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Black Friday nos mercados de SP: 'Caro não tá, a gente é que tá quebrado'

Apesar dos descontos, consumidores não lotaram supermercados na Black Friday Imagem: Reinaldo Canato/UOL

Mateus Araújo

Do TAB, em São Paulo

27/11/2021 04h01

Por volta das 9h30 da sexta-feira (26), os funcionários de um mercado popular na Mooca, zona leste de São Paulo, organizavam as etiquetas de preço nas prateleiras e no freezer. Nas televisões espalhadas pela loja e nos jornais de oferta distribuídos logo na entrada, os destaques do dia eram os descontos de quase R$ 10 em carne, produto cujo consumo despencou durante a pandemia por causa do valor exorbitante da proteína no país.

Na loja, a promoção do quilo do acém era anunciada em uma placa amarela: de R$ 31,90 para R$ 22,90. No mesmo corredor, a linguiça toscana saía de R$ 26,95 por R$ 16,90. A empolgação era grande.

O brasileiro está acostumado a esperar a última sexta-feira de novembro (que geralmente coincide com a primeira parcela do 13º salário) para conseguir — ou pelo menos tentar — fazer compras com preço mais baixo. Do lado do lojista, a Black Friday de 2021, carregada de expectativa de algum movimento maior de vendas, foi planejada para também movimentar um setor em especial: o dos alimentos que, segundo dados do IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), acumulou alta de 11,71% até outubro.

Numa projeção feita pela CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo), as vendas nas promoções deste ano devem chegar a R$ 3,93 bilhões. Desse total, R$ 779,09 milhões são receitas de hiper e supermercados, que perdem apenas para móveis, eletrodomésticos e eletroeletrônicos.

Carne foi um dos itens com desconto nos mercados de SP Imagem: Reinaldo Canato/UOL

Enchendo o carrinho

Em um supermercado da avenida Alcântara Machado, também na Mooca, a empresária Elisete Xavier, 53, tirava afobada de um refrigerador pedaços de carne. A pressa não era por medo de que os produtos acabassem em fração de minutos — já que no local não havia mais ninguém. Dona de um restaurante, ela arranjou um tempo antes do trabalho para fazer as compras que abasteceriam o estabelecimento no Brás.

Com ajuda de um de seus funcionários, Xavier enchia o carrinho com mais de 30 quilos de coxa, sobrecoxa e filé de frango. Ela esvaziou a geladeira. "Sou cliente daqui e eles enviaram um e-mail com a lista de promoções. Vim correndo", dizia a mulher.

O quilo de coxa e sobrecoxa, que a empresária compra de um fornecedor do restaurante por R$ 9,90, estava a R$ 8 na promoção. No filé, a vantagem dela era de R$ 3 baixando de R$ 16 para R$ 13. "Não está barato, mas está mais em conta. É uma vantagem", explicava. "Dependendo, se eu conseguir, volto mais tarde para comprar mais."

Elisete Xavier, 53, aproveitou os descontos para abastecer o restaurante dela no Brás Imagem: Reinaldo Canato/UOL

Arroz a prestação

Em outro hipermercado do bairro, que pertence a uma rede nacional, as placas em preto e amarelo orientavam os clientes com relação aos descontos da promoção. Entre os anúncios de bicicletas, ventiladores e colchões também estava o de alimentos, que, além de mais em conta, podiam ser parcelados em até três vezes sem juros.

Ao contrário das cenas de correria, filas longas e tumultos, típicas da Black Friday em anos anteriores, lá dentro era possível andar tranquilamente. No setor de carnes e congelados, uma senhora encostava em uma das geladeiras empurrando um carrinho com caixas de leite. Ela forçava a vista para enxergar os letreiros com os preços de peixe. Um pacote com cinco merluzas, sem cabeça, havia caído de R$ 18,29 para R$ 12,80.

"Baixou mesmo?", retrucou, ao ser interpelada pela reportagem do TAB sobre o que estava achando dos preços. "Caro não tá, a gente que tá quebrado...", emendou, sem querer dizer o nome ou fazer foto. "Eu tô toda desarrumada", ria a mulher, vestindo shorts, blusa de alcinha e sandália.

Mais afastada do setor de carnes, a promoção que aglomerava gente no supermercado era de shorts de microfibra e camiseta básica. "É a única coisa que vou comprar, porque tá barato mesmo", explicava a promotora de vendas Sandra Vitorino, 50, enquanto agarrava quatro peças de roupa. "Black Friday é mentira, nunca acredito."

A vontade de Vitorino, na verdade, era de comprar um aspirador de pó, mas o preço do produto, disse, não baixou. Um modelo simples do equipamento estava custando por volta de R$ 350. "Vou ver se compro na internet", reclamava a uma amiga.

Na promoção, a promotora de vendas Sandra Vitorino, 50, só comprou roupa Imagem: Reinaldo Canato/UOL

Onde está todo mundo?

Apesar da expectativa, o que se viu nos supermercados foram prateleiras cheias, carrinhos vazios e um cenário bem diferente daqueles habituais em dia de promoção. Sem dinheiro, o consumidor parece ter sumido.

"Muita gente veio durante a semana, porque desde segunda tem promoção", explicava uma repositora em um atacadista. "Mas eu achei que ia vender mais, viu?". No hipermercado onde ela trabalha, cinco refrigeradores gigantes foram abastecidos com filé de frango, linguiça e hambúrguer para venda em grande quantidade. O estoque permanecia cheio.

No início da tarde, o mercado popular da Mooca continuava como mais cedo, sem movimento. "Pessoal vem mais tarde, à noite", dava fé um funcionário. O refrigerador ficou intacto, com os produtos perfeitamente enfileirados, sem buracos. Faltou trabalho para a repositora.

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