de quem já viu a maldade de perto várias vezes na vida.

Levanta-se cedo todos os dias em um pequeno cômodo que alugou na cidade de Poá (SP) para estar mais perto de onde trabalha: o Instituto Recomeçar, braço da ONG Gerando Falcões, que nasceu dos debates que tinha com seu amigo Leonardo Precioso na época em que ambos cumpriam pena no Centro de Progressão Penitenciária de Valparaíso, em 2008.

Osmar é um dos fundadores do Recomeçar e foi esse anseio por mudança que o fez aguentar os mais de 30 anos no sistema carcerário, entre idas e vindas. Aos 11 anos de idade, fugiu de casa, onde tinha uma vida tranquila. "Meu pai era dono de uma fábrica de sanfonas, mas sempre tem uma ovelha que desgarra, né? Eu desgarrei, não sei por quê."

A partir daí, Osmar passou a conviver com mulheres de um bordel, mas naquele momento garante que o submundo já havia o abraçado. Tinha apenas um ano a mais quando cometeu seu primeiro roubo e foi enviado para o antigo RPM do Tatuapé. Assim como Kric, Osmar não perdia as chances de fugir dos institutos para menores.

Por volta dos 20, veio a primeira condenação e, com o tempo, a passagem por vários presídios, como Penitenciária do Estado, Presídio de Araraquara, Presidente Venceslau, Casa de Custódia em Taubaté e Carandiru. Durante os anos em que esteve preso, viu muita gente dar fim à própria vida. "Os caras não aguentavam, era muita pressão psicológica", conta. "Eu abria a janela e via um cara pendurado e pensava 'nossa, mano... tem que ser muito forte'."

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Osmar da Silva, 69: novos caminhos após o cárcere
Imagem: Edson Lopes Jr./UOL

Mas a lembrança mais forte que tem, e com a qual se arrepia todo ao narrar, é quando descobriu que sua mãe havia morrido. Osmar chegou a rever a família apenas uma vez, desde que saiu de casa, quando recebeu uma visita do pai. "Ele me disse que eles não tinham condições de passar por aquilo. E aí eu falei: 'está certo, pai, não vem mais, nem o senhor nem a mãe'."

A notícia de que ela havia falecido veio como um tiro, disparado pela boca de um carcereiro. Osmar estava dentro da cela e ouviu: "sua mãe morreu". "Dei um soco tão forte na porta com uma força tão violenta que eu não sei como não quebrei a mão", relembra.

Agora já na velhice, Osmar não consegue deixar de fazer "cara de mau" para as fotos e ri, desconcertado, quando recebe o pedido por um sorriso. Apaixonado pelos livros, revela ter ainda muitos sonhos, entre eles transformar a vida de quem cometeu os mesmos erros que ele. É algo que tem feito desde que ganhou a liberdade em 2014 e foi puxado por Leonardo para trabalhar no Gerando Falcões e construir a Recomeçar.

Osmar e Kric concordam que só não viraram homens amargurados por causa de tudo que têm feito. Eles conseguiram encontrar novos caminhos após o cárcere.