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Carta denuncia situação de abandono de jogadoras em clube famoso do RN

O time do América/RN todo reunido: dificuldades denunciadas em carta - Patrícia Oliveira/ Divulgação
O time do América/RN todo reunido: dificuldades denunciadas em carta Imagem: Patrícia Oliveira/ Divulgação

Luiz Henrique Gomes

Colaboração para o TAB, de Natal (RN)

20/10/2021 04h00

Em 5 de outubro, a educadora física Júlia Medeiros acordou com centenas de notificações no celular. Já sabia o que era. Ex-coordenadora da equipe de futebol feminino do América/RN, ela havia divulgado em seu perfil do Instagram uma carta em que, em tom de desabafo, denunciava a situação de abandono das atletas do time e pedia apoio. Não demorou para a repercussão sair do controle.

A carta afirma que Júlia e uma equipe técnica formada por 15 profissionais, todos voluntários, arcaram com despesas como alimentação e remédios, sem o apoio do clube. O texto ainda cita duas jogadoras lesionadas que não receberam tratamento médico. Um valor de R$ 50 mil, repassado pela CBF (Confederação Brasileira de Futebol) a todos os clubes da Série A2 do Campeonato Brasileiro Feminino, como auxílio financeiro, não teria sido utilizado com a equipe.

julia - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Júlia Medeiros, ex-coordenadora da equipe de futebol feminino do América/RN
Imagem: Arquivo pessoal

Havia algumas semanas que Júlia pensava em escrever a carta, mas o medo da repercussão a impedia. Quando a participação do América/RN na Série A2 do Campeonato Brasileiro se encerrou, em junho, a ex-coordenadora viveu a agonia de tentar ajudar as atletas e a pagar as dívidas contraídas durante o campeonato, já que o clube não havia arcado com todas as despesas até aquele momento.

Ela fazia reuniões, ouvia as jogadoras e organizava as contas mais urgentes da equipe, como pagar passagem de volta para jogadoras que moravam em cidades distantes. Ainda trabalhava como servidora pública à tarde e personal trainer à noite para se bancar. Uma hora, as forças secaram. "Adoeci de verdade, minha saúde mental se esgotou. Precisei procurar ajuda médica", conta à reportagem do TAB.

Cinco anos de dedicação

Júlia Medeiros, 26, é graduada em educação física e nos últimos cinco anos se dedicou ao futebol como coordenadora de equipes. A potiguar nunca foi jogadora, mas se envolveu com a modalidade na universidade e passou a atuar para a profissionalização do futebol feminino no Rio Grande do Norte.

Ela procurou o América/RN para montar uma equipe de futebol feminino em 2020, depois de passar três anos vinculada ao Cruzeiro de Macaíba, um pequeno clube da região metropolitana de Natal. No Cruzeiro, foi campeã estadual em 2018 e 2019 e conseguiu uma vaga na Série A2 do Campeonato Brasileiro Feminino, equivalente à Série B do futebol masculino.

Após a desclassificação do Cruzeiro na primeira fase, Júlia decidiu ir em busca de clubes com mais potencial de investimento.

Time mais tradicional do Rio Grande do Norte ao lado do ABC FC, o América/RN era uma oportunidade de convencer mais empresas a patrocinarem o futebol feminino. O clube estava disposto a montar uma equipe e aceitou a proposta. O vínculo entre o futebol feminino e o América/RN permaneceria semelhante ao do Cruzeiro de Macaíba: a equipe técnica e as atletas não receberiam nada, e o clube entraria com a estrutura para treino, alojamento, materiais esportivos e despesas de jogos.

No primeiro campeonato de que participaram, o Estadual de 2020 (realizado este ano devido à pandemia), a equipe foi campeã e conseguiu a vaga na Série A2 do Brasileiro. Disputaram o torneiro entre abril e junho deste ano, quando foram desclassificadas na primeira fase.

Enquanto disputaram o estadual e o Brasileiro, as jogadoras ficaram alojadas nas dependências do clube. Algumas eram de outros estados e não tinham outro lugar para morar. "Muitas vezes eu tinha de correr atrás do básico para as atletas, como um frango ou uma carne para o almoço, porque o clube não oferecia", conta. Com a desclassificação, a equipe foi desfeita.

Em junho, a CBF ofereceu auxílio financeiro às equipes com menor capacidade de receita. O América/RN recebeu R$ 50 mil. Segundo a CBF, a verba foi destinada "exclusivamente para o cumprimento das obrigações do clube com seus jogadores e jogadoras, não podendo ter outra destinação".

O dinheiro, no entanto, não foi utilizado com a equipe comandada por Júlia. Nos meses seguintes, a educadora física procurou o presidente do América/RN, Ricardo Valério, para obter a liberação do recurso, mas só conseguiu se reunir com ele uma única vez até a divulgação da carta. Valério alegou ter ficado doente no período.

Ao TAB, o presidente do América/RN afirmou que o recurso não pode ser utilizado com a equipe que disputou o Campeonato Brasileiro porque chegou às finanças após a equipe ser desfeita. "Guardamos o dinheiro para utilizar no próximo ano, para não termos problemas na contabilidade", disse. Apesar disso, o clube não sabe se terá uma equipe de futebol feminino em 2022 para aproveitar esse dinheiro.

Respeito ao sonho

Leandra Bernardes, 22, aceitou o convite de Júlia Medeiros para integrar a equipe do América/RN a poucos dias do Brasileiro ter início, em abril. Sem garantia de salário, saiu de Jaguaruna, município cearense onde nasceu, e foi morar no alojamento do clube em Natal. Mas, depois do segundo jogo, lesionou o joelho e ficou de fora do restante dos jogos.

Leandra Bernardes - Patrícia Oliveira/ Divulgação - Patrícia Oliveira/ Divulgação
Leandra Bernardes: lesionada e sem apoio
Imagem: Patrícia Oliveira/ Divulgação

Ela é uma das duas atletas que se machucaram e não receberam assistência do departamento médico. Somente passados cinco meses da lesão, na quinta-feira (14), o América/RN anunciou que ia arcar com o tratamento da atleta.

Após o campeonato, a jogadora retornou para a casa da família. Ela conseguiu a fisioterapia para tratar o joelho em uma unidade de saúde do município, mas não foi às sessões por morar muito longe.

Filha de agricultores e desempregada, Leandra não tem dinheiro para pagar o transporte. Nas vezes em que foi, precisou atravessar 21 quilômetros de moto em uma estrada de barro com restos de carcaças de animais em alguns trechos. Impossível para o joelho aguentar o trajeto.

Sem ter certeza de quando vai estar pronta para jogar novamente, a jogadora se preocupa com a carreira, interrompida no momento em que ela acreditava ter realizado um sonho. Em 2020, antes de ser chamada para o América/RN, assinou pela primeira vez a carteira de trabalho como jogadora profissional em um clube do Ceará, do qual acabou dispensada quando a pandemia surgiu.

"Dois anos antes, tinha escutado que devia procurar um marido e me dedicar a cuidar da minha casa porque eu nunca ia me tornar uma jogadora profissional. Então, quando vi minha carteira assinada, sabia que tinha alcançado algo muito difícil", conta ao TAB, numa videochamada. "Sinto que meu sonho pode ir embora. As pessoas precisam respeitar o sonho do próximo."

Fim de um ciclo

Após a divulgação da carta de Júlia Medeiros, as atletas receberam apoio público de parte da torcida do clube e de fãs do futebol feminino. Dezenas de rádios, TVs e jornais procuraram a educadora física, que precisou fechar o Instagram para controlar a repercussão e passou a contar com a ajuda de uma colega para cuidar da rede social.

Uma semana depois da carta, o presidente do América/RN, Ricardo Valério, procurou a ex-coordenadora. Ele se comprometeu em quitar o restante das dívidas e a dar o auxílio médico às duas atletas lesionadas. Leandra terá sua ressonância paga pelo América/RN. Ao TAB, contou que não deu o auxílio antes porque não havia tomado conhecimento do caso oficialmente. E ressaltou que a verba vem dos recursos próprios do clube, e não dos R$ 50 mil, que continuam sem uso.

Na quinta-feira, 14, Ricardo se reuniu com Júlia na sede do clube, em um bairro de classe média de Natal. A ex-coordenadora chegou à sala de reunião às 10h, e o presidente, dez minutos depois. Estiveram reunidos por 20 minutos, nos quais Ricardo elogiou o trabalho de Júlia, pediu desculpas pela situação e garantiu que vai quitar todas as dívidas. O uso dos R$ 50 mil também foi garantido para a próxima equipe de futebol feminino do América/RN.

Para Júlia, no entanto, a situação significou o fim da atuação após cinco anos dela no futebol. Depois de adoecer, decidiu largar o futebol e se dedicar a outras atividades. "Sei que essa é a situação da maioria dos clubes pequenos do Brasil, sem apoio de empresas, de torcida. É preciso matar um leão por dia, conseguir alimentos e doações. Chegou o momento em que não aguentei mais", disse ao TAB.